DEUS e o Tempo

Na história da teologia cristã, tem-se entendido a eternidade de Deus de duas maneiras. Alguns aprenderam que Deus existe fora do tempo, e que  Ele jamais experimenta duração. Outros, todavia crêem que  Deus existe no tempo, experimentando duração interminável, isto é, a existência de Deus estende-se indefinidamente para trás e para frente no tempo. No entanto, devemos ver Deus como um ser que Se relaciona com os eventos à medida que acontecem, e não independente do tempo. Deus não pode ser o tipo de Ser que entra e sai da existência. Ele é essencialmente eterno. Contudo de que maneira havemos de entender essa eternidade?

A perspectiva de que Deus não tem duração (abstrai-se do tempo)  entrou na teologia cristã a partir do pensamento grego. Introduziu-se porque alguns eruditos julgavam-na mais consistente com o fato de ser Deus imutável e perfeito. No entanto, esse  deus que se abstrai do tempo não é o  Deus da Bíblia! As ações produtivas são necessariamente dependentes do tempo, e sequenciais. Há uma época, anteriormente ao evento causativo, em que a pessoa ainda não havia agido a fim de produzir um efeito, e há uma época subsequente, em que a pessoa age para produzi-lo. De outra forma não se pode explicar a produção de um efeito num dado tempo. Consequentemente, a imutabilidade máxima e a total abstração do tempo são atributos incompatíveis com um ser produtivo. O Deus judeu-cristão é produtivo, tanto em termos de Sua criação original como de Sua atividade criativa contínua. Numa determinada época, Ele fez surgir o universo pela Sua palavra. Ele continua a trabalhar criadoramente nesse mundo mediante atividades que denominamos de miraculosas. De modo particular, Ele responde às petições de Seu povo, uma ação necessariamente sequencial, visto que Ele age após as petições. Ele também se revela, e a sua vontade de modo sequencial (Ef 3:1-12). De forma importantíssima isto mesmo ocorreu quando Deus enviou seu Filho num tempo determinado (Gál  4:4), isto é, no tempo certo.

Além do mais, um Deus abstraído do tempo, é incompatível com a descrição escriturística de alguns atos mentais de Deus. Consideremos apenas um exemplo: as Escrituras declaram que  Deus se lembra de nossos pecados, ou esquece-os (Sal. 25:7; 79:8; 86:5; Lc 11:4). Ou, para dizê-lo de maneira mais teológica, a redenção conseguida por Cristo altera nossa posição diante de   Deus, de tal maneira que, embora em  certa ocasião  nos considerasse  pecadores,  agora Ele não o faz (Rom 5:8,9). Contudo, lembrar-se ou esquecer-se e perdoar, são atos sem sentido se a pessoa que se lembra, ou se esquece e perdoa não experimenta o que seja antes e depois. Parece impossível tentar eliminar o aspecto temporal de Deus, sem que se altere o significado essencial dos termos usados para descrevê-lo. Que poderia significar, então, que Deus lembra,  esquece, perdoa, ou se revela, a menos que, à semelhança de quem se lembra,  esquece ou se revela, experimenta duração sequencial?

Em suma, a total abstração do tempo é inconsistente com o   Deus escriturístico. Deus, soberana e providencialmente, intervém na natureza e nas atividades humanas, e esta intervenção acontece em tempo presente e em seqüência.

Que se dirá, então, da imutabilidade de Deus? Será que esta doutrina deve ser negada por alguém que acredita que Deus experimenta duração? Não o creio. Deus é imutável, mas Sua imutabilidade deve ser entendida corretamente. Por um lado, Deus é imutável em Sua natureza e caráter básicos. Ele era, é e será sempre um Espírito divino, eternamente existente, onisciente, bom, misericordioso, amoroso e justo (Sal.102:27; Tiago 1:17). Visto que Ele jamais muda de caráter, pode-se confiar nele (Mal.3:6).

Por outro lado, Deus muda em Sua natureza conseqüente; isto significa que Deus muda pela maneira como estes atributos divinos se manifestam no mundo, Deus está em relacionamento constante e criativo com o mundo. Assim, à medida que o mundo e as pessoas mudam em relação a si mesmos, e entre si e Deus, assim também Deus muda em relação a eles. Com respeito à Sua onipotência, Deus voluntariamente limitou Seu poder quando criou seres com capacidade de tomar decisões. No que concerne ao amor, Ele demonstrou isto de várias maneiras, em diversas épocas, às vezes mediante a piedade (Joel 2:18; Sal 103:13; Is 63:9), às vezes mediante a disciplina (Sal.118:18; Heb.12:6), e às vezes mediante bênçãos (Sal.23:5); Com respeito aos seus propósitos, permanecem os mesmos em essência, embora quanto às minúcias e à maneira como Deus opera para realizá-los, Ele esteja em constante diálogo com as pessoas a quem procura persuadir, a fim de que transformem Seus objetivos em realidade, aqui na terra. Vamos mencionar apenas dois exemplos. Em várias ocasiões, Deus arrependeu-se da ação punitiva que havia decidido executar contra Seu povo, porque este não obedecerá à Sua orientação, e rejeitara Sua direção. Em tais casos, Deus escolheu outros veículos para realizar Seus planos (I Sam. 15-16). Em outros casos, Deus determinou que tomaria algumas decisões retributivas. Porém, quando os transgressores se arrependem, Deus exprime sua tristeza por ter pensado em puni-los, e assim perdoa aos que se arrependem (Êx 32:12,14; Sal 106:45; Jon 3:10).

A Bíblia diz meramente que Deus é eterno. Isto significa que Ele é capaz de envolver-se no tempo e na história. Deus planeja e executa Seus planos. Deus executa atos e assegura suas conseqüências – tudo numa seqüência temporal. Pensar em Deus como alguém que se abstrai do tempo é ameaçar todo o conceito bíblico. Sugere que Deus não pode ser agente que trabalha sequencialmente, no tempo, e que a mudança temporal é uma ilusão. Se Deus conhece a história como sendo presente, fora do tempo, nossa impressão de que algumas coisas pertencem ao passado e outras ao futuro é mera ilusão. Aquilo que aconteceu no ano de 1240 A. D., e aquilo que vai acontecer no ano de 2097 A. D., ficam igualmente no presente, em algum lugar na terra onde não existe tempo. Não gosto deste conceito por duas razões: primeira, porque é destituído de sentido; e segunda, porque destrói a mensagem bíblica. 

Deus percebe os acontecimentos no tempo e age no tempo

Todavia, dito isso, para evitar uma compreensão equivocada é preciso completar a definição da eternidade de Deus: “..ele, porém, percebe os acontecimentos no tempo e age no tempo”. Paulo escreve: “…vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei” (Gl 4.4-5). Deus observava nitidamente e sabia exatamente o que acontecia com os eventos da Sua criação enquanto se desenrolavam no tempo. Podemos dizer que Deus observava o avanço do tempo à medida que os vários acontecimentos ocorriam na Sua criação. Então, no momento certo, “vindo… a plenitude do tempo”, Deus enviou seu Filho ao mundo.

É evidente em toda a Bíblia que Deus age dentro do tempo, e age de modos diversos em diferentes momentos do tempo. Por exemplo, Paulo diz aos homens de Atenas: “Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda a parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou…”(At 17.30-31). Essa afirmação inclui uma descrição de um modo anterior segundo o qual Deus agia, do Seu modo presente de agir e de uma atividade futura que Ele executará, tudo no tempo.

Sempre existiremos no tempo

Será que algum dia participaremos da eternidade de Deus? Especificamente, no novo céu e na nova terra que hão de vir, será que o tempo ainda existirá? Alguns supõem que não. E lemos nas Escrituras: “A cidade não precisa nem de sol, nem de lua, para lhe darem claridade, pois a gloria de Deus a iluminou, e o Cordeiro é a sua lâmpada… porque, nela, não haverá noite” (Ap 21.23,25; cf. 22.5).

No entanto, não é verdade dizer que o céu será  “intemporal” ou alheio à presença do tempo ou à passagem do tempo. Antes, como somos criaturas finitas, necessariamente experimentaremos os acontecimentos um após os outros. Mesmo a passagem que fala sobre a inexistência da noite na cidade também menciona o fato de que os reis da terra levarão à esta metrópole celestial “a glória e honra das nações” (Ap 21.26). “As nações andarão mediante a sua luz” (Ap 21.24). Essas atividades de levar coisas até a cidade celestial e andar mediante a sua luz implicam que os acontecimentos vêm uns após os outros. Algo está fora da cidade celeste e, depois, num momento posterior do tempo, essa coisa faz parte da glória e da honra das nações levadas até a cidade celeste. O ato de depositar a coroa diante do trono de Deus (Ap 4.10) exige que num momento a pessoa esteja com a coroa e, num momento posterior, essa coroa seja depositada diante do trono. O ato de entoar um novo cântico de louvor perante Deus no céu exige que uma palavra seja cantada depois da outra. De fato, lemos que a “arvore da vida” da cidade celeste dá “o seu fruto de mês em mês” (Ap 22.2), o que implica uma passagem regular de tempo e a ocorrência dos eventos no tempo.

Portanto, ainda haverá um sucessão de momentos encadeados, e as coisas continuarão a acontecer umas após as outras. Experimentaremos vida eterna não numa exata reprodução do atributo divino da eternidade, mas antes numa duração infindável de tempo; nós, como povo de Deus, vivenciaremos plenitude de alegria na presença de Deus por toda a eternidade – não no sentido de que já não experimentaremos o tempo, mas sim no sentido de que nossa vida com Ele continuará para sempre: “Então, já não haverá noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem de luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e reinarão pelos séculos dos séculos” (Ap 22.5).

Fonte

Predestinação e Livre Arbitrio – Autores: Norman Geisler, John Feinberg, Bruce Reichenback, Clark Pinnock – Editora MUNDO CRISTÃO

 

 

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2 comentários sobre “DEUS e o Tempo

  1. Eu amo esse Deus que apanha os sábios na própria astucia deles, é loucura tentar definir o próprio Deus, enquanto o homem não entender suas palavras, jamais entenderá seus mistérios, levando em consideração, que suas palavras, são a expressão exata de seu ser.
    Isso que os homens falam a respeito das escrituras, não é de se admirar, porque ele mesmo disse que muitos tentariam perscrutá-lo, mas seriam envergonhados, porque só entende as coisas do espirito de Deus, aqueles a quem ele quiser revelar-se, pois o homem natural para Deus eles são como os animais, que perecem, e só entende seus mistérios os espirituais, esses nem se quer podem ser julgados por minguem.

    1. Estou sentindo cheiro de Calvinismo no seu comentário. Presumo que você deva ver Deus como um terrorista que vive espalhando destruição por esse mundo afora. Imagina você, caro amigo: Deus castigou alguém e alegou que o castigo foi por causa da transgressão que o pecador cometeu. Dizendo em poucas palavras: Deus puniu porque não fizeram a sua vontade!

      Tens ideia do que isso implica? Implica que alguém fez algo que não estava nos planos de Deus. Se não estava nos planos de Deus, então não foi ele quem determinou desde a eternidade.

      Vou lhe dar um exemplo bíblico. Veja o que Deus fala através do profeta Jeremias:

      Construíram nos montes os altares dedicados a Baal, para queimarem os seus filhos como holocaustos oferecidos a Baal, coisa que não ordenei, da qual nunca falei nem jamais me veio à mente” (Jeremias 19:5).

      Sabe o que os Calvinistas fazem com o presente texto? Dizem que o ato foi ordenado por Deus desde antes da fundação do mundo. Na verdade, Deus não ordenou, não pensou nem falou nada daquilo. Um absurdo concordar que Deus teria decretado que os israelitas apostatariam da fé e queimariam seus filhos em sacrifício a um deus pagão, e depois teria dito que nunca ordenou uma coisa dessas, como uma típica escusa.

      Algo semelhante Deus diz em Oseias: “Eles instituíram reis sem o meu consentimento; escolheram líderes sem a minha aprovação. Com prata e ouro fizeram ídolos para si, para a sua própria destruição” (Oseias 8:4).

      Aqui os Calvinistas falam a mesma coisa: Que foi decreto de Deus. Veja que confusão os calvinistas armaram para Deus: Deus decreta aquilo, determina, faz com que aconteça, e depois diz que não consente naquilo que ele mesmo ordenou!

      Tem que ter muita paciência com os calvinistas!

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