Livre Arbítrio

predestinação-eleicãoAs teses  que passo a  enumerar são importantíssimas em relação ao assunto em estudo: 1. O livre-arbítrio humano é um ensinamento bíblico. 2. O livre-arbítrio humano é uma experiência humana. 3. Obrigação moral, sem o acompanhamento do livre-arbítrio, é uma ideia absurda: portanto, não pode haver sistema ético ou moral sem o conceito básico do livre-arbítrio humano. 4. A chamada divina ao arrependimento e à fé, que nos é feita por intermédio da Bíblia, e que convida a todos os homens, seria um escárnio e um absurdo se o livre-arbítrio humano não fosse uma realidade. 5. Existe uma graça geral divina que permite a todos os homens se arrependerem; em outras palavras, todos os homens podem arrepender-se, se assim quiserem fazer, embora todos se tenham distanciado imensamente de Deus.

Abaixo enumeramos alguns sentidos mais amplos da doutrina bíblica do livre-arbítrio humano.

  1. livre-arbítrio é um ensinamento bíblico. A mensagem cristã inteira diz que Cristo veio para salvar os pecadores; e deles se espera que correspondam à chamada divina ao arrependimento. (Ver Atos 2:38). O trecho de João 7:17 subentende que a aceitação da salvação oferecida em Cristo depende da «vontade» humana de fazê-lo. Por isso é que diz a tradução inglesa de Williams (aqui vertida para o português): “Se alguém estiver disposto (presente em geral) a continuar fazendo a vontade de Deus, saberá se o meu ensinamento vem de Deus ou se meramente expresso minhas próprias idéias”. (Ver Rom 8:32; 11:32; Tito 2:11; João 12:32 e I João 2:2), que subentendem a real possibilidade de salvação para todos os seres humanos, o que não seria verdade a menos que todos pudessem crer. De fato, a capacidade de vir a crer é algo inerente em todos os homens, contanto que queiram fazê-lo.

Quando da conversão,  surgem à frente dos indivíduos duas estradas. Por sua própria vontade, o homem pode querer seguir aquilo que está de acordo com a vontade de Deus. Quando do arrependimento o homem quer arrepender-se, e Deus lhe confere poder para tal. Não podemos negligenciar qualquer destes aspectos. O ser divino sempre vem ao encontro do ser humano; o ser humano sempre coopera com ser divino. É assim que o homem usa de seu livre-arbítrio, exercendo arrependimento e fé, e, portanto, se convertendo..

Paralelamente a essas observações, pode-se dizer que a vontade de crer e a própria «fé», como também toda a boa ação ou passo na direção de Deus, devem ser conferidas por Deus. Isso é uma verdade, mas é apenas um dos lados da verdade. Tal verdade é ensinada em Efé 2:8 e Gál. 5:22. Trata-se do lado divino da verdade do livre-arbítrio. (Ver Rom 3:10 e refs; 8:5-8; Efé. 2:1-10 e João 6:44). É verdade que nenhum homem pode vir a Cristo, a menos que «Deus se achegue» a ele. Mas não é menos verdadeiro que «Deus se achegou a nós na cruz»; e o trecho de João 12:34 indica definidamente certa «graça geral» nos foi conferida na cruz, mediante a qual cada ser humano «pode crer, se assim quiser fazê-lo», isto é, se quiser controlar suas naturais más propensões que tentam destruir o impulso de crer. Por conseguinte, as escrituras ensinam que todos os homens são donos potenciais da «fé» conferida por Deus a fim de que venham realmente a crer. Essa é uma dádiva divina aos homens. Não devemos negar essa dádiva a fim de sustentar alguma teoria unilateral. O que cada indivíduo fizer com o seu potencial de crer é questão exclusivamente sua, por ser algo sujeito ao seu livre-arbítrio; portanto, se alguém preferir abafar a sua fé, tornar-se-á culpado e responsabilizado por isso, tendo de ser julgado por esse motivo. Não é válida a objeção que declara que a ideia que um homem pode exercer fé e é capaz disso, não contribui para a sua salvação; pois, na realidade, o homem deve contribuir voluntariamente para a sua salvação. Todo e qualquer passo dado na direção de Deus deve ser feito em meio a agonia da alma, não sendo algo automático, como também a experiência humana o demonstra. Em relação à salvação, a passagem de Apo  22:17 subentende o concurso do livre-arbítrio humano, e esse é o último convite da Bíblia aos homens, para que se deixem salvar.

  1. O livre-arbítrio é uma experiência humana.   No   contexto   do    Novo   Testamento, não devemos compreender que o homem possa agir totalmente «sem causa ou razão», conforme diz a definição filosófica do livre-arbítrio. Antes, devemos entender que o homem é dotado de «livre-agência», isto é, pode alterar o curso de sua maneira de pensar e viver, sendo responsável por fazer tal. Nunca devemos pensar que isso funciona no vácuo. De fato, para vir a crer, cada indivíduo tem de vencer a si mesmo, além de ter de vencer muita oposição fora de si mesmo. Mas Deus tornou isso possível, através do que ele realizou na cruz, em Cristo Jesus. E até mesmo a alma humana decaída é capaz de reconhecer seu próprio criador; e isso continuaria possível mesmo que não houvesse livre-agência em cada um de nós.

De conformidade com o trecho de Rom 1:18, o homem se afastou de Deus voluntariamente; mas isso pode ser revertido, por mais difícil que seja tal esforço. A experiência humana mostra-nos que um homem, com Cristo ou sem Ele, sabe a diferença entre o bem e o mal, e pode escolher uma coisa ou outra, ainda que , normalmente, o homem não regenerado prefira sempre o mal. Apesar disso, alguns indivíduos não regenerados, de acordo com todas as aparências externas, permitem que o bem seja a força dominante, ainda que não sejam crentes professos. É absurdo dizer que um homem não pode fazer o bem, se assim quiser fazê-lo, pois os homens simplesmente assim agem. Naturalmente, não nos devemos esquecer da influência geral do Espírito Santo, que leva os homens a praticarem o bem; pois todo o bem praticado, em última análise, vem da parte de Deus. Contudo, o ministério do Espírito Santo é universal, conforme entendemos com base em João 16:17. O Espírito de Deus não atua apenas no seio da Igreja. Portanto, todos os homens podem seguir a retidão, podem achegar-se a Cristo, pois recebem o poder para tanto. Além disso, a própria alma humana, criada segundo a imagem de Deus, em nenhum ser humano se acha tão depravada a ponto de não ter capacidade de agir corretamente e de tomar as decisões certas. Confiar em Cristo é uma decisão certa, que se espera da parte dos incrédulos, os quais podem pelo menos tentar fazer debilmente, se assim quiserem fazê-lo. Ora, quando o indivíduo faz essa débil tentativa, então Deus vem ao encontro dele, no caminho; e então o divino e o humano se encontram, havendo como resultado disso, verdadeira outorga da alma humana aos cuidados de Cristo. Toda a experiência humana prova ser essa a verdade; e aquele que passou tal experiência não dá importância aos argumentos em contrário, daqueles que ainda não passaram por ela.

  1. Obrigação moral sem livre-arbítrio é um absurdo: Nenhum sistema moral será possível a menos que o indivíduo seja considerado responsável pelas suas ações e decisões. Não poderá ser julgado se não lhe foi dada escolha, e se agiu debaixo de pressão, vinda da parte de sua natureza perdida, por opressão do Diabo ou por permissão de Deus. O julgamento em todas as sociedades humanas, se baseia na premissa que um homem podia ter agido de outra maneira . Todos os sistemas éticos, a recompensa pelas boas ações e o castigo pela má conduta, dependem do fato que um homem poderia ter agido diferentemente, se assim tivesse querido. Ninguém merecerá recompensa pelo bem praticado, se porventura isso não partiu de sua própria vontade, ainda que a influência divina porventura é que o tenha levado a essa atitude.

Não perceber livre-arbítrio no homem é destruir o poder e a justeza de todo o mandamento moral que há nas Escrituras. Além disso, consideremos que as Escrituras ensinam que o homem pode falhar, até mesmo após a sua conversão, segundo se aprende em I Cor. 9:27; II João 8 e 9; Fil 2:12 e II Ped 1:10. Notemos, especialmente em Fil 2:12, como a questão inteira da salvação é apresentada de tal modo que a poderíamos comparar com uma estrada de duas vias – uma humana e outra divina. Há na salvação o encontro e o intercâmbio entre Deus e o homem. Todos os mandamentos que nos impelem à ação moral, conforme se vê nos capítulos terceiro e décimo segundo das epístolas aos Colossenses e aos Romanos, respectivamente, bem como em todas as demais passagens bíblicas que versam sobre a conduta humana, nada significariam, a menos que o homem pudesse    ser-lhes     obediente  e desobediente, de conformidade com a aceitação ou a rejeição que fizer da vontade divina, que sobre ele atua. Simplesmente não há como alguém erguer um sistema moral, com exigências e advertências válidas, com recompensas e punições, a   menos   que   o  homem  possua  livre-arbítrio, a menos que possa ceder aos impulsos divinos ou resistir aos mesmos. A Bíblia inteira, tanto em seu convite à salvação como em seu sistema ético, se alicerça nesse fato fundamental.

  1. A chamada ao arrependimento e à fé, dados através da Bíblia, e que visa todos os homens (conforme se vê em I Tim. 2:4 e Atos 17:30), seria apenas uma zombaria para aqueles que já se encontram em estado de miséria espiritual. Essa chamada universal seria um absurdo se os homens não pudessem se arrepender. O mandamento de Deus é que Ele “… notifica aos homens que todos em toda parte se arrependam …” (Atos 17:30). Como se poderia pensar que Deus ordena aos homens uma coisa que lhes é impossível obedecerem? Isso é inconcebível, fazendo as Escrituras as tornarem meras zombarias. Bem pelo contrário disso, Deus é o salvador, que ama o mundo inteiro (ver João 3:16), e que proveu meio seguro de salvação para todos, contanto que se queiram deixar salvar. A pregação cristã também não deve ser vista como um jogo de tiro ao alvo, como se seu único propósito fosse o de descobrir os “eleitos” entre as miríades de pessoas que nos ouvem. Na realidade, todos os homens podem salvar-se, isto é, há possibilidade e abertura da oportunidade para todos.
  1. Existe uma graça geral divina que permite a todos os homens se arrependerem. Os homens caíram para bem longe de Deus, de tal modo que bastaria isso para amortecer neles qualquer propensão que tenham para retornar ao Senhor. Não obstante, tendo sido criados à imagem de Deus, retêm o bastante dessa imagem para que Deus lhes possa insuflar novamente o interesse pelo Senhor. Outrossim, há uma graça geral, dada na cruz, que confere a todos os homens a capacidade de buscarem a Deus, em fé, se assim quiserem fazê-lo.

Deus se apresentou diante de todos os homens, na cruz; Ele fez tudo quanto é necessário para que todos os homens possam crer, se assim quiserem fazê-lo; em seus próprios seres há essa possibilidade. Portanto, a chamada ao arrependimento não é um escárnio, não é feita em vão. É verdade que alguns trechos bíblicos, como Rom 3:10 e ss., mostram que o homem é totalmente impotente, jamais se interessando por si mesmo a inquirir por Deus; mas a cruz de Cristo lhes desperta o interesse, capacitando-os a buscarem a Deus, porquanto até mesmo na alma do indivíduo mais depravado há alguma espécie de desejo de libertar-se da alienação que a queda no pecado nos tem imposto. E todos os sistemas éticos são prova disso, sem importar se tais sistemas são religiosamente orientados ou não. O homem sabe que não é o que deveria ser, e demonstra algum anelo, por mais débil que seja, de melhorar sua situação espiritual. Mas o Espírito Santo, que está no mundo (ver João 16: 7 e refs.), exerce influência sobre todos os homens, não apenas sobre os crentes. Por esta razão, todos os homens podem buscar a Deus e encontrá-lo, por intermédio de Jesus Cristo. É assim que os homens chegam  a conhecer a verdade; e a verdade por sua vez, os liberta (ver João 8:38). Lê-se, em João 8:36: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”. A redenção em Cristo, bem como a concretização plena e final da salvação, nos levam à «gloriosa liberdade dos filhos de Deus»; e somente essas pessoas é que, segundo o ponto de vista divino, realmente possuem liberdade. Todos os demais seres humanos, de uma maneira ou de outra, estão debaixo da servidão.

As verdades bíblicas da predestinação divina e do livre-arbítrio humano não se contradizem entre si, porquanto são apenas dois lados de uma grande verdade, que diz respeito à interação da vontade divina e da vontade humana. Deus se utiliza da vontade humana para cumprir os seus decretos, mas sem destruir essa vontade.

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5 comentários sobre “Livre Arbítrio

  1. Você está claramente negando o pecado original e eximindo a atuação do Espírito Santo nas etapas inicias da soteriologia (regeneração e arrependimento). Parabéns por ser um humanista racional e provido de “poder” gerado por sua própria teologia.

    1. Prezado Senhor CCC, falas como se o pecado original fosse um plano previamente estabelecido e depois concretizado por Deus. O pecado original pode ser traduzido por uma pequena palavra: Queda. Nossos primeiros pais cairam – e nem o Espírito de Deus deu jeito na humanidade pós Adão. Para não contender com o homem, o Senhor resolveu eliminar a raça em desobediência (proposital) para começar tudo outra vez, com apenas oito pessoas. Também não resolveu o problema, pois entraram em decadência novamente… até Jesus dizer: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!“. Eles não estavam determinados para desobedecerem: Eles não quiseram!

      Gente dura, que sempre resiste ao Espírito Santo: “Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais“, Atos 7:51.

      Isso é apenas uma resposta bem resumida, pois tenho a impresssão que precisas ler mais do site…

      Fica na paz

  2. Paz e graça amado! Não sou nem calvino nem jacobos, tenho somente dois anos de cristão.fiquei intrigado com uma coisa, se precisamos do Espirito Santo para sabermos algo de Deus (1 Co 2:11,12; Rm 8:6-9) e repare que o Espirito habita em nos no verso nove, e que com ele habitando somos filhos (CONTINUE LENDO ATE O. VERSO 16,e que somente pela vontade do Pai que nascemos de novo para sermos participantes da familia de Deus. Jo 1:13; Tg 1:18 Como você ve isso na sua visao?

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