Escrito e determinado

Como é que uma pessoa pode ser moralmente responsável por suas ações, se estas forem determinadas mesmo antes dela nascer? Para que uma pessoa seja moralmente responsável, duas coisas precisam ser verdadeiras: Ela deve ser um agente livre, e deve ser um agente moral (isto é, um agente a quem se aplicam as normas morais). Porém, o que somos, robôs ou pessoas livres?

Afinal de contas, quem  é  que manda neste mundo,  Deus ou nós?  Se  Deus preordena nossas ações, de que maneira somos moralmente responsáveis por elas? Se  Deus determinou o que faremos, devemos fazê-lo? Deus deve ser responsabilizado moralmente pela existência do mal se Ele decretou todas as coisas?

Os questionamentos são infindáveis!

A fornalha da discussão vem sendo alimentada há séculos. Alguns asseguram que predestinação é fatalismo. Se tudo acontece por decreto eterno, fixo, imutável, somos marionetes, a história um dramalhão escrito, dirigido, encenado e inculcado por um diretor implacável! Outros acham que Deus elegeu alguns para a salvação em Cristo, reprovando os demais, ou, que resolveu soberanamente salvar alguns homens tornando-os filhos adotivos quando ainda eram filhos das trevas; teve misericórdia de algumas criaturas e deixou outras entregues à um destino de perdição que Ele mesmo havia traçado de antemão para eles.

Predestinação fatalista não seria arbitrariedade e parcialidade da parte de Deus que não faz acepção de pessoas? Porque Deus predestinaria alguns para a salvação e outros para a perdição, negando-lhes implacavelmente o direito de livre determinação? (Dt 10:17; Ez 18; Rom 2:11). É certo que muitos vão se perder, mas vão se perder porque já nasceram sem chances de salvação? Quem defende esse tipo de conceito pode estar tremendamente equivocado.

A doutrina da eleição, que tantas vezes tem sido interpretada em termos de um determinismo chamado predestinação dupla, na verdade se tornou um grande ensinamento missionário e evangelístico. É uma das excentricidades da exegese, e uma das distorções da doutrina crista. E pelo fato de a eleição de Israel, feita por Deus (Rom 9:1-29), ter sido interpretada de tal forma, tornou-se impossível harmonizá-la com a responsabilidade dos hebreus pelo seu fracasso (9:30 – 10:21). Em desespero, os oponentes calvinistas desperdiçam tempo, discursos e literatura, tentando harmonizar a derrocada de Israel com sua eleição incondicional, como também trabalham para harmonizar a responsabilidade humana com o destino traçado para cada criatura desde a fundação do mundo, doutrina esta que disseminaram durante séculos.

Vamos ao texto

Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda”, Salmo 139:14, 16.

Está ai uma das passagens mais citadas na tentativa de resguardar a doutrina da predestinação absoluta. O rei Davi está dizendo que Deus o viu enquanto estava sendo formado no ventre de sua mãe, e em seguida ele acrescenta: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda”.

A conclusão é a seguinte: “os nossos dias estão contados, determinados e escritos antes que nascemos”. O argumento, inicialmente, parece impressionante, mas há, de fato, uma série de fortes objeções contra ele. Mesmo se optarmos por tomar o assunto do que é “formado” e “escrito” neste versículo, em serem os dias de vida do salmista, não podemos exigir que o comprimento de sua vida fosse inalterável. A Escritura em outro lugar sugere que o que está escrito no livro do Senhor da vida pode ser alterado (Êx 32:33; Ap 3:5). O sucesso de Ezequias em mudar a mente de Deus em relação ao comprimento de sua vida apoia esta perspectiva (Isaías 38:1-5). Observamos como a reação de pessoas podem alterar os decretos de Deus à luz de novas circunstâncias ( Gên 22:12; Deut 8:2; 13:3; Jr 18:6 – 10). A noção de que o que Deus ordena é necessariamente imutável é estranho para a mente hebraica.

Na verdade, o Salmo 139 é uma bela expressão poética do envolvimento momento a momento pessoal de Deus em nossas vidas. Tão íntimo é o seu envolvimento que ele conhece nossos pensamentos antes que os pronunciemos (vs. 2-4). Sua presença amorosa nos rodeia a cada momento, onde quer que vamos (vs. 5-12). E ele está pessoalmente envolvido na formação de nossos corpos enquanto estávamos em gestação (vs. 13-16). O conhecimento de Deus em cuidar de nós é simplesmente insondável (vs. 17-18).

Muitos têm argumentado que o versículo 16 do capítulo implica que o futuro está, para cada ser humano, exaustivamente resolvido/determinado por Deus. Se o número exato de dias que viveremos está determinado na mente de Deus, argumentam eles, todo o futuro deve estar resolvido também. Assim, este versículo tem sido frequentemente citado em apoio à visão clássica do futuro.

Vamos agora para algumas traduções diferentes. A versão King James, por exemplo, diz, “Os teus olhos viram a minha substância ainda imperfeita, e no teu livro todos os meus membros foram escritos, que em continuação foram formadas, quando ainda não havia nem um deles”.

Para modernizar essa tradução um pouco, a KJV está dizendo: “Os teus olhos viram o meu corpo quando ele estava ainda informe. O Senhor gravou no seu livro todos as partes do meu corpo que eventualmente vieram a ser, o que foi feito antes de existirem”. (partes do corpo, como se formaram).

Outra versão, uma tradução judaica, mostra o verso como se segue, “Os teus olhos viram minhas pernas ainda informes… eles foram todos registrados em seu livro, no devido tempo eles foram formados, até o último deles, quando nem um havia”.

Também temos nossa versão, a corrigida e fiel, que atesta: “Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia”.

Assim, as traduções citadas deixam exposta a ideia do original hebraico, que nos permite perceber o que foi pré escrito no livro de Deus: a formação dos membros do seu corpo é que foram pré-gravadas no “livro” – isso se alguém ainda acha mesmo que devemos tomar esse tom poético literalmente.

Como mencionado acima, o tema dos versos 13 a 15 é a formação do corpo de Davi. De fato, na primeira estrofe do verso 16, quando se diz: “Seus olhos viram a minha substância ainda informe“, também diz respeito à consciência íntima que o Senhor tem do salmista, mesmo antes que ele esteja formado. Davi louva ao Senhor pelo cuidado que tem dele, enfatizando a soberania e amor de Deus que o acompanhava desde o útero de sua mãe.Uma interpretação deste versículo que continua na expressão poética do autor do cuidado notável que o Senhor tomou na formação de seu corpo parece mais adequada.

A última parte do versículo 16 não está tratando de predestinação, ou seja: Deus ter estabelecido de antemão o futuro de Davi com erros e acertos . Crer assim é violar o impulso restante do Salmo. Aqui, o salmista pode colocar-se diante do Senhor e orar pedindo a orientação de Deus em sua vida, não porque Deus sabe o que vai acontecer ou porque Deus predeterminou o que vai acontecer, mas porque Deus conhece o salmista, sabe tudo, sendo que nada sobre ele pode ficar oculto para Deus.

Deve-se observar cuidadosamente, insisto,  que estamos diante de uma poesia aqui. É, portanto, um erro tentar tirar conclusões sobre destino imutável, como se os dias do rei estivessem todos gravados num livro, sendo drasticamente impossível que houvesse alguma alteração. Não só isso, mas uma vez que há um trilhão de variáveis que afetam quanto tempo uma pessoa vive, incluindo as decisões livres de outras pessoas deve-se ter cautela ao interpretar o texto, evitando a visão determinista. E se Deus conhece o exato momento da nossa morte, logo, ele deve saber de antemão todo o resto, tendo determinado todos os nossos dias de antemão, com um pacote completo, incluindo doenças e tragédias. Ou seja, se este versículo realmente prova que Deus ordenou cada dia, de cada ser humano, desde o início, e Deus é infalivelmente correto em seu conhecimento de todos e de cada um destes dias, segue-se (logicamente) que nenhum dia sempre ocorre que não tenha sido concebido e orquestrado por Deus.

Não há consideração alguma para muitas pessoas, por exemplo, o quadro patético de fetos sendo formados nos ventres de suas respectivas mães, já com os defeitos congênitos autorizados e programados por Deus (?) desde a fundação do mundo. Essas pequenas e inocentes criaturas, totalmente inofensivas, vem ao mundo aos milhares agarradas umas nas outros – alguns sem cérebro, sem olhos, sem boca e etc., enfim, uma multidão com defeitos e aberrações diversas. Em suma, inexplicavelmente, e de maneira irritante, devemos, segundo muitos intérpretes, acreditar que desde o embrião até a tragédia do nascimento tudo foi conduzido pela vontade implacável de Deus.

É evidente que algo está errado com a interpretação calvinista do texto. Ou toda a raça humana tem estado sob uma fascinante falsa impressão de que nós realmente escolhemos o que fazemos ou essa ideia de predestinação fatalista decretada de antemão é uma deslavada mentira.

Outra coisa que muitos não consideram é que o contexto oferece apenas uma reflexão poética sobre a visão do autor da soberania de Deus. Davi não está aqui fazendo um tratado teológico exaustivo sobre destino traçado de antemão. É claro que o poeta neste momento sente que sua vida está completamente sob o controle de Deus, mas é um grande passo partir deste sentimento poético para uma doutrina que coloca a responsabilidade de cada ação do ser humano sob responsabilidade de Deus. Além do mais, o uso de expressões hiperbólicas no salmo, que era um legado comum da poesia semita, deve advertir-nos contra nossa confiança no contexto para tentar resolver controvérsias doutrinárias sobre predestinação. O ponto dessa passagem é a de expressar poeticamente o cuidado de Deus para o salmista desde a sua concepção, e não resolver disputas metafísicas sobre a realidade do futuro. O rei esta sendo perscrutado, observado e guardado por Deus.

SENHOR, tu me sondaste, e me conheces. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó Senhor, tudo conheces. Tu me cercaste por detrás e por diante, e puseste sobre mim a tua mão. Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir. Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face?” vv 1-7.

Agora, acompanhe as hipérboles usadas pelo salmista: “Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar…”, vv 8,9. O salmista jamais poderia fazer sua cama no inferno, como também não poderia tomar as asas da alva e muito menos poderia habitar nas extremidades do mar.

Observe o verso 13: “Pois possuíste os meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe”. O salmista continua se expressando de forma poética louvando o cuidado de Deus com sua vida. Não se pode interpretar literalmente que Deus possuiu os rins de Davi, como não podemos literalizar as palavras do rei nos versos que falam sobre escrever “todos os seus dias num livro quando nem um deles ainda havia”.

Fico me perguntando como pode ainda existir pessoas que crêem piamente que Deus tem um livro no céu onde ele já escreveu os dias – cada um deles – de cada ser humano que habita na face da terra ( hoje são sete bilhões, sem contar os que já morreram), desde o dia do seu nascimento até sua morte, determinando como cada um deve viver, como falar cada dia, como entrar e sair, como gesticular, como comer e beber e como pecar e ser bom, como matar, roubar e destruir. Não faz sentido algum condenar à perdição aqueles que não obedecem seus mandamentos, pois se acreditamos que Deus já os programou de antemão, então eles não merecem responder por seus atos.

Por outro lado, não poderia haver mesmo coerência alguma estabelecer que antes do homem cair no pecado contra a vontade de Deus esse mesmo Deus já ter determinado para Davi que ele se comportasse mau em várias etapas da sua vida. Como conciliar que Deus já determinou desde a eternidade que o rei Davi sujaria suas mãos com sangue inocente se o ato de Adão e Eva foi chamado de transgressão? Em outras palavras: Se Deus determinou desde antes da fundação do mundo o mau na vida de Davi, devemos entender que ele também programou a queda de nossos primeiro pais, como também determinou todas as tragédias que ocorrem no mundo inteiro.

… Isto não faz sentido algum… Deus não pode ser ridicularizado dessa forma.

Há pessoas que não se constrangem em acusar a Deus pelos males que acontecem. Ao longo das Escrituras encontramos inúmeros incidentes em que pessoas, fazendo uso do seu livre-arbítrio, afastaram-se do plano de Deus, e acabaram tendo que suportar as desastrosas conseqüências de suas próprias ações. Foi assim que o pecado entrou no mundo (Gn 3), a despeito das advertências divinas para evitar esse mal (Gn 2:15-17). Foi também assim que muitos idólatras israelitas acabaram perdendo a vida (Êx 32), em decorrência de sua atrevida desobediência às leis divinas (Êx 20:1-6). E será pela obstinada recusa de aceitar o convite divino à salvação que muitos se perderão, apesar da vontade de Deus ser que “nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (Pe 3:9). O princípio da escolha e de suas conseqüências é claramente enunciado nas palavras “aquilo que o homem semear, isso também ceifará”. (Gl 6:7).

Destinados para a vida eterna

“… e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna“, Atos 13:48

O texto é difícil. Se o interpretamos da mesma forma que o lemos, ele derrubará não só os argumentos deste modesto estudo, mas também toda a mensagem do Novo Testamento, trazendo confusão e desânimo à fé cristã. É bem provável que o significado exato do contexto, é aquele que diz que os gentios que creram, o fizeram em virtude de perceberem o fato de que o plano divino de salvação também os  incluía. Ora, eles também estavam destinados a salvação, ou, a salvação também estava destinada a eles.

Aquele território estava abarrotado de gentios. Por este motivo o texto diz, “creram todos os que estavam destinados à salvação“. A salvação não é mais só para os judeus. O Deus que salva não faz mais acepção de pessoas. Por outro lado, a palavra “destinados” pode significar pouco mais que “dispostos”, referindo-se à preferência humana. Assim sendo, esse versículo passaria a fazer alusão às disposições naturais daqueles ouvintes gentios da Palavra de Deus. Creram tantos quantos “assim se dispuseram” (conforme a tradução essencial de Whitby e Adam Clarke, os quais se referem à boa disposição mental desses ouvintes, o que se destaca mais, no texto sagrado, do que qualquer pensamento sobre alguma predestinação divina). A frase significa que nem todos na cidade creram no Evangelho.

Embora à primeira vista Atos 13:48 parece ensinar que Deus escolhe (ou seja, nomeia) pessoas a serem salvas, nada poderia estar mais longe da verdade com o que está claramente evidenciado, se compararmos esta passagem com outras Escrituras. Por exemplo, considere as palavras de João 1:12,

Mas a todos quantos o receberam , deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, aos que creem no seu nome“.

A palavra τεταγμενος, traduzida como destinados em algumas versões, e ordenados em outra versões, vem do verbo ταττω ou τασσω (“tasso”),  que  significa “a nomear, organizar, colocar em ordem, ordenar ou decretar, dispor, colocar em conjunto“,  que foi considerado aqui como implicando a disposição ou prontidão de espírito de várias pessoas, como os prosélitos religiosos mencionados em Atos 13:43, que possuíam  o reverso da disposição dos judeus que falaram contra aquelas coisas, contradizendo e blasfemando ao que Paulo dizia, Atos 13:45. Observe todo o contexto até o versículo em estudo,

43    E, despedida a sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos religiosos seguiram Paulo e Barnabé; os quais, falando-lhes, os exortavam a que permanecessem na graça de Deus.

44 E no sábado seguinte ajuntou-se quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus.

45 Então os judeus, vendo a multidão, encheram-se de inveja e, blasfemando, contradiziam o que Paulo falava.

46 Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: Era mister que a vós se vos pregasse primeiro a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios;

47 Porque o Senhor assim no-lo mandou: eu te pus para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação até os confins da terra.

48 E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna.

Os judeus – considerados predestinados por excelência – contradiziam e blasfemavam, mas os prosélitos e os gentios ouviam atentamente, recebendo a palavra da vida. O partido dos judeus estava totalmente indisposto através de sua própria teimosia, para receber o evangelho, enquanto os outros, destituídos de preconceito e indisposição, foram felizes em saber que, na ordem de Deus, os gentios também foram incluídos (destinados ou ordenados) no pacto de salvação através do Senhor Jesus.

Porém, se queremos interpretar o contexto através da visão calvinista, poderíamos afirmar que o Apóstolo Paulo dizia apenas que aos gentios foi dada a salvação, sendo assim  também eles ordenados para a vida eterna.

A  palavra no original grego  não é usada uma vez nas Escrituras para expressar predestinação eterna de qualquer tipo. A soma é, todos aqueles gentios que  foram alcançados pela salvação, agora se dispuseram a acreditar. Não que Deus rejeitou o resto, mas era  sua vontade que eles também  fossem salvos. Portanto, o Apóstolo Paulo não usou os verbos gregos equivalentes a Pré-ordenados e Predestinados ( προτεταγμενοι ou προορισμενοι), mas simplesmente τεταγμενοι (“tasso”) , que não inclui  nenhuma idéia de pré-ordenação ou pré-destino. E, se ele o tivesse feito, seria bastante perigoso afirmar que  todos aqueles que acreditaram neste momento eram os que realmente perseveraram  até o fim, e foram salvos para a vida eterna.

Seja qual for a nuança exata das palavras, não há sugestão alguma de que receberam a vida eterna independentemente de seu próprio ato de fé. Também, não vemos no texto nada que sugere que os que não creram  o fizeram porque já estavam predestinados à perdição.

 

Nomes que não estão escritos no livro

“… Os que habitam sobre a terra e cujos nomes não estão escritos  no livro da  vida desde a fundação do mundo …”  (Apoc. 17:8).                       

Vários intérpretes de inclinação acentuadamente calvinista vêem aqui uma boa dose de «determinismo» como se um nome tivesse sido registrado ou não neste livro, por um decreto divino fixo. Em outras palavras, muitos nomes nunca seriam ali escritos. Essa expressão, é claro, sugere a ideia da predestinação, para a destruição,  por tratar-se de expressão altamente determinista. Rejeitamos, contudo, as idéias da reprovação ativa e da reprovação passiva, até onde vai essa expressão. Apesar de que tal ponto de vista era sustentado por alguns rabinos, e, portanto, provavelmente também por alguns cristãos primitivos, devemos observar que o próprio Apocalipse constitui um convite ao arrependimento, que as pragas que sobrevirão e que ali são preditas, tem a intenção de levar os povos ao arrependimento. (Ver Apoc 2:21; 9:20,21; 16:9,11; e 22:17). Certamente Deus não haveria de zombar dos homens com um falso oferecimento do bem, o qual só pode ser obtido através do arrependimento. Naturalmente, este versículo tem natureza determinista; mas o N. T. contrabalança toda a ideia de determinismo com o ensinamento do real livre-arbítrio do homem, o que o torna responsável por aquilo que ele faz.

“Desde a fundação do mundo”. Isso também figura em Apoc 13:8; mas é provável que ali a expressão seja usada para referir-se ao “Cordeiro que foi morto” nos propósitos divinos, “desde a eternidade passada”. Cristo foi «conhecido de antemão» desde «antes da fundação do mundo». Ele sofreu «desde a fundação do mundo». Todos estes casos sugerem a predestinação, porquanto os eventos, por assim dizer, foram determinados antes da existência do homem, ou desde os primórdios mesmos da terra, ou mesmo antes de qualquer criação. Mas, somente no que se refere à Cristo essa situação é corretíssima. A expiação de Cristo é referida como algo determinado. Não foi algum «pensamento tardio» de Deus, e o pecado não o tomou de surpresa, sem qualquer provisão para o mesmo. A nossa salvação não foi um pensamento posterior de Deus, como um remendo. Graças a Deus por isso! O princípio de sacrifício e redenção é mais antigo que o mundo, pois, na realidade, pertence à essência mesma da deidade. Neste caso específico de Cristo, é algo inteiramente intemporal.

 As conexões da expressão «desde o princípio», segundo alguns estudiosos, seriam com a palavra «escrito», em outras palavras, a eleição seria eterna, desde o passado eterno. Entretanto, uma interpretação mais racional e convincente, seria vincular a expressão «desde o princípio» em 17:8 ao vocábulo «morto» como em 13:8; e, nesse caso aplicaríamos os termos, à expiação que seria concebida como algo que foi planejado desde a eternidade, ou, pelo menos, planejado desde os tempos mais remotos. Sendo assim, entendemos que o nome de alguém é arrolado nos Céus devido a sua fé na expiação de Cristo.

O livro mencionado neste texto de Apocalipse tem uma longa história antes da referência de João a ele (cf. Êx. 32:32; Dan.12:1).  João cria que esses nomes haviam sido escritos no livro desde a fundação do mundo (17:8), mas esta predestinação era condicionada à fé e à fidelidade do homem, visto que Deus podia apagar ou riscar um nome do livro (Êx.32:33). Podemos concluir também, que aqueles que não foram achados escritos no livro são “os  profanos, idólatras, sodomitas, os mentirosos, os cães, os feiticeiros e todos que vivem em pecado. Estes tais não herdarão o reino de Deus”. Compare com Gl 5.19,20 e Ap 21.8; 22.15. Sendo assim, um outro argumento forte quanto a questão do texto, seria que, os que jamais teriam seus nomes escritos no livro mencionado poderiam ser os pecadores que jamais entrariam no reino de Deus. É como se João trouxesse a memória dos leitores que nenhum idólatra, avarento, impuro, ladrão etc, de maneira nenhuma teria seu nome escrito nesse livro, o que é a pura verdade. Não acredito que Deus, lá da eternidade tenha visto o Paulo da Silva que nasceria no século 21, já estaria predestinado a perdição eterna e consequentemente seu nome não poderia ali ser listado. Os pecadores sim e as ações deles é que podem ser escritas neste livro. Regras, e não nomes e endereços. O outro lado também pode ser real, o lado dos cristãos.

A fé não é de todos

Preaching-Of-St-Paul“… Para que sejamos livres de homens perversos e maus;  porque a  fé  não é de todos”  (II Tess. 3:2).

Os discípulos de Calvino  forçam a parte final do presente texto até não poderem mais. Sua tese é que, como “… a fé não é de todos …”, então, nem todos os homens podem ser salvos em hipótese alguma.

Entretanto, não é isso que o texto ensina. “Porque a fé não é de todos”, visa ser uma explicação da conduta hostil de alguns. Paulo estava em Corinto, a cidade ímpia e má, onde nãotodos tinham fé; de fato, poucos (cf. Atos 18:1-11) . aqui pode ser entendida no sentido de confiança (“nem todos os homens exercem fé”), ficando subentendido que  nem todos vão aceitar a nossa mensagem. O apóstolo Paulo transmite o conhecimento de que, embora a oração seja em prol da pregação bem sucedida da Palavra, nem todos creem (ou crerão).

O obstáculo ao progresso triunfante do Evangelho na área missionária do próprio Paulo achava-se na opinião humana que tinha de enfrentar. O apóstolo previa – na primeira parte do versículo – perigos da parte dos descrentes, judeus que eram seus oponentes. O que Paulo tinha em mente era a obstinação dos judeus. Era a rejeição deles a Jesus, como o Messias, que levantava sério problema. A iniquidade proposital daquela gente aumentara ao ponto que eles mesmos se tinham afastado propositadamente (não que eram predestinados), e nem se deixaram influenciar pelo Espírito Santo não querendo mais depositar confiança em Cristo. E é isso que a experiência cristã ensina; é possível que alguns indivíduos se obliteraram, individualmente, de qualquer possibilidade de virem a confiar em Cristo mediante rebeldia voluntária, o que é um estado trágico, mas onde se chega quando se rejeita voluntariamente a luz.

Paulo mostrava, por conseguinte, que os crentes tessalonicenses não se deveriam surpreender ante a horrenda obstinação de alguns homens contra o Evangelho e contra seus seguidores. Mas antes, deveriam compreender que os homens podem chegar a um estado de alma inteiramente caracterizado pela incredulidade, motivado pela perversão mais irracional. Tais indivíduos se mostram destruidores, havendo grande abundância deles no mundo atual.

Deus é quem efetua em vós …

“Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade”, Fil 2:13. 

Temos aqui um outro texto que o calvinismo radical promove em defesa de sua doutrina. Além de afirmar que Deus salva a quem quer e envia para o inferno pessoas que não terão chances de misericórdia, propagam ainda que Deus controla cada gesto, atitude, gostos, palavras e etc, de cada indivíduo.

Não devemos entender este versículo como um decreto que determina anteriormente nossas palavras e ações mesmo antes de serem tomadas, ou, que nossas ações como crentes estão todas determinadas por Deus.

 As palavras “… porque Deus é quem efetua …” mostram o lado “divino” da salvação contínua, tal como o versículo anterior mostra o lado “humano”. Ambos esses aspectos dizem uma verdade, e, apesar de parecerem contraditórias essas declarações, até certo ponto, na realidade não são assim as coisas, pois Deus, está sempre com o crente, mas o crente é salvo ao corresponder à graça divina nos termos descritos no versículo anterior. Deste modo, tanto o querer como o efetuar são operações da graça divina manifestada e produzida pela boa vontade de Deus. À primeira vista, parece que toda a responsabilidade é removida dos filipenses, exceto talvez, o consentimento passivo para permitir que Deus trabalhe no meio deles. Não é dito aqui que as ações dos filipenses estão estabelecidas e determinadas antes mesmo de serem tomadas, e que cada gesto ou palavra que gera uma ação, estão predeterminadas, em minúcias, por Deus. No contexto, Paulo provavelmente introduz a promessa da ajuda divina para assegurar a seus amigos que, visto que ele não pode estar com eles (“em minha ausência”), eles não deveriam desesperar-se, mas lembrar-se de que a assistência graciosa de Deus (a “boa vontade ativa” de Deus) encontra-se disponível para efetuar tanto o querer como o realizar (gr. energein, deixa implícita a ação positiva, permanente de levar a aspiração humana à realização). Os versículos 12 e 13 nos ensinam que nossa salvação do pecado dia após dia não é uma coisa que Deus faz sem a nossa vontade, mas consiste de duas partes: 1) Querer a vontade de Deus, e 2) efetuar a vontade de Deus.

“… efetua em vós…” No grego temos aqui o verbo “energeo“, que significa “operar”, “atuar”, “trabalhar”, “vitalizar”. Tudo quanto houver de bom em nossas ações também vem pela operação do auxiliador, o Espírito Santo da Graça, concedido pela boa vontade de Deus que passa a atuar em nós. Portanto, aconselhar, exortar, consolar, fortalecer, estimular e interceder, como atividades do Espírito Santo em nós, são legítimas e evidentes no presente versículo.

Em seus aspectos práticos a concretização do poder de Deus, que em nós reside, nos fornece “a base do encorajamento”, bem como um “incentivo”; pois sabemos que essa estupenda realização chamada “salvação”, pode ser levada a seu término perfeito em nossas almas, posto tratar-se de uma realização divina, e não somente humana. Deus garante a nossa segurança, pois Ele não pode negar-se a si mesmo. Nesse aspecto, e no que depender de Deus, seu amor e providência estão sempre disponíveis; “o Espirito está pronto, mas a carne é fraca” disse o Senhor Jesus. Assim, nós devemos perseverar em obediência até o fim. Nós erramos, mas Deus não! Ora, sabendo disso, devemos ser levados em espírito de humildade e ação de graças, especialmente quando vemos que o amor de Deus vai aumentando diariamente em nós.

“… o querer …” Vemos aqui os impulsos íntimos do coração, mediante o que um homem pode dizer “eu quero”, “eu espero”. Todas essas afirmativas refletem a disposição, o “desejo” do indivíduo. Portanto, o que é dito aqui reflete o resultado direto da influência do Espírito Santo.

O “realizar“, no presente contexto, diz respeito àquelas coisas que acompanham a salvação e a levam a perfeição, a vida moral e a santificação; mas, de maneira geral, todas as coisas contribuem para compor uma vida leal a Cristo; e ao cumprirmos a vontade de Deus, nós mesmos vamos sendo transformados à imagem de Cristo, sempre sob a orientação e ajuda do Espírito Santo.

segundo a sua boa vontade …” Literalmente, diríamos aqui “… em favor de sua vontade …” O sentido destas palavras precisa ser norteado pelo sentido que o trecho de Efé 1: 5,9 lhe dão: levar a realização de seus propósitos soberanos e graciosos para com os homens, na redenção humana oferecida na pessoa de Cristo. Essa é a vontade de Deus, e esse é o seu beneplácito. E isso se manifesta de muitas maneiras em nossa vida diária. Portanto, aprendemos que a vontade divina não envolve uma preferência arbitrária, mas antes, tem alvos específicos e benéficos atinentes aos homens. Tudo está unido ao amor paternal de Deus, operando em nós na qualidade de filhos Seus. As palavras “… boa vontade …”, no original grego, são uma palavra só, “eudokia“, que significa “favor”, “beneplácito”, “boa vontade”. Todas essas expressões referem-se à benevolência de Deus; e Suas operações em nós levam-nos ao bem estar final, a saber, a salvação de nossas próprias almas. Essa é sua vontade.

Preexistência de Paulo e Jeremias

«Jeremias 1:5 diz o seguinte: “Antes que Eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e antes que saísses da madre, te consagrei e te constituí profeta às nações“.   E Gálatas 1:15, diz: Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça…”.

A frase “antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci…” em Jeremias, e, “…ao que me separou antes de eu nascer e me chamou…” em Gálatas, não pode nunca se referir à Deus ter mantido algum tipo de relacionamento com um Jeremias ou um Paulo preexistente. Em vez disso, refere-se à existência pré-natal de ambos, no ventre de suas respectivas mães.

A expressão «conhecer de antemão» (gr. proinosko)  também significa «unir-se antes com alguém». Seria absurdo admitirmos que essa maneira de entender o texto bíblico nos leve a crer que Deus já nos conhecia antes de o mundo existir, na eternidade, significando a nossa preexistência. Não é possível usar Gálatas 1:15 e Jeremias 1:5, e afirmar que Paulo e Jeremias foram escolhidos antes da fundação do mundo, sem violentar as Escrituras.

O calvinismo supõe que temos aqui a predestinação de Deus, baseada exclusivamente na vontade dele, sem qualquer outra consideração. “Deus faz o que quer”. Acha ele que o propósito de Deus é racional, mas as razões dele são escondidas de nós. Acreditam eles, que a melhor maneira para explicar tais fenômenos, como aquele que temos neste texto, é de supor que a alma é preexistente. Neste caso, a pessoa é escolhida para uma missão especial por causa da «história» dele, como ser espiritual. Essa história prepara a pessoa para cumprir missões especiais. Assim, as pessoas até podem merecer uma alta missão por causa de uma diligência espiritual extraordinária da vida anterior (?!). As escolas dos fariseus e essênios, no tempo de Jesus, aceitaram e ensinaram esta doutrina, ligada com a reencarnação. Os pais alexandrinos ensinaram a ideia sem reencarnação, pensando que a alma tem vivido em esferas espirituais antes da vida física.

A expressão “antes de eu nascer” em Gálatas, literalmente no grego, é “desde o ventre de minha mãe“, palavras essas que podem significar “desde o tempo do nascimento“, ou então “desde antes do nascimento“, tal como em nossa versão portuguesa, que esclarece o significado quando registra: “Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça”. Esta última possibilidade também é usada na Septuaginta (tradução do A. T. hebraico original para o grego, completada cerca de duzentos anos antes da era cristã). (ver Jui 16:17; Isa. 44:2,24; 49:1,5). Semelhantemente, temos em Jeremias o mesmo significado.

Aos que conheceu… predestinou

“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou”, Rom 8:29

Temos aqui alusão à «presciência de Deus». Esse conhecimento anterior não indica mera presciência acerca da fé ou da escolha humana. Os próprios crentes – o povo crente – é que são «conhecidos de antemão», e não a fé deles. O uso dessa expressão é similar àquilo que se lê em Amós 3:2, onde se diz: “De todas as famílias da terra somente a vós outros escolhi… “. Não há aqui, por conseguinte, qualquer pensamento acerca de uma fé prevista, exercida pelo livre-arbítrio humano, embora isso também seja uma verdade, mas não expressa na presente passagem. Antes, está em foco um povo «conhecido de antemão»

A ideia aqui transmitida para nós indica uma espécie de amor preordenado, de familiaridade anterior, de preocupação e interesse por muitas criaturas (a Igreja – veja Ef. 3:10,11), da parte de Deus. O trecho de I Pd. 1:2 pode ser similarmente interpretado, porque ali, por semelhante modo, não há qualquer declaração no sentido que Deus prevê aqueles que haveriam de crer, tendo escolhido os mesmos, embora muitos interpretes tenham forçado essa significação sobre este trecho petrino, por igual modo. Pedro lembra os leitores da sua posição privilegiada e segura como alvos da escolha soberana, graciosa e eterna de Deus para serem o seu povo em e através de Jesus Cristo. Inclui a escolha amorosa, eficaz de Deus, bem como o seu propósito (Rm 8.29).  Esse conhecimento anterior, portanto, é uma espécie de amor previamente determinado, a força que provoca a eleição para a salvação. É importante notarmos que o apóstolo Paulo não alude aqui a algum conhecimento anterior passivo ou vazio, com se isso quisesse dizer que Deus meramente viu de antemão que alguns seriam isto ou aquilo, fariam isto ou aquilo, ou creriam. O conhecimento prévio de Deus envolve um povo, e não a conduta dos mesmos; não importa «o que», e, sim a «quem» Ele conheceu de antemão. Está mais em vista o conhecimento amoroso ou «preocupação» de Deus. «Conhecer de antemão», portanto, pode referir-se ao propósito «interno» de Deus, que vem a ser externamente exercido em Sua eleição e predestinação divinas.

É provável que o conhecimento prévio que Deus tem de seu próprio povo indica a Sua peculiar e graciosa complacência neles, ao passo que a sua «predestinação» ou «preordenação» dos mesmos significa o seu «propósito» fixo que disso se deriva, de salvá-los e chama-los com santa vocação (ver II Tim 1:9).

Isso (a presciência) diz respeito ao amor eterno de Deus em favor de Seu próprio povo, o deleite que Ele sente neles a Sua aprovação a eles; nesse sentido é que Deus os conheceu, tendo-os conhecido de antemão, sentindo um infinito deleite e prazer neles; é esse o alicerce da predestinação e eleição deles, de sua conformação com Cristo, da sua chamada, justificação e glorificação. A predestinação se baseia no “conhecimento anterior” de Deus, no sentido que o Seu «amor eterno» e «preocupação e interesse» é que está em foco ( o que é a predestinação, conforme essa ideia é empregada aqui, não estando em foco a mera previsão ). Portanto,  Aqueles “sobre quem fixou Seu coração de antemão” são os que se tornaram alvos de seu decreto determinador –  o Seu povo, a Sua Igreja, que é o Seu corpo, a morada de Deus (cf Amós 3.2). Pode ter sido este  o plano traçado de antemão. Esse decreto determinador    não  é um mero pronunciamento judicial, mas, é sem dúvida acompanhado por um poder orientador e criador, através do Espírito Santo, para cumprir o propósito preordenador de Deus.

O grande alvo da predestinação é a chamada dos crentes dentro do   tempo, e o resultado de ambas as coisas é a transformação do crente segundo a imagem de Cristo. A predestinação ou conhecimento prévio, a primeira das quatro grandes idéias do verso 29, significa que Deus amou o homem antes que o homem amasse a Deus (cf. I  Jo 4:19). Muitos seguem a ideia de Orígenes, de que Deus predestinou com base no seu conhecimento antes que ocorram, mas tal racionalismo perde de vista toda a ideia de amor.

A premonição de Deus a respeito do homem antes que este conheça a Deus não torna a predestinação inevitável, como geralmente presume a tradição agostiniana calvinista. É estranho como se dá pouca atenção às claras palavras de advertência escritas por Paulo: “Outrora, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses; agora, porém, que já conheceis a Deus, ou melhor, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, os quais de novo quereis servir?” (Gál. 4:8,9).

O problema da predestinação nunca poderá ser resolvido, se se presumir que, sem exceção, os que são conhecidos por Deus estão predestinados para a glória. O monergismo sempre termina em predestinação dupla ou no universalismo. Se Deus faz tudo, Ele é responsável por tudo o que acontece; mas se o homem é responsável pela reação que tem, então o resultado da parte do homem é condicional. A predestinação condicional significa que o verdadeiro destino do homem é alcançado apenas onde há fé o tempo todo, até que se alcance o alvo. Este tipo de salvação é um caminhar, e não um salto, em que Deus sustém o homem pelos cabelos a qualquer custo! É uma comunhão e não fatalismo. O destino dos que permanecem em Cristo é o destino do próprio Cristo. Ele é o predestinado, e o crente é predestinado nele (cf, Atos 2:23: 4:28). As claras palavras de Paulo, aqui, devem ser colocadas no contexto da graça, mas não devem ser separadas da fé.

Deus “nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para Si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado” (Ef. 1:5,6). O homem não está em dificuldades porque é número seis, nem vai para o céu porque é número sete (jogo de palavras em inglês). Ele estará em dificuldades se não reagir de maneira positiva e permanente à graça de Deus, e terá a sua salvação concretizada se crê e continuar a crer em Cristo Jesus. Da mesma forma como alguém chega a Curitiba porque embarcou em um avião destinado a Curitiba, uma pessoa também chega a glória porque permanece em Cristo, que foi predestinado à glória. Predestinação significa que sabemos para onde estamos indo, antes de chegarmos lá.

Paulo não cai na incongruência dos fariseus , pois dificilmente ele usaria o termo destino. Os fariseus ensinavam que tudo depende do destino e de Deus; não obstante, a escolha do certo ou errado, em sua maior parte cabe ao indivíduo.

Não depende de quem quer

Romanos 9 verso 16 declara, “Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece”.

O raciocínio lógico imediatamente se antecipa e diz: “Está aí, Deus é quem age nas ações dos homens, e, independente de qualquer esforço que possam fazer para serem bons, Deus é quem decide suas atitudes finais”.

Na pior das hipóteses eu posso chamar isso de aberração infantil, expressa por uma mente calvinista ao extremo. Isso é gerado pela falta de atenção nos textos anteriores e os posteriores, o que chamamos de CONTEXTO. Foi dessa forma interpretativa que muitas heresias adentraram à nossa fé sem que percebêssemos, causando prejuízos irreparáveis em milhares de vidas.

O contexto anterior e posterior mostra alguns personagens da história do povo de Israel, onde observamos a interferência do poder divino – na escolha – quando se trata de Esaú e Jacó. E, em outro episódio bem conhecido quando a Escritura declara que Deus endureceu o coração de Faraó. Vou tratar aqui neste tópico sobre este ultimo, o rei do Egito, e em seguida vou fazer um comentário sobre outros textos paralelos relacionados a responsabilidade humana e a vontade de Deus.

O texto imediato diz o seguinte,

“Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, [Deus] compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer”, vv 17,18.

Alguns textos declaram enfaticamente: “o Senhor endureceu o coração de Faraó” (Êx 4:21, 7:3, 9:12, 10:1, 20, 27, 11:10, 14:4 e 8). Em contrapartida, diversos outras passagens afirmam que o próprio Faraó “endureceu o seu coração” (Êx 8:32, 9:34 e 35, 13:15). E há um terceiro grupo de textos que declaram simplesmente que “o coração de Faraó se endureceu” (Êx 7:13, 22, 8:19, 9:7).

Nesse episódio, Faraó, foi o instrumento de Deus para que este mostrasse seu poder diante do mundo egípcio. É evidente que Paulo está passando pela história da salvação de Israel, ao apelar para Moisés, depois de ter apelado para os patriarcas. O seu estilo ao dizer: Porque diz a Moisés… diz a Escritura a Faraó, equilibra o lado brilhante dos atos de Deus com o lado escuro. Contra o pano de fundo do episódio do Velho Testamento, todo o argumento magnifica a misericórdia de Deus mais do que a sua justiça (cf. 4:3-5).

As palavras da Escritura a Faraó apresenta o lado escuro. A Escritura é personificada por Deus, indicação da alta estima em que Paulo tinha o Velho Testamento. Deus havia levado o Faraó do Êxodo “para o palco da história, a fim de mostrar o seu poder e se fazer conhecido em toda a terra”. A Escritura é Êxodo 9:16. A resistência de Faraó a vontade de Deus foi a ocasião de Deus para (1) exibir o seu poder no acontecimento do Êxodo e (2) proclamar o seu nome em toda a terra. O efeito desse evento sobre outras nações é mencionado freqüentemente no Velho Testamento (Êx. 15:14,15; Jos. 11:10,11; I Sam.4:8). Da mesma forma como o verso 16 é a conclusão da palavra de Deus a Moisés, o verso 18 é a conclusão da sua palavra a Faraó.

Obviamente, quando a Escritura declara que Faraó endureceu seu coração, não deve significar que seu ato foi produzido por um arbitrário decreto divino de predestinação para a perdição, mas significa sim, que as escolhas anteriores de Faraó e sua rebeldia desenfreada é que causaram esse endurecimento.

Temos vários exemplos que poderíamos citar usando as leis naturais deste mundo para tentar explicar o que pode ter ocorrido com Faraó, mas vou apresentar apenas um. Sabemos que o mesmo sol que derrete a cera endurece o barro. Porém, fica patente que o sol não é o problema, mas sim a forma com que os dois elementos reagem ao calor: “um derrete enquanto o outro endurece”. Assim, de forma similar, podemos ter certeza que o problema de Faraó não era Deus, mas o próprio Faraó, que reagia às mensagens divinas de admoestação e arrependimento com ironia e dureza. Quando ele deveria se humilhar aos apelos divinos, mais ele resistia. Portanto, dessa forma é que podemos entender o contexto quando diz ter sido o Senhor  àquele quem causou o endurecimento do coração do rei egípcio. Entretanto, devemos também reconhecer que Faraó ultrapassou os limites da misericórdia divina até o ponto culminante dos juízos serem derramados, tendo como consequência a inevitável catástrofe, que foi  o aniquilamento final de Faraó e seu exército.

Não vemos no presente contexto qualquer insinuação de predestinação para a perdição ou salvação. A história não trata de  perdição eterna decretada de antemão.

Entretanto, se não depende de quem quer ou de quem corre, sugerindo que Deus seria o responsável por toda a minha carreira cristã, do começo ao fim, incluindo boas e más atitudes, fracassos e sucessos, sendo Ele o responsável por tudo, como poderíamos entender passagens como Colossenses 1.22,23 e II Timóteo 2.3,5?.

 Vou  abrir um espaço aqui para analisar somente o que Apóstolo tentou ensinar em II Timóteo 2.3,5:

“… igualmente o atleta não é coroado, se não lutar segundo as normas“. A expressão é uma alusão ao atletismo, geralmente usada por Paulo no bom sentido na luta do crente para alcançar o alvo (I Cor. 9:24,26; Fil. 2:16; 3:12). O sentido correto dos textos trata da carreira cristã do indivíduo, e não de sua entrada como membro no corpo de Cristo. A figura apresentada em Timóteo 2:5 é a de um atleta que precisa competir segundo as regras da disputa. Um servo do Senhor Jesus precisa ser fiel às exigências de sua vocação, fazendo da Palavra e da vontade de Deus o seu padrão em todas as coisas e circunstâncias. A imagem do atleta, aparentemente, enfatiza a necessidade de disciplina fiel. “Lutar Legitimamente” (em algumas traduções) pode significar: (1) de acordo com os regulamentos específicos do jogo em questão, ou, mais provavelmente, (2) de acordo com as regras que incluíam prescrições referentes ao treinamento preliminar. Nos jogos olímpicos, que tinham regras especialmente rígidas, cada competidor precisava jurar que havia treinado durante pelo menos dez meses antes dos jogos. O pensamento aplicado a esta recomendação é: para alcançar o prêmio, o crente precisa aceitar a responsabilidade da disciplina.

Agora, vamos trazer o verso em discussão (Rm 9.16)  para dentro do contexto da graça, e tentaremos mostrar que o Apóstolo Paulo não fez nenhuma referência aos predestinados à salvação e aos predestinados à perdição – ou seja, aqueles que já foram desde a eternidade implacavelmente preordenados por Deus para o céu ou para o inferno, como declara o calvinismo radical nas seguintes palavras: “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus que usa de misericórdia” .

Vamos colocar o versículo dentro do plano de salvação, pois acredito ser mais coerente fazendo assim. Ora, em se tratando da salvação, não dependeria mesmo “de quem quer ou de quem corre,” pois os indivíduos dependem de Deus. Em sendo Ele o autor e consumador da salvação, a justiça, não é por obras, mas por aquele que chama, excluindo destarte todo o mérito humano. Assim, ninguém é chamado por ser bom demais, e ninguém é rejeitado por ser demasiadamente mau. E nesse sentido devemos entender que nem o propósito e nem o esforço humano entram na eleição divina. É pela graça! Deus em Cristo salva o homem. E isso é dom de Deus, não vem de nós. Deus agiu sozinho em Cristo, em oferta por nossos pecados. Assim entendemos melhor o que Jesus quis dizer diante da murmuração dos judeus: “Ninguém pode vir a mim, a não ser que isto lhe seja dado pelo Pai” (Jo 6.44). Um pouco antes Ele havia dito ao inquiridor Nicodemos “Ninguém pode ver o reino de Deus, se não nascer de novo” (Jo 3.3).  Não é a minha maneira, nem a sua, e muito menos a dos judeus. Foi por isso que Jesus lhes deu este tipo de resposta. Assim não depende de quem quer e de quem corre mesmo.

Outra verdade é que, primeiro Deus vem ao encontro do homem através da pregação e depois cabe ao homem o arrepender-se através da fé (Atos 2:37,38). A responsabilidade humana não deve jamais ser negada aqui, apesar de todos não passarmos de pecadores,  a menos que Deus venha ao nosso encontro através de sua misericórdia soberana. E foi justamente isso que Ele fez; Deus apareceu no Calvário! O Deus «que usa de misericórdia» propôs a Cristo como propiciação por nossos pecados, através de nossa fé em seu sangue. Isso é um amor infinito, exibido quando o pecado humano estava em seu ponto máximo de culpa e iniquidade.

Portanto, esta  salvação não dependeria “de quem quer ou de quem corre”, quer seja bom ou mal. A fonte de salvação é declaradamente Deus, pois foi ele quem apresentou Cristo na Cruz nos salvando. Os que são coroados pela salvação são abençoados por causa da demonstração divina da misericórdia através de Cristo. É bem provável que Paulo tivesse em mente a impossibilidade de qualquer indivíduo merecer qualquer coisa aos olhos de Deus. Portanto, qualquer coisa que um homem recebe, de alguma forma se alicerça sobre a misericórdia e a graça de Deus.

Amei a Jacó me aborreci de Esaú

Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho.  E não somente esta, mas também Rebeca, quando concebeu de um, de Isaque, nosso pai;  Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú”.

A explicação dos defensores da dupla predestinação é engenhosa. Como Deus preferiu Jacó e rejeitou Esaú, logo, Deus salva alguns e rejeita outros. Porém, não é essa a exata interpretação do texto.

Em Romanos 9:9 a 13, o apóstolo Paulo usa duas referências do Velho Testamento – o trecho de Gên. 25:23, “E o Senhor lhe disse: Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor” e Malaquias 1.2,3, que declara: “…  Não era Esaú irmão de Jacó? disse o Senhor; todavia amei a Jacó, e odiei Esaú“.

Na referência o uso é menos pessoal e mais nacional. «Amei a Jacó, porém me aborreci de Esaú» deve ser isto interpretado no sentido de duas nações, não dos indivíduos, segundo se deduz da referência original das duas citações do Velho Testamento. Jacó, o mais novo, teria um papel mais importante que o do irmão Esaú. Deus o escolheu  para ser o ancestral do Messias. Esaú, citado em Hebreus 12:16 como  “impuro” e “profano”, perdeu seu direito de primogenitura. Contudo, nada se diz dele ter perdido sua salvação no contexto de Gênesis. A escolha de seu irmão Jacó para um papel de destaque não significava que ele, Esaú, devesse perder sua salvação. Esaú e seus descendentes, os edomitas, não tiveram a mesma importância histórica que tiveram Jacó e os israelitas.

O contexto geral de Gênesis sobre Esaú e Jacó “não tem relação nenhuma com eleição deles para salvação. É incluído no contexto um outro caso, o de Ismael, e em cada um,  Paulo demonstra a escolha de Deus para garantir a sua promessa de redenção, tendo uma nação separada para o nascimento do Messias. Não dá para dizer que Esaú ou Ismael foram predestinados para não serem salvos. Longe disso, o Anjo abençoa Hagar e Ismael no deserto de Padã-Arã e Isaque abençoa igualmente a Esaú (ainda que com uma benção inferior a de Jacó). A forte expressão “odiei a Esaú” no versículo 13 deve ser vista como um típico exemplo de hipérbole oriental, que expressa as coisas em termos de extremos. Além disso, na língua hebraica “amar” geralmente significa “favorecer”, e “odiar” pode significar “amar menos”. Observe, por exemplo, que em Gênesis 29.21, 33, a RSV traduz a palavra hebraica odiar literalmente, enquanto a NIV traduz a palavra como “não amada”. Essa versão reconhece, à luz de Gênesis 29.30, que Jacó amava Lia menos do que Raquel; ele não a “odiava”.  A  palavra hebraica para odiada é traduzida “não amada” na NIV e “desprezada” na RSV. Portanto, é sensato dizer que com tudo isso, a rejeição de Esaú por parte de Deus não significa necessariamente que este foi predestinado para não ter salvação. Ele foi rejeitado simplesmente para Jacó e seus descendentes serem  favorecidos no plano de redenção”. (1)

Além disso, «amor» e «aborrecimento» não são fundamentos de eleição, como nós entendemos estes sentimentos subjetivos. Deus não é arbitrário em Sua escolha e não pode ser acusado de favoritismo irracional. Os termos sentimentais indicam antes uma função e um destino nacionais. Judá, e não Edom, foi eleito para a revelação progressiva na história. Israel deveria ser o veículo das bênçãos espirituais para as outras nações, e, nesse sentido, se tornar a mais elevada de todas as nações. Mas mesmo diante do aparente fracasso da nação predestinada,  o pináculo de tudo foi ocupado pelo Messias, o qual veio ao mundo por intermédio de Israel. Em nenhum momento da interpretação o texto bíblico sugere tratar-se da salvação e perdição de alguém,  Portanto, é lícito afirmar que essa referência dupla se aplique as duas nações, bem como as bênçãos espirituais, e não a salvação individual. E além disso nada mais é dito no texto, senão que “o mais moço será servo do mais velho” (v.12).

Literalmente, Esaú nunca serviu a seu irmão Jacó. Quando é dito em Romanos 9:12 que “o mais velho servirá o mais novo”, a profecia somente teve cumprimento com os seus descendentes.

Como foi dito, a referência  “amei a Jacó e odiei a Esaú” é uma citação do livro de Malaquias 1:1-4. Em Malaquias, esses nomes representam os povos que descenderam de Jacó, e os que descenderam de Esaú, os edomitas. Em vista de que os edomitas haviam perseguido os judeus, Deus disse: “desolarei a vossa terra. . .”

Direito de primogenitura e salvação

Deus prometeu o direito de primogenitura a Jacó. Significava isso que Esaú não podia salvar-se? Logicamente não. Em parte alguma das Escrituras lemos que Esaú não podia ser salvo.

Esaú de fato buscou o direito de primogenitura com lágrimas, e foi incapaz de obtê-lo, mas em parte nenhuma a Bíblia diz que ele não poderia salvar-se. Na realidade, a Bíblia diz é que Deus amoleceu o seu coração para com o irmão, e ele o acolheu no fim de sua vida (Gênesis 33:4).

Nada há absolutamente nas Escrituras que tome esse verso de Romanos 9 para aplica-lo ao destino eterno de indivíduos.

(1) FERNANDO, Samuel – Resposta de um arminiano ao Rev. Augustus Nicodemus

Última atualização em 09/06/2014

Cristo morreu por TODOS

Romanos 5.6 nos informa que, “no devido tempo, … Cristo morreu pelos ímpios”. O versículo 10 acrescenta: “Se quando éramos inimigos de Deus fomos reconciliados com ele mediante a morte do seu filho, quanto mais agora, tendo sido reconciliados, seremos salvos por sua vida!”.

Segundo o Apóstolo Paulo, “o amor de Cristo nos constrange, porque estamos convencidos de que um morreu por todos; logo, todos morreram … Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não lançando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação” (II Co 5.14,19). Ele acrescenta: “Ele morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (v.15).

Ora, é evidente que muitos irão se perder. Mas mesmo assim, Cristo morreu por todos. O texto continua para dizer que, com base no que Cristo fez na cruz, devemos ainda instar com o mundo: “Somos embaixadores de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o seu apelo por nosso intermédio. Por amor de Cristo lhe suplicamos: Reconciliem-se com Deus” (v.20). Assim, a reconciliação por meio de Cristo torna a salvação deles possível . Eles próprios, pela fé, tornam a sua salvação real, se assim o desejarem. “Um [Cristo] morreu por todos” (v.14), para tornar essa salvação possível. Entretanto, a Bíblia nos diz, num outro lugar, que o que impede seu desejo de ser cumprido não é o escopo universal do seu amor (Jo 3.16), mas a rejeição voluntária de algumas criaturas que “não quiseram” (Mt 23.37).

O escritor aos Hebreus reforça: “Vemos, todavia, aquele que por um pouco foi feiro menor dos que os anjos, Jesus, coroado de honra e de glória por ter sofrido a morte, para que, pela graça de Deus, em favor de todos, experimente a morte.” Cristo morreu em favor de cada um, não apenas dos eleitos. Esse é o significado claro do texto.

Agora, vamos enfrentar o verso que é o carro forte dos mensageiros da dupla predestinação. Jesus, em João 17.9, fez a seguinte oração: “Eu rogo por eles. Não estou rogando pelo mundo, mas por aqueles que são teus.” O “eles” é claramente uma referência a seus discípulos (v.6). Os calvinistas extremados afirmam que Jesus explicitamente negou estar orando pelo “mundo” dos incrédulos. Se essa afirmação é verdadeira, seria um apoio ao ensino de que a expiação é limitada aos eleitos, os únicos por quem Cristo orou.

Resposta

Não é tão difícil refutar um argumento quando ele não tem base bíblica. Devemos observar – e que não é tão complicado assim –  é que essa oração foi feita num daqueles momentos em que Jesus estava rogando ao Pai que desse especial atenção aos seus discípulos. Ora, isso aconteceu em várias ocasiões. Poderíamos esquecer que este é o capítulo 17 do Evangelho de João? Além do mais, o fato de Cristo somente orar pelos eleitos nessa passagem não prova em si mesmo que nunca tenha orado pelos “não-eleitos.” É evidente que ele orou pelos “não eleitos”. Sua oração: ”Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo” (Lc 23.34) evidentemente incluía pessoas que são consideradas não- eleitas. Se ele nunca se preocupou com o mundo dos incrédulos, porque ele lembrou aos seus: “peçam ao Senhor da colheita que mande trabalhadores para a sua colheita?” (Lc 10.2). Para onde irão os pregadores da Palavra se o campo é o mundo? Veja Mateus 13.18 e compare com 16.15.

É bem verdade, e está explícito nas Escrituras, que Jesus chorou por causa dos incrédulos (Mt 23.37), mesmo sabendo que nem todos seriam salvos (Mt 13.28,30, ele orou para que incrédulos fossem salvos (Jo 11.42).

O Apóstolo Paulo – inspirado pelo Espírito Santo, que  é o próprio Jesus – nos exorta a fazer orações por todos os homens. Veja Timóteo 2.1 e compare com Rm 10.1.

Mesmo se pudesse ser demonstrado que Cristo não orou pelos “perdidos desde a fundação do mundo”, isto não quer dizer que não os tenha amado e que não tenha morrido pelos seus pecados. Uma oração especial por aqueles que se tornariam crentes é compreensível (Jo 17.20). O fato importante é que Jesus queria que todo mundo fosse parte de sua família (Mt 23.37; I Tm 2.4,6; II Pd 3.9).

Assim como uma só transgressão resultou na condenação de todos os homens, assim também um só ato de justiça resultou na justificação que traz vida a todos os homens” Rm 5.18.       

É lamentável ver como muitos torcem a Palavra de Deus para nada. É louvável e digno de aplauso descobrir  como os argumentos em favor da verdade, podem detonar, como se fossem dinamite, qualquer muralha de heresias que se levanta contra os ensinamentos de Cristo

Que diferença isso faz? 

É possível que o leitor a essa altura pergunte: e daí, que diferença faz se alguns creem na predestinação fatalista, ou se outros querem crer que Deus no final irá salvar todos os  homens, e mesmo até que seja possível perder-se a salvação ou não?

Francamente, a resposta a essa pergunta é que isso faz uma enorme diferença sobre o que cremos. As convicções afetam a conduta e, por isso, as idéias têm consequências. Boas idéias conduzem a boas consequências, assim como más idéias levam a consequências más. Uma pessoa que crê que a cancela em frente à linha férrea está emperrada, quando na verdade o trem está chegando, será morta! Quem acredita no gelo quando o lago está congelado pode afundar se o gelo é fino. Do mesmo modo, a doutrina falsa pode levar a ações falsas.