O Governo de Deus

predestinationSe Deus criou agentes finitos com certo grau significativo de liberdade, segue-se que Ele haveria de levar tal fato em consideração ao exercer seu governo no mundo. Na verdade, é isto mesmo que a Bíblia sugere.

A Bíblia nos apresenta Deus como sendo a força superior que não se fixa em Seu direito de dominar, mas recua para dar lugar às suas criaturas. Ele nos convida para dominar o mundo, mas vê-nos tentando subtraí-lo do próprio Deus.  Chama Israel para ser seu servo, a fim de mostrar ao mundo o seu caráter, mas a nação fracassa, errando cada vez mais.  Quando Deus enviou Seu próprio Filho, fez o papel de um servo, e não empurrou as pessoas na direção da obediência.  O Espírito de Deus pode ser entristecido, extinguido e resistido.  A Bíblia não nos fornece o retrato de um Deus determinador de todas as coisas, mas de um Deus que abre espaço para os seres humanos, e aceita as conseqüências, boas e más, dessa decisão.  Até mesmo quando nos rebelamos contra Deus, Ele permite que trilhemos esse mau caminho.   Todavia, Ele nos chama de volta, e vigia nosso retorno (Luc. 15:11-32).  Deus abre mão de parte de seu poder a fim de ganhar nossa participação voluntária, coisa que Ele almeja ardentemente.  Podemos falar de uma auto limitação voluntária de Deus, quando Ele decidiu criar o tipo de mundo que de fato criou.

O reino de Deus é a expressão chave usada por Jesus para exprimir a soberania de Deus.  O Senhor proclamou a vinda do reino, uma época em que a vontade de Deus será feita na terra como no céu.  Ele contemplava ao longe, como o fizeram os profetas antes dele, aquele período de paz e justiça.  O governo de Deus recebia resistência selvagem e destrutiva.  O reino estava presente de forma misteriosa, porém não em pleno poder, ainda.  A soberania integral seria algo que se estabeleceria no futuro, após muita luta.  O reino de Deus demonstra a natureza do governo de Deus:  permite oposição, e opera em meio aos desafios que vai encontrando.

A oração também ilustra meu conceito. Deus promete ouvir nossas orações e lhes responder.  Tiago o diz ousadamente: “Nada tendes, porque não pedis” (4:2).  A oração pode mudar o futuro.  Por causa da oração, as coisas podem ser diferentes do que seriam sem ela.  “Pedi, e dar-se-vos-á” (Mat 7:7).  Isto deve querer dizer que Deus nos chama para exercer nossa coparticipação ao seu lado no governo do universo.  O plano de Deus está aberto.  Verdadeiramente, Deus aceita a influência de nossas orações para as decisões que Ele vai tomar.  A oração é prova de que o futuro está aberto,  e jamais fechado.  Demonstra que os acontecimentos futuros não estão predeterminados e fixos.  Se você crê que a oração muda as coisas, todo o meu conceito já está estabelecido.  Se você não crê, é que você está longe da religião bíblica.

A soberania de Deus, então, não deve ser considerada planta arquitetônica de tudo quanto vai acontecer, um decreto pré-temporal, singelo, que fixa tudo, cada coisa em sua posição, antes mesmo de a história iniciar-se.  A soberania de Deus refere-se ao invés, à atividade de Deus, o qual estruturou o mundo, e está desenvolvendo seu plano salvífico na esfera da história.  Os objetivos do plano são imutáveis (por exemplo, convocar as pessoas para virem ter comunhão com Deus).  Todavia, a execução desse plano é flexível, e adapta-se aos acontecimentos.  Deus está constantemente tomando decisões relacionadas com a implantação de Sua vontade.  Deus reage aos eventos no tempo e faz com que todas as coisas cooperem para o bem.  Porém, não se trata de uma situação controlada, em que nada inesperado acontece, e tudo sai exatamente como Deus quer.  Seria relativamente simples administrar um mundo em que Deus pudesse contar com todas as coisas acontecendo conforme Ele as decretou

Mas, é Deus onipotente mesmo?  Muitos, certamente, podem alegar  que Deus seria finito, se ele não controlasse, de antemão, cada detalhe deste mundo.   É claro que Deus é onipotente.  O poder para criar um mundo com agentes livres certamente é um “poder onipotente”!  Só um ser onipotente teria o tipo de poder necessário para concretizar tal projeto.  O poder da tirania pode fazer que as pessoas obedeçam sob ordens, mas exige-se um tipo de poder muito superior para criar-se a delicada flor do livre-arbítrio humano, e com ele trabalhar.

Deus exerce o tipo de onipotência compatível com a decisão tomada por ele próprio, de criar um mundo de agentes livres.  Jamais os teístas afirmaram que Deus poderia fazer coisas impossíveis, ou contraditórias.  Deus usa seu poder para sustentar o mundo que ele criou, e para promover a salvação dos homens, mas de maneira não-coercitiva.  Onipotência quer dizer que Deus pode fazer aquilo que ele decidiu que fará.  ele poderia criar uma raça de autômatos, se ele assim o desejasse.  E poderia criar seres capazes de praticar atos de livre-arbítrio.  Ao decidir-se por esta última alternativa, ele revelou – não negou – sua onipotência.

Para concretizar seus propósitos, Deus estabelece certos planos de ação, os quais podem envolver pessoas individualizadas, ou nações.  Através de Abraão, ele pretendeu formar uma nação mediante a qual todas as nações seriam abençoadas (Gên. 12:1-3).  Deus providenciou, através de Faraó, a libertação de Israel do cativeiro (Êx 9:16); através de Nabucodonosor e dos babilônios, puniu Judá por ter este povo abandonado a Deus; e através de Ciro, restaurou a Israel, levando-o à sua terra (Is. 44:28).  Deus encarnou-se a fim de redimir a humanidade e destruir as obras do diabo (1 João 3:8).

Pode-se ver, nestas ações, a atuação direta e indireta de Deus.  Por um lado, Deus freqüentemente trabalha mediante as leis naturais que ele mesmo estabeleceu para sua criação. Às vezes, ele opera (e tem poder para isto) de maneiras que se superpõem às leis naturais.  Entretanto, se Deus consistentemente estivesse interrompendo tais leis naturais, o mundo logo se tornaria um caos, no qual a ação moral humana seria impossível.  Sem a regularidade e a ordem, não poderíamos planejar nem calcular racionalmente as ações que deveríamos executar, a fim de atingir nossos objetivos.  Seria impossível predizer os resultados de nossas ações.

Deus também se envolve direta e indiretamente nos assuntos humanos.  Exatamente como nós fazemos, Deus também às vezes compele as pessoas a agirem de determinada maneira, limitando a importantíssima liberdade moral de tais pessoas, isto é, parece que Deus, nesses casos, intervém diretamente.  Por exemplo, Êxodo registra que Deus endureceu o coração de Faraó (9:12), embora não fique bem claro se aqui houve uma ação direta de Deus, ou se trata da conseqüência indireta das decisões anteriores de Faraó.  Entretanto, não se pode crer que Deus sempre opera diretamente a fim de atingir Seus objetivos.  Fazer isto seria equivalente a eliminar a liberdade humana, o que tornaria impossível nos achegarmos a Ele de boa mente em amor e, com a ajuda do Espírito Santo, escolher o bem por nós mesmos.  É através da persuasão que as intenções de Deus se concretizam, na maioria das vezes, visto que a persuasão é bem consistente com o livre-arbítrio humano, e com o desenvolvimento moral e espiritual que ela mesma induz.  Deus nos chama, nos estimula, nos disciplina, nos inspira e nos ama.  É assim que temos a história contada por Jesus, a parábola do fazendeiro que continuamente envia mensageiros e, finalmente, envia seu próprio filho, a fim de persuadir seus arrendatários a fazerem sua vontade.  É claro que, no fim, o próprio fazendeiro vem julgar os arrendatários.  Mas, o julgamento se faz quanto ao fato de terem sido livres na maneira de tratar seus mensageiros.

Deus é soberano, não um romancista.  Ele não determina, nem faz acontecer todas as coisas; os propósitos dele são gerais e ao mesmo tempo específicos, porém não incluem todas as minúcias da existência humana.  Ele não apenas opera através de Suas leis naturais, criadas por Ele mesmo, como também (e isto é sumamente importante) Ele confiou Seu programa, em parte pelo menos, às pessoas.  Isto significa, naturalmente, que às vezes os planos e propósitos de Deus são frustrados.  Antes do grande dilúvio, Deus expressou exasperação em face daquilo em que a humanidade se havia tornado, e se propôs a reiniciar tudo outra vez, senão no todo, pelo menos através da linhagem de Noé (Gên 6:5-8).  O rei Saul demonstrou que era desobediente, desacatando as ordens divinas, e Deus determinou que estabeleceria nova linhagem, começando com Davi (1 Sam. 15 e 16).  Até mesmo o propósito último de Deus, que todas as pessoas o reconheçam como Senhor, parece irrealizável.  Deus está tomando providências para a separação das ovelhas e dos cabritos, e para uma espécie de julgamento final que implica na separação eterna de sua presença (Mat 25:31-46;2 Tess. 1:7-9).  Estas passagens, e muitas outras mais, sugerem que os propósitos imediatos de Deus, bem como Seus planos, nem sempre são executados e realizados, porque Ele os confiou a mãos humanas.  Assim sendo, em épocas diferentes, de tal maneira que seu propósito último, a unificação do cosmos sob Cristo, possa ser atingido.

Embora os planos de Deus para o estabelecimento real de Seus propósitos sejam diferentes, em épocas diferentes, em reação aos atos das pessoas com quem Ele estabeleceu alianças, existe um fio de eternidade ligando Seus propósitos, baseados em Sua onisciência (At 2:23; Ef. 3:8-11).  Deus jamais fica perplexo diante da recusa da parte do homem para cooperar.  Há coisas que Deus pode fazer a fim de produzir o bem a partir do mal – sendo o paradigma disto a encarnação e a cruz de Cristo.  Contudo, em tudo e por tudo percebemos que Deus não brinca de faz-de-conta na história de cada indivíduo, e na história humana.  Ele poderá, no fim, assumir soberanamente as obras dos homens, mas Ele o fará mediante o perdão, a redenção e a graça.

Deus está envolvido neste mundo por vários meios, os quais promovem Seus propósitos providenciais e escatológicos.  Contudo, Deus está simultaneamente envolvido com métodos que usam as leis naturais.  Tais métodos são consistentes com o livre-arbítrio que Ele nos concedeu.

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4 comentários sobre “O Governo de Deus

  1. Nobre amigo,

    Ao ler o texto, surgiram duas curiosidades:

    1 – A onipotencia de Deus poderia incluir a auto-limitaçao?
    2 – Deus seria escravo de Seus atributos, de tal forma que, mesmo querendo, Ele nao pudesse se auto-limitar em algum aspecto?

    Com toda sinceridade, se considerarmos que Deus è onisciente, onipresente e onipotente e que ele busca um relacionamento sincero com Suas criaturas, a impossibilidade da auto-limitaçao divina transforma a historia humana numa grande peça de teatro, ou numa especie de jogo de faz-de-conta (falo como homem).

    Se a auto-limitaçao nao fosse possivel, como poderiamos explicar, entao, o fato da Biblia demonstrar, em determinadas passagens, que:

    1 – Deus estava incerto em relação a alguns eventos futuros (Am 5.15; Ex 32.30; Ez 12.1-3 e Jr 26.2-3);

    2 – Deus estava frustrado porque pensava que o Seu povo ira agir de forma diferente (Jr 3.7 e Jr 3.19-20)

    3 – Deus se ira em determinados momentos (Sl 30:5);

    4 – Deus nao é indiferente, apatico e destituído de afeto, mas demonstra simpatia e compaixão para com Suas criaturas (Is 40.11; 49.15; 53; 63.1-10; 66.13; Jo 3.16; Ef 4.30; Hb 4.14-16).

    5 – Deus pode ser afetado positivamennte com as nossas oraçoes (1 Rs 8.12-66);

    6 – Deus pode ser afetado negativamente pelo pecado e impiedade humanas, a ponto de desencadear o Seu juizo (Jr 4.23-28 e Jl 2.10).

    7 – Deus, na pessoa de Jesus Cristo, expressou tamanha ternura e compaixão para com Suas criaturas, chorando com os que choravam e se alegrando com os que se alegravam (uma prova clara de toda a Sua sensibilidade e de que seus sentimentos nao eram meros antropomorfismos).

    O Bispo Ildo Mello costuma dar um exemplo que parece caracterizar muito bem a relaçao entre Deus e Suas criaturas. Ele compara tal relaçao com a gravaçao de uma corrida de Formula 1, a qual ele nao pôde assistir, em virtude de um compromisso que tinha exatamente na hora em que a corrida aconteceu.

    Ao final do compromisso, ele retorna para casa, fazendo questao de nao saber o resultado da corrida, de forma que, ao chegar em casa, ele a possa assistir como se ela estivesse acontecendo naquele exato momento.
    Dessa forma, para ele, as ações de Deus não estao predeterminadas e dependem, em parte, das ações dos homens, as quais contribuem significativamente para a construção do futuro.

    Assim sendo, para ele, Deus seria um grande mestre de xadrez que, a despeito dos lances do adversário, conduz o jogo para sua vitória, lançando mao da Sua onisciencia somente quando lhe conviesse.

    Concluo, dizendo que a prova irrefutavel de que Deus pode, sim, se auto-limitar, sem perder a soberania, parece ser a propria encarnaçao.

    Deus te abençoe!!!

    1. Prezado irmão em Cristo,

      Interessante e muito útil seu comentário. Além do que você argumenta, eu vou acrescentar algumas coisas sobre Deus dentro do meu limitado conhecimento. Por exemplo, muitos nem querem discutir se Deus é uma pessoa pelo fato de o terem confundido com uma coisa do outro mundo, semelhante a um mago, que munido de uma bola de cristal pode ver todas as coisas passadas, presentes e futuras, que ele determinou desde o princípio sem que pudessem ser alteradas. No meio evangélico milhões pensam dessa forma. Isso é um erro terrível. Estamos envolvidos com uma pessoa. Ele é um Deus pessoal. Ele sente, e ele altera seus sentimentos de acordo com o agir de suas criaturas.

      Eu argumentei em outro tópico que Deus age em tempo presente e em sequência, acompanhando a história cambiante. Ou seja: a história que se desenvolve. Porém, ele tem sempre pronto seu livramento e cuidado com os seus – Ele vê, cuida e acompanha. Deus está envolvido com a história ao contrário do que muitos afirmam: que Deus se retirou deixando suas criaturas ao acaso.

      Deus fala com o homem para que este tenha luz e não ande em trevas, e o homem deve responder favorável a Deus, do contrário será punido, o que não faria sentido nenhum se tudo estivesse determinado desde o princípio para cada um dos seres humanos. Em outras palavras: Deus não poderia punir ninguém se este faz o que ele determinou desde a fundação do mundo.

      Estava agora mesmo me lembrando de um debate que assisti no pragrama Vejam só. Um Calvinista afirmou que Deus determinou de antemão quem vai para o céu e quem vai para o inferno. O seu argumento insinuava que o João que mora na casa b, Rua 4 no bairo bom destino, já estava determinado para ser salvo, e que o Pedro, morador da Rua c casa 5, também do bairo bom destino, estava determinado à perdição. Isso é insano e contagioso. Ele poderia ter sido muito feliz em sua conclusão se dissesse que os que vão para o inferno são todos aqueles que estão envolvidos com adultério, prostituição, impureza, lascívia, Idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas. Paulo garante que tais pessoas não herdarão o reino de Deus (Galatas 5:20).

      Uma coisa eu tenho ceteza, caro amigo: Deus não planejou a queda de nossos primeiros pais.

      Voce me pergunta se Deus em sua onipotencia se auto limita. Como eu disse: Ele é uma pessoa, mas criou nosso mundo com agentes livres. Adão caiu, mas não foi feito para cair!

      Se Deus tivesse criado o nosso mundo com tudo já determinado desde o princípio, eu acredito que Ele iria interferir no exato momento anterior a queda do homem.

      Abraços

      Dê uma olhada no artigo DEUS e o Tempo

  2. Entendi, irmãos.
    Deus se autolimitou…
    -Autolimitou de quê ou em quê?
    Resposta : Do futuro.
    -Que futuro ?
    Resposta : As coisas que irão acontecer.
    – Hum, então há coisas que irão acontecer que Deus sabe?
    Resposta : Sim.
    – Como ele sabe?
    Resposta: Sabendo, vendo, etc.
    – Portanto, sem entrar no mérito do construtor desse futuro que não é hipotético, Deus vê e sabe o que vai acontecer e faz questão de participar do presente conosco para construir o futuro alheio a nós e não a Ele.
    É. ..
    Ele determinou esse futuro.
    Predisse esse futuro.
    Ninguém e nada o surpreende.
    Há o fixo para ser consultado. Fixo, fixado por Ele e consultado por Ele para conosco construir o presente.
    Glória a Deus.
    Glória a Cristo.
    Creio ter sido claro.

    1. Amigo Jozimar, observe o sentimento de Deus aqui diante da constante desobediência do seu povo. Veja como o profeta Oseias se expressa no lugar de Deus: ” Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque a vossa benignidade é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa”, Os 6:4. Leia mais alguns artigos do site para poder ter uma visão melhor de quem realmente é Deus.

      Abraços

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