Existe determinismo na Bíblia?

dterminismo

O determinismo torna Deus o autor do pecado e do mal, suplanta o livre-arbítrio humano, distorce o sentido de soberania, torna a oração inútil, esmaga o maior atributo de Deus – o amor – e tira do homem a responsabilidade pelos pecados. Mas os deterministas ainda tem uma última carta na manga: eles dizem que, apesar de tudo, este ensino é “bíblico”. Então, querendo ou não, gostando ou não, devemos crer nele e aceitar suas consequências.

Mas será mesmo que o determinismo é bíblico? Os calvinistas têm alguns versículos de prateleira, que eles sempre tiram de lá quando vêem oportunidade, a fim de provarem que o determinismo, apesar de tudo, é bíblico. Uma passagem que foi repetidamente usada por Calvino foi Lucas 12:6, que diz:

Não se vendem cinco pardais por duas moedinhas? Contudo, nenhum deles é esquecido por Deus” (Lucas 12:6)

Porém, este texto não está tratando de determinismo, mas de presciência. Cristo diz que nenhum pardal é “esquecido”, ou seja, que ele se lembra de todos, e não que determina cada ação de cada pardal, o que seria ir muito além daquilo que está escrito. Outra passagem bastante usada por Calvino foi Mateus 10:29-30, que a ACF [1] traduziu assim:

Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? E nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai. E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (Mateus 10.29-30).

De fato, o texto fala da “vontade” de Deus, mas seria uma vontade decretiva ou permissiva? Por exemplo: se um filho diz à sua mãe que vai sair para jogar bola e voltar mais tarde e a mãe consente, pode-se dizer que o filho não saiu de casa sem a vontade da mãe, embora a mãe não tenha decretado isso (ela não disse para o filho sair de casa, mas meramente permitiu que o filho saísse). É a mesma coisa que ocorre aqui. Não está em jogo um decreto divino sobre a ação de cada passarinho, mas uma vontade permissiva. A NVI [2] traduz com perfeição o sentido do texto:

Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Contudo, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês. Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados” (Mateus 10.29,30)

O verso seguinte lança mais luz ao sentido do texto, pois não diz que Deus determinou todos os cabelos da cabeça, mas que contou, passando a ideia de saber e não de ordenar. Deus sabe e Deus permite, ao invés de determinar e ordenar.

Outro texto muito usado por deterministas está no Salmo 139, onde Davi diz: “Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Salmo 139:14-16)

Essa parece ser a declaração bíblica mais forte a favor do determinismo. Infelizmente para os calvinistas, essa é uma tradução mal feita, ainda presente em algumas versões da Bíblia. A King James, por exemplo, que é reconhecida como sendo a tradução mais fiel aos originais, verte da seguinte maneira:

Os teus olhos viram a minha substância ainda imperfeita, e no teu livro todos os meus membros foram escritos, que em continuação foram formadas, quando ainda não havia nem um deles

A Almeida Corrigida e Revisada Fiel segue na mesma linha e traduz: “Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia

“Assim, as traduções citadas deixam exposta a ideia do original hebraico, que nos permite perceber o que foi pré escrito no livro de Deus: a formação dos membros do seu corpo é que foram pré-gravadas no ‘livro’ – isso se alguém ainda acha mesmo que devemos tomar esse tom poético literalmente. Como mencionado acima, o tema dos versos 13 a 15 é a formação do corpo de Davi. De fato, na primeira estrofe do verso 16, quando se diz: ‘Seus olhos viram a minha substância ainda informe’, também diz respeito à consciência íntima que o Senhor tem do salmista, mesmo antes que ele esteja formado. Davi louva ao Senhor pelo cuidado que tem dele, enfatizando a soberania e amor de Deus que o acompanhava desde o útero de sua mãe. Uma interpretação deste versículo que continua na expressão poética do autor do cuidado notável que o Senhor tomou na formação de seu corpo parece mais adequada”[3]

Portanto, não há nada nestes versículos que prove que os dias do salmista foram escritos previamente. É por isso que este texto tem sido pouco usado pelos eruditos calvinistas mais respeitados (especialmente entre os de fala inglesa, onde a KJV é muito respeitada), embora ainda seja muito usado por leigos que só lêem uma versão da Bíblia. O próprio João Calvino não usou este texto nem uma vez, parecendo reconhecer que ele não fornecia uma evidência para a sua tese [4].

Mas o texto mais usado pelos calvinistas é o de Efésios 1:11, que diz: “Nele fomos também escolhidos, tendo sido predestinados conforme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade” (Efésios 1:11)

Ele tem um paralelo forte com Provérbios 16:4, que diz algo semelhante: “O Senhor faz tudo com um propósito; até os ímpios para o dia do castigo” (Provérbios 16:4)

Os calvinistas usam estes dois textos para dizer que Deus “faz todas as coisas”, incluindo o pecado e o mal, e, portanto, tudo foi predeterminado por Deus. John Feinberg usa este versículo como a base de toda a sua tese do determinismo divino, e diz que “Efésios 1:11 afirma que Deus decretou todas as coisas, até mesmo o pecado” [5]. Alvin Baker concorda e diz que, segundo este texto, “Deus faz ‘todas as coisas’, incluindo o pecado, segundo a sua vontade eterna” [6].

Mas essa é apenas uma interpretação do versículo, e não a interpretação final. Não é este o sentido do texto, muito menos o único sentido possível. Bruce Reichenbach lhe deu uma bela de uma resposta, dizendo:

“Há uma ambigüidade crítica que Feinberg despreza. Será que essa passagem ensina que Deus faz ou suscita todas as coisas segundo Seus propósitos, ou será que ela ensina que todas as coisas que Deus faz, Ele as faz segundo Seus propósitos? A sintaxe gramatical da sentença não nos obriga a adotar uma interpretação ao invés de outra. Por exemplo, uma pessoa pode dizer: ‘João faz todas as coisas muito devagar! ’ Não podemos inferir daí que João faz todas as coisas, mas apenas que todas as coisas feitas por João são feitas devagar. De modo semelhante, não se pode inferir deste versículo que Deus faz ou suscita todas as coisas; é igualmente razoável interpretar esta passagem como afirmando que todos os atos de Deus provêm de Seu conselho” [7]

Em outras palavras, Efésios 1:11 e Provérbios 16:4 não dizem que Deus faz tudo e também com um propósito, e sim que tudo o que Deus faz ele faz com um propósito. É a mesma coisa do exemplo de Reichenbach: “João faz todas as coisas muito devagar” não implica que João faz todas as coisas e também as faz devagar, mas sim que tudo o que ele faz, ele faz devagar. É uma frase ambígua, é verdade, e por essa mesma razão está longe de ser a prova conclusiva que os deterministas tanto precisam.

Impressiona que tantos eruditos calvinistas façam tanto carnaval em cima deste texto, como se fosse a “prova irrefutável” que eles precisavam para colocar o determinismo na Bíblia, quando somente uma leitura forçada e tendenciosa do texto impediria uma interpretação indeterminista do mesmo. Se o texto estivesse realmente dizendo que Deus determina tudo e também com um propósito, então teríamos que achar um “propósito” no estupro de bebês. Qual é o propósito nisso? A glória de Deus? Deus precisa ser glorificado através do estupro de infantes? Ele ordena que o bebê seja estuprado para “tirar algo bom” disso? A simples conjectura já é absurda [8].

Outros textos que os calvinistas usam são aqueles que o Antigo Testamento diz que “Deus fez”, quando o que ele fez foi permitir a ação. Vance aborda isso em “O Outro Lado do Calvinismo”, dizendo:

“Freqüentemente se diz que Deus faz algo quando na verdade ele somente permitiu que fosse feito. Satanás incitou Davi a numerar Israel (1Cr 21.1), mas se diz que Deus fez isto (2Sm 24.1). O melhor exemplo é Jó. Satanás foi a causa do sofrimento de Jó (Jó 1.12, 2.7), mas Jó (Jó 1.21), o escritor de Jó (Jó 42.11), e o próprio Satanás (Jó 1.1, 2.5) o atribui a Deus” [9]

Geisler e Howe acrescentam: “Embora tenha sido Satanás que diretamente incitou Davi, foi Deus que permitiu essa provocação” [10].

Estes dois exemplos nos mostram que não era incomum o Antigo Testamento retratar Deus “fazendo” algo, quando, na verdade, este “fazer” é equivalente a “permitir”. Não foi Deus quem causou o sofrimento de Jó, mas ele permitiu que o diabo o provasse. Não foi Deus quem incitou Davi a numerar Israel, mas ele permitiu que Satanás o incitasse a isso. Nestes casos, o diabo é o agente ativo (é o que “faz”, de fato) e Deus o passivo (o que permite, embora não cause). Este hebraísmo era relativamente comum e por conta disso muita confusão foi feita pelos deterministas.

Eles se apoiam em textos como Amós 3:6, que diz que nenhum mal sucede na cidade sem que o Senhor o tenha feito, quando o hebraísmo indica que “fazer” aqui é o equivalente a “permitir”. Embora isso seja incomum em língua portuguesa, temos que recordar que o original do Antigo Testamento foi escrito em hebraico, cujo idioma possui diversos hebraísmos e expressões que podem denotar outros significados que vão além da leitura natural do texto para alguém que não está familiarizado com o hebraico.

Um dos exemplos de hebraísmo é exatamente a questão do “fazer”, como nos mostra o Dr. E. Lund, que é erudito especializado nos idiomas bíblicos e autor da obra “Hermenêutica – Regras de Interpretação das Sagradas Escrituras”. Ele nos diz:

“Como prova de que o idioma hebraico expressa em forma de mandamento positivo o que não implica mais que uma simples permissão, e nem sequer consentimento, de fazer uma coisa, temos em Ezequiel 20:39, onde diz o Senhor: ‘Ide; cada um sirva os seus ídolos agora e mais tarde’, dando-se a compreender linhas adiante que o Senhor não aprovava tal conduta. O mesmo acontece no caso de Balaão o dizer-lhe Deus: ‘Se aqueles homens (os príncipes do malvado Balaque) vierem chamar-te, levanta-te, vai com eles; todavia, farás somente o que eu te disser’; dizendo-nos o contexto que aquilo não era mais que uma simples permissão de ir e fazer um mal que Deus absolutamente não queria que o profeta o fizesse. (Núm. 22:20.) Caso semelhante temos provavelmente nas palavras de Jesus a Judas, quando lhe disse: ‘O que retendes fazer, faze-o depressa’ (João 13:27)” [11]

Até mesmo o pastor presbiteriano Charles Hodge, que foi um dos maiores defensores do calvinismo no século XIX, reconheceu isso:

“Destas passagens e de outras similares, é evidente que é um uso bíblico familiar atribuir a Deus ações que ele em sua sabedoria permite acontecer” [12]

Infelizmente, muitos calvinistas não estão familiarizados com os hebraísmos do Antigo Testamento e com as regras de interpretação bíblica e acabam pensando que o verbo hebraico asah possui sempre o mesmo sentido do nosso verbo fazer, ignorando a hermenêutica e, consequentemente, se equivocando na exegese [13]. O próprio Calvino pouco conhecia sobre hebraísmos, e por isso falhava constantemente na exegese dos textos bíblicos, em especial os do Antigo Testamento, já que ele praticamente não abriu o Novo para provar o determinismo na Bíblia. Até mesmo o calvinista Francois Wendel reconheceu isso, dizendo:

“Mas, às vezes, pelo bem da coerência lógica ou da ligação a posições dogmáticas pré-estabelecidas, Calvino também fez violência aos textos bíblicos. Seu princípio de autoridade Escriturística então o levou a buscar as Escrituras por apoio ilusório, por meio de interpretações puramente arbitrárias” [14]

Outro erro muito comum de Calvino foi ter cometido a falácia da inversão do acidente, que é uma falácia que consiste em tomar uma exceção como regra, aplicando um caso específico como regra para uma causa geral. Calvino usou e abusou deste método falacioso. Um dos únicos textos do Novo Testamento citados por ele na defesa do determinismo (junto a Lucas 12:6 e a Mateus 10: 29, que já conferimos aqui) foi o de Atos 2:23, que diz:

Este homem lhes foi entregue por propósito determinado e pré-conhecimento de Deus; e vocês, com a ajuda de homens perversos, o mataram, pregando-o na cruz” (Atos 2: 23)

Se Calvino citou dez vezes este texto, foi pouco. Ele usava e abusava deste texto como a “prova” neotestamentária que ele precisava para sustentar o determinismo. Só tem um problema: este texto não fala nada sobre Deus determinar tudo. Ele meramente fala que a morte de Jesus foi determinada de antemão, o que nenhum arminiano indeterminista nega [15].

Calvino queria dar um salto na exegese e induzir que do fato da morte de Jesus ter sido determinada, daí decorre que tudo neste mundo foi determinado, algo que é simplesmente uma violência à exegese, pois o texto não diz isso. Em outras palavras, como Calvino não tinha nenhum texto que provasse que tudo neste mundo foi determinado de antemão por Deus, ele buscava casos isolados de assuntos específicos onde tentava forçar a interpretação para fazer das exceções uma regra.

Vemos, então, que a Bíblia não dá uma base sólida à crença no determinismo, e que as passagens utilizadas pelos deterministas são dúbias, forçadas e que violam as regras de interpretação bíblica. Mas será que o indeterminismo é apoiado biblicamente? Os calvinistas dizem que não. Contra a tese arminiana de que nem tudo é determinado por Deus, Feinberg diz que “se eu pudesse encontrar pelo menos um único versículo que afirmasse isto, eu me tornaria um indeterminista teológico (arminiano)” [16].

Vimos anteriormente que o pecado não é determinado por Deus. João, como vimos, disse que o pecado não provém do Pai, e, portanto, não pode ter sido determinado por ele: “Pois tudo o que há no mundo – a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens – não provém do Pai, mas do mundo” (1ª João 2: 16)

“Provém” tem ligação com a origem. Qual é a origem do pecado? O decreto. Da onde vem este decreto? Dos homens ou de Deus? De Deus. Assim, os calvinistas não podem escapar da lógica de que, se Deus determina e origina o pecado através do seu decreto, é de Deus que o pecado provém. Mas João diz que não. Para João, o pecado é autodeterminado, ao invés de ser externamente causado.

Outra falha do determinismo é presumir que a vontade de Deus é feita sempre. A vontade de Deus nunca pode deixar de ser feita, porque ele decretou de antemão tudo que é feito hoje. Portanto, qualquer coisa que aconteça, essa foi a vontade de Deus, isso foi o que ele determinou que fosse. Clark Pinnock escreveu sobre isso, dizendo: “Em face de tal visão da soberania determinística, como é que alguém poderia deixar de estar dentro da vontade de Deus? Aqui está o ponto central do conceito de Feinberg concernente ao mundo. A vontade de Deus é feita sempre. O milionário em seu castelo, o mendigo à sua porta, Deus decretou que a história decorresse desse jeito. Deus quis que acontecesse, seja o que for que esteja acontecendo. Seria irracional preocupar-se a respeito de qualquer fato, no universo calvinista. Simplesmente submeta-se à vontade determinística de Deus! Se Deus quiser salvá-lo, Ele certamente o fará, sem que você tenha de levantar um dedo para ajudá-lo. Se Ele quer que você seja pobre, é melhor você ir-se acostumando, porque você não poderá mudar nada. Alfredo não precisa preocupar-se com a moralidade de sua fortuna, uma vez que a realidade da responsabilidade moral voou pela janela fora. Maria não precisa alimentar dúvidas, porque tudo quanto vem acontecendo foi planejado para acontecer mesmo” [17]

Ocorre que, biblicamente, a vontade de Deus nem sempre é feita. Se a vontade de Deus fosse feita sempre, teria sido inútil Jesus pedir para orarmos assim: “Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mateus 6:10)

Por que deveríamos orar para que a vontade de Deus seja feita na terra assim como ela é feita no Céu, se a vontade de Deus é sempre feita de qualquer jeito? Se a vontade de Deus fosse feita sempre, estaríamos simplesmente desperdiçando tempo de oração, que poderíamos estar investindo em outra coisa. A razão pela qual Jesus orou para que a vontade de Deus fosse feita é porque a vontade de Deus nem sempre é feita. É por isso que João diz:

O mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1ª João 2: 17)

João traça um contraste entre o mundo e o cristão, e deixa implícito que somente o cristão é que faz a vontade de Deus, já que todos concordam que só ele “permanece para sempre”. O próprio Senhor Jesus deixou claro que a vontade de Deus não é feita sempre, quando disse que alguém tem que decidir fazer a vontade de Deus: “Se alguém decidir fazer a vontade de Deus descobrirá se o meu ensino vem de Deus ou se falo por mim mesmo” (João 7:17).

Nem todos descobriram que o ensino de Cristo vinha de Deus, porque nem todos decidiram fazer a vontade de Deus. Jesus também disse que “quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12:50), porém todos concordam que nem todo mundo faz parte da família espiritual de Cristo, porque nem todos fazem a vontade do Pai que está nos céus. É somente aquele que faz a vontade de Deus que será salvo: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mateus 7:21).

Ele também contou uma parábola em que somente um dos filhos fez a vontade do pai: “Havia um homem que tinha dois filhos. Chegando ao primeiro, disse: ‘Filho, vá trabalhar hoje na vinha’. E este respondeu: ‘Não quero!’ Mas depois mudou de idéia e foi. O pai chegou ao outro filho e disse a mesma coisa. Ele respondeu: ‘Sim, senhor!’ Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? ‘O primeiro’, responderam eles. Jesus lhes disse: ‘Digo-lhes a verdade: Os publicanos e as prostitutas estão entrando antes de vocês no Reino de Deus” (Mateus 21:28-31)

Para os calvinistas, os dois filhos teriam feito a vontade do pai, porque o que o Pai decreta o filho apenas obedece. Se Deus decretou que alguém iria aceitar o chamado divino, ele está fazendo a vontade de Deus, e se ele decretou que outra pessoa não iria aceitar o mesmo chamado, essa pessoa também está cumprindo a vontade de Deus, que determinou isso de forma incondicional e irrevogável. Então, qualquer coisa que aconteça no mundo, é a vontade de Deus expressa no decreto que está se cumprindo. Simplesmente não faz sentido dizer que a vontade de Deus não é feita por alguém, se Deus decretou tudo e ele decreta de acordo com a vontade dele.

A única forma de conciliar tais dados bíblicos com o determinismo seria inventando “duas vontades” em Deus. Uma vontade moral onde ele deseja coisas boas, e outra vontade decretiva onde ele decreta coisas más, de modo que alguém pode estar cumprindo a vontade decretiva, mas não a vontade moral. Mas que razão ou cabimento há em Deus decretar algo que ele não deseja, ou que não é moral? Duas vontades conflitantes em Deus é algo impossível à luz do testemunho bíblico de que Deus “não muda como sombras inconstantes” (Tg 1:17).

Além disso, como Deus poderia ter uma vontade diferente daquilo que ele decreta? Se Deus decretou, não há como mudar esse decreto. O que ele decretou vai acontecer e pronto. Então, simplesmente não há razão para desejar algo diferente do que foi decretado na vida de uma pessoa, se é impossível agir diferente do decreto. É o mesmo que eu ordenar que alguém se jogue de um precipício e morra, e depois dizer que ele não cumpriu a minha vontade.

Há também textos onde o homem resiste a Deus. Em Isaías, por exemplo, Deus diz: “Quando eu vim, por que não encontrei ninguém? Quando eu chamei, por que ninguém respondeu? Será que meu braço era curto demais para resgatá-los? Será que me falta a força para redimi-los? Com uma simples repreensão eu seco o mar, transformo rios em deserto; seus peixes apodrecem por falta de água e morrem de sede” (Isaías 50:2)

Se tudo é decretado por Deus, por que ele não decretou que os israelitas responderiam ao chamado dele e que seriam redimidos? O texto deixa claro que Deus procurou, mas não encontrou ninguém. Para os deterministas, foi o próprio Deus que determinou que ninguém responderia, e ele que decretou que ninguém creria. Em outras palavras, Deus estaria reclamando com os israelitas por estarem obedecendo a um decreto imutável dele mesmo, contra o qual eles nada poderiam fazer em contrário.

Mas, que o texto não indica isso, é óbvio pelo fato de Deus estar dizendo que seu braço não era curto demais para resgatá-los, nem faltava-lhe força para redimi-los. Ou seja: Deus estava disposto a resgatá-los, mas eles rejeitavam serem resgatados. Isso implica que nem tudo neste mundo é determinado por Deus, senão a própria rebelião dos israelitas teria sido decretada por ele e, consequentemente, seu chamado e sua disposição em salvar seriam falsos e fúteis.

Outro texto que já vimos é o de Jeremias 19:5, onde Deus diz: “Construíram nos montes os altares dedicados a Baal, para queimarem os seus filhos como holocaustos oferecidos a Baal, coisa que não ordenei, da qual nunca falei nem jamais me veio à mente” (Jeremias 19:5)

Deus não ordenou, não pensou nem falou nada daquilo, mas, para os calvinistas, aquilo havia ocorrido exatamente em cumprimento de um decreto dele mesmo. Deus teria decretado que os israelitas apostatariam da fé e queimariam seus filhos em sacrifício a um deus pagão, e depois teria dito que nunca ordenou uma coisa dessas, como uma típica escusa. É lógico que este texto indica que pelo menos este acontecimento não foi ordenado por Deus, e, sendo assim, Deus não poderia ter decretado tudo – sendo o fim do determinismo.

Algo semelhante Deus diz em Oseias: “Eles instituíram reis sem o meu consentimento; escolheram líderes sem a minha aprovação. Com prata e ouro fizeram ídolos para si, para a sua própria destruição” (Oseias 8:4).

Deus diz que os reis fizeram aquilo sem o consentimento dele, quando, na verdade, os calvinistas creem que eles fizeram aquilo justamente em cumprimento a um decreto dEle mesmo. Deus decreta aquilo, determina, faz com que aconteça, e depois diz que não consente naquilo que ele mesmo ordenou! Como os líderes dos israelitas teriam sido escolhidos sem a aprovação de Deus, se, na verdade, foi o próprio Deus que determinou a escolha destes líderes antes da fundação do mundo, e os homens estavam apenas cumprindo uma determinação irresistível?

Neste caso, teríamos que concluir que Deus decreta algo e não consente nisso; que ele determina algo que não aprova. Um deus como esse nos deveria causar medo, pois seria tão instável quanto um ser humano, que faz coisas sem pensar e depois as repudia. Alguém que pergunta ao homem que pecou: “que é isto que fizeste?” (Gn 3:13), quando, na verdade, foi ele mesmo que decretou aquele pecado.

Finalmente, há também aqueles versículos que mostram o homem rejeitando o propósito ou plano de Deus na vida dele. Os “fariseus e os peritos na lei rejeitaram o propósito de Deus para eles, não sendo batizados por João” (Lc 7: 30), e Jesus chorou sobre Jerusalém (Lc.19:41), dizendo: “Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!” (Mt.23:37).

Como já vimos, estes textos implicam que o homem pode resistir ou rejeitar o plano de Deus na vida deles. Não era do plano nem da vontade de Deus que os fariseus e os peritos da lei não fossem batizados por João, mas eles não foram. Também não era da vontade de Jesus que os judeus rejeitassem os profetas e abandonassem a Deus, mas eles abandonaram. Jesus queria reuni-los, mas eles não quiseram. Ele quer o bem para todos, mas muitos o rejeitam e cavam o seu próprio abismo.

Diferente do determinismo calvinista, onde Deus traça planos terríveis para a vida das pessoas, incluindo uma série de pecados mortais que culminam na morte eterna, na Bíblia ele planeja sempre o nosso bem e deseja sempre o nosso melhor, mas somos nós que rejeitamos este plano e que assinamos nossa própria perdição. Deus permanece sempre justo e amoroso, “bom para com todos” (Sl 145:9). O homem é quem destroi tudo. O homem é o responsável.

O presente artigo está postado originalmente no CACP – Centro Apologético Cristão de Pesquisas. Extraído do livro “Calvinismo X Arminianismo: quem está com a razão” – cedido pela comunidade de arminianos do Facebook.

Disponível em http://www.cacp.org.br/existe-determinismo-na-biblia/

[1] Almeida Corrigida, Revisada e Fiel.

[2] Nova Versão Internacional.

[3] Disponível em: <https://sempredestinacao.wordpress.com/2013/11/10/escrito-e-determinado/>

[4] Mesmo que a tradução correta fosse a fornecida pelos calvinistas em suas versões mais modernas, isso ainda não provaria o determinismo calvinista, visto que isso que foi escrito poderia se referir aos atos livres do ser humano que Deus, por sua presciência, sabia que seriam praticados livremente, e não por um decreto à parte das ações humanas.

[5] FEINBERG, John Samuel. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora Mundo Cristão: 1989, p. 55.

[6] Alvin Baker, citado em Vance, O Outro Lado do Calvinismo.

[7] REICHENBACH, Bruce. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora Mundo Cristão: 1989, p. 73.

[8] Os problemas para o determinista que pretende usar este texto vão muito além disso, pois Efésios 1:11 não diz apenas que Deus faz tudo com um propósito, mas também de acordo com a vontade dele. Sendo assim, se Deus determina tudo e é isso o que Efésios 1:11 está dizendo, então tudo o que Deus determina ele determina porque essa foi a vontade dele para com todas as coisas. Consequentemente, todo o mal que há no mundo, todo pecado, todo morticínio, toda imoralidade e toda violência é da vontade de Deus, já que Deus determina tudo e de acordo com a vontade dele, e não contra a sua vontade. Algo que faria de Deus realmente um monstro moral.

[9] VANCE, Laurence M. O outro lado do calvinismo.

[10] GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e ‘contradições’ da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999.

[11] Dr. E. Lund, Hermenêutica: Regras de Interpretação das Sagradas Escrituras. Editora Vida, 1968.

[12] Charles Hodge, A Commentary on Romans (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1972), p. 316.

[13] O Novo Testamento usa menos hebraísmos porque foi escrito em grego, e não em hebraico. Por isso, Paulo disse aos coríntios que “não quero apenas vê-los e fazer uma visita de passagem; espero ficar algum tempo com vocês, se o Senhor permitir” (1 Co16:7), e não se o Senhor tiver determinado aquilo.

[14] Francois Wendel, Calvin: Origins and Development of His Religious Thought, trad. Philip Mairet (Grand Rapids: Baker Books, 1997), p. 360.

[15] Iremos dedicar um tópico neste capítulo para tratar melhor sobre o indeterminismo arminiano.

[16] FEINBERG, John Samuel. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora Mundo Cristão: 1989, p. 48.

[17] PINNOCK, Clark H. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora Mundo Cristão: 1989, p. 80.

Escrito e determinado

Como é que uma pessoa pode ser moralmente responsável por suas ações, se estas forem determinadas mesmo antes dela nascer? Para que uma pessoa seja moralmente responsável, duas coisas precisam ser verdadeiras: Ela deve ser um agente livre, e deve ser um agente moral (isto é, um agente a quem se aplicam as normas morais). Porém, o que somos, robôs ou pessoas livres?

Afinal de contas, quem  é  que manda neste mundo,  Deus ou nós?  Se  Deus preordena nossas ações, de que maneira somos moralmente responsáveis por elas? Se  Deus determinou o que faremos, devemos fazê-lo? Deus deve ser responsabilizado moralmente pela existência do mal se Ele decretou todas as coisas?

Os questionamentos são infindáveis!

A fornalha da discussão vem sendo alimentada há séculos. Alguns asseguram que predestinação é fatalismo. Se tudo acontece por decreto eterno, fixo, imutável, somos marionetes, a história um dramalhão escrito, dirigido, encenado e inculcado por um diretor implacável! Outros acham que Deus elegeu alguns para a salvação em Cristo, reprovando os demais, ou, que resolveu soberanamente salvar alguns homens tornando-os filhos adotivos quando ainda eram filhos das trevas; teve misericórdia de algumas criaturas e deixou outras entregues à um destino de perdição que Ele mesmo havia traçado de antemão para eles.

Predestinação fatalista não seria arbitrariedade e parcialidade da parte de Deus que não faz acepção de pessoas? Porque Deus predestinaria alguns para a salvação e outros para a perdição, negando-lhes implacavelmente o direito de livre determinação? (Dt 10:17; Ez 18; Rom 2:11). É certo que muitos vão se perder, mas vão se perder porque já nasceram sem chances de salvação? Quem defende esse tipo de conceito pode estar tremendamente equivocado.

A doutrina da eleição, que tantas vezes tem sido interpretada em termos de um determinismo chamado predestinação dupla, na verdade se tornou um grande ensinamento missionário e evangelístico. É uma das excentricidades da exegese, e uma das distorções da doutrina crista. E pelo fato de a eleição de Israel, feita por Deus (Rom 9:1-29), ter sido interpretada de tal forma, tornou-se impossível harmonizá-la com a responsabilidade dos hebreus pelo seu fracasso (9:30 – 10:21). Em desespero, os oponentes calvinistas desperdiçam tempo, discursos e literatura, tentando harmonizar a derrocada de Israel com sua eleição incondicional, como também trabalham para harmonizar a responsabilidade humana com o destino traçado para cada criatura desde a fundação do mundo, doutrina esta que disseminaram durante séculos.

Vamos ao texto

Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda”, Salmo 139:14, 16.

Está ai uma das passagens mais citadas na tentativa de resguardar a doutrina da predestinação absoluta. O rei Davi está dizendo que Deus o viu enquanto estava sendo formado no ventre de sua mãe, e em seguida ele acrescenta: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda”.

A conclusão é a seguinte: “os nossos dias estão contados, determinados e escritos antes que nascemos”. O argumento, inicialmente, parece impressionante, mas há, de fato, uma série de fortes objeções contra ele. Mesmo se optarmos por tomar o assunto do que é “formado” e “escrito” neste versículo, em serem os dias de vida do salmista, não podemos exigir que o comprimento de sua vida fosse inalterável. A Escritura em outro lugar sugere que o que está escrito no livro do Senhor da vida pode ser alterado (Êx 32:33; Ap 3:5). O sucesso de Ezequias em mudar a mente de Deus em relação ao comprimento de sua vida apoia esta perspectiva (Isaías 38:1-5). Observamos como a reação de pessoas podem alterar os decretos de Deus à luz de novas circunstâncias ( Gên 22:12; Deut 8:2; 13:3; Jr 18:6 – 10). A noção de que o que Deus ordena é necessariamente imutável é estranho para a mente hebraica.

Na verdade, o Salmo 139 é uma bela expressão poética do envolvimento momento a momento pessoal de Deus em nossas vidas. Tão íntimo é o seu envolvimento que ele conhece nossos pensamentos antes que os pronunciemos (vs. 2-4). Sua presença amorosa nos rodeia a cada momento, onde quer que vamos (vs. 5-12). E ele está pessoalmente envolvido na formação de nossos corpos enquanto estávamos em gestação (vs. 13-16). O conhecimento de Deus em cuidar de nós é simplesmente insondável (vs. 17-18).

Muitos têm argumentado que o versículo 16 do capítulo implica que o futuro está, para cada ser humano, exaustivamente resolvido/determinado por Deus. Se o número exato de dias que viveremos está determinado na mente de Deus, argumentam eles, todo o futuro deve estar resolvido também. Assim, este versículo tem sido frequentemente citado em apoio à visão clássica do futuro.

Vamos agora para algumas traduções diferentes. A versão King James, por exemplo, diz, “Os teus olhos viram a minha substância ainda imperfeita, e no teu livro todos os meus membros foram escritos, que em continuação foram formadas, quando ainda não havia nem um deles”.

Para modernizar essa tradução um pouco, a KJV está dizendo: “Os teus olhos viram o meu corpo quando ele estava ainda informe. O Senhor gravou no seu livro todos as partes do meu corpo que eventualmente vieram a ser, o que foi feito antes de existirem”. (partes do corpo, como se formaram).

Outra versão, uma tradução judaica, mostra o verso como se segue, “Os teus olhos viram minhas pernas ainda informes… eles foram todos registrados em seu livro, no devido tempo eles foram formados, até o último deles, quando nem um havia”.

Também temos nossa versão, a corrigida e fiel, que atesta: “Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia”.

Assim, as traduções citadas deixam exposta a ideia do original hebraico, que nos permite perceber o que foi pré escrito no livro de Deus: a formação dos membros do seu corpo é que foram pré-gravadas no “livro” – isso se alguém ainda acha mesmo que devemos tomar esse tom poético literalmente.

Como mencionado acima, o tema dos versos 13 a 15 é a formação do corpo de Davi. De fato, na primeira estrofe do verso 16, quando se diz: “Seus olhos viram a minha substância ainda informe“, também diz respeito à consciência íntima que o Senhor tem do salmista, mesmo antes que ele esteja formado. Davi louva ao Senhor pelo cuidado que tem dele, enfatizando a soberania e amor de Deus que o acompanhava desde o útero de sua mãe.Uma interpretação deste versículo que continua na expressão poética do autor do cuidado notável que o Senhor tomou na formação de seu corpo parece mais adequada.

A última parte do versículo 16 não está tratando de predestinação, ou seja: Deus ter estabelecido de antemão o futuro de Davi com erros e acertos . Crer assim é violar o impulso restante do Salmo. Aqui, o salmista pode colocar-se diante do Senhor e orar pedindo a orientação de Deus em sua vida, não porque Deus sabe o que vai acontecer ou porque Deus predeterminou o que vai acontecer, mas porque Deus conhece o salmista, sabe tudo, sendo que nada sobre ele pode ficar oculto para Deus.

Deve-se observar cuidadosamente, insisto,  que estamos diante de uma poesia aqui. É, portanto, um erro tentar tirar conclusões sobre destino imutável, como se os dias do rei estivessem todos gravados num livro, sendo drasticamente impossível que houvesse alguma alteração. Não só isso, mas uma vez que há um trilhão de variáveis que afetam quanto tempo uma pessoa vive, incluindo as decisões livres de outras pessoas deve-se ter cautela ao interpretar o texto, evitando a visão determinista. E se Deus conhece o exato momento da nossa morte, logo, ele deve saber de antemão todo o resto, tendo determinado todos os nossos dias de antemão, com um pacote completo, incluindo doenças e tragédias. Ou seja, se este versículo realmente prova que Deus ordenou cada dia, de cada ser humano, desde o início, e Deus é infalivelmente correto em seu conhecimento de todos e de cada um destes dias, segue-se (logicamente) que nenhum dia sempre ocorre que não tenha sido concebido e orquestrado por Deus.

Não há consideração alguma para muitas pessoas, por exemplo, o quadro patético de fetos sendo formados nos ventres de suas respectivas mães, já com os defeitos congênitos autorizados e programados por Deus (?) desde a fundação do mundo. Essas pequenas e inocentes criaturas, totalmente inofensivas, vem ao mundo aos milhares agarradas umas nas outros – alguns sem cérebro, sem olhos, sem boca e etc., enfim, uma multidão com defeitos e aberrações diversas. Em suma, inexplicavelmente, e de maneira irritante, devemos, segundo muitos intérpretes, acreditar que desde o embrião até a tragédia do nascimento tudo foi conduzido pela vontade implacável de Deus.

É evidente que algo está errado com a interpretação calvinista do texto. Ou toda a raça humana tem estado sob uma fascinante falsa impressão de que nós realmente escolhemos o que fazemos ou essa ideia de predestinação fatalista decretada de antemão é uma deslavada mentira.

Outra coisa que muitos não consideram é que o contexto oferece apenas uma reflexão poética sobre a visão do autor da soberania de Deus. Davi não está aqui fazendo um tratado teológico exaustivo sobre destino traçado de antemão. É claro que o poeta neste momento sente que sua vida está completamente sob o controle de Deus, mas é um grande passo partir deste sentimento poético para uma doutrina que coloca a responsabilidade de cada ação do ser humano sob responsabilidade de Deus. Além do mais, o uso de expressões hiperbólicas no salmo, que era um legado comum da poesia semita, deve advertir-nos contra nossa confiança no contexto para tentar resolver controvérsias doutrinárias sobre predestinação. O ponto dessa passagem é a de expressar poeticamente o cuidado de Deus para o salmista desde a sua concepção, e não resolver disputas metafísicas sobre a realidade do futuro. O rei esta sendo perscrutado, observado e guardado por Deus.

SENHOR, tu me sondaste, e me conheces. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó Senhor, tudo conheces. Tu me cercaste por detrás e por diante, e puseste sobre mim a tua mão. Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir. Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face?” vv 1-7.

Agora, acompanhe as hipérboles usadas pelo salmista: “Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar…”, vv 8,9. O salmista jamais poderia fazer sua cama no inferno, como também não poderia tomar as asas da alva e muito menos poderia habitar nas extremidades do mar.

Observe o verso 13: “Pois possuíste os meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe”. O salmista continua se expressando de forma poética louvando o cuidado de Deus com sua vida. Não se pode interpretar literalmente que Deus possuiu os rins de Davi, como não podemos literalizar as palavras do rei nos versos que falam sobre escrever “todos os seus dias num livro quando nem um deles ainda havia”.

Fico me perguntando como pode ainda existir pessoas que crêem piamente que Deus tem um livro no céu onde ele já escreveu os dias – cada um deles – de cada ser humano que habita na face da terra ( hoje são sete bilhões, sem contar os que já morreram), desde o dia do seu nascimento até sua morte, determinando como cada um deve viver, como falar cada dia, como entrar e sair, como gesticular, como comer e beber e como pecar e ser bom, como matar, roubar e destruir. Não faz sentido algum condenar à perdição aqueles que não obedecem seus mandamentos, pois se acreditamos que Deus já os programou de antemão, então eles não merecem responder por seus atos.

Por outro lado, não poderia haver mesmo coerência alguma estabelecer que antes do homem cair no pecado contra a vontade de Deus esse mesmo Deus já ter determinado para Davi que ele se comportasse mau em várias etapas da sua vida. Como conciliar que Deus já determinou desde a eternidade que o rei Davi sujaria suas mãos com sangue inocente se o ato de Adão e Eva foi chamado de transgressão? Em outras palavras: Se Deus determinou desde antes da fundação do mundo o mau na vida de Davi, devemos entender que ele também programou a queda de nossos primeiro pais, como também determinou todas as tragédias que ocorrem no mundo inteiro.

… Isto não faz sentido algum… Deus não pode ser ridicularizado dessa forma.

Há pessoas que não se constrangem em acusar a Deus pelos males que acontecem. Ao longo das Escrituras encontramos inúmeros incidentes em que pessoas, fazendo uso do seu livre-arbítrio, afastaram-se do plano de Deus, e acabaram tendo que suportar as desastrosas conseqüências de suas próprias ações. Foi assim que o pecado entrou no mundo (Gn 3), a despeito das advertências divinas para evitar esse mal (Gn 2:15-17). Foi também assim que muitos idólatras israelitas acabaram perdendo a vida (Êx 32), em decorrência de sua atrevida desobediência às leis divinas (Êx 20:1-6). E será pela obstinada recusa de aceitar o convite divino à salvação que muitos se perderão, apesar da vontade de Deus ser que “nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (Pe 3:9). O princípio da escolha e de suas conseqüências é claramente enunciado nas palavras “aquilo que o homem semear, isso também ceifará”. (Gl 6:7).

Destinados para a vida eterna

“… e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna“, Atos 13:48

O texto é difícil. Se o interpretamos da mesma forma que o lemos, ele derrubará não só os argumentos deste modesto estudo, mas também toda a mensagem do Novo Testamento, trazendo confusão e desânimo à fé cristã. É bem provável que o significado exato do contexto, é aquele que diz que os gentios que creram, o fizeram em virtude de perceberem o fato de que o plano divino de salvação também os  incluía. Ora, eles também estavam destinados a salvação, ou, a salvação também estava destinada a eles.

Aquele território estava abarrotado de gentios. Por este motivo o texto diz, “creram todos os que estavam destinados à salvação“. A salvação não é mais só para os judeus. O Deus que salva não faz mais acepção de pessoas. Por outro lado, a palavra “destinados” pode significar pouco mais que “dispostos”, referindo-se à preferência humana. Assim sendo, esse versículo passaria a fazer alusão às disposições naturais daqueles ouvintes gentios da Palavra de Deus. Creram tantos quantos “assim se dispuseram” (conforme a tradução essencial de Whitby e Adam Clarke, os quais se referem à boa disposição mental desses ouvintes, o que se destaca mais, no texto sagrado, do que qualquer pensamento sobre alguma predestinação divina). A frase significa que nem todos na cidade creram no Evangelho.

Embora à primeira vista Atos 13:48 parece ensinar que Deus escolhe (ou seja, nomeia) pessoas a serem salvas, nada poderia estar mais longe da verdade com o que está claramente evidenciado, se compararmos esta passagem com outras Escrituras. Por exemplo, considere as palavras de João 1:12,

Mas a todos quantos o receberam , deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, aos que creem no seu nome“.

A palavra τεταγμενος, traduzida como destinados em algumas versões, e ordenados em outra versões, vem do verbo ταττω ou τασσω (“tasso”),  que  significa “a nomear, organizar, colocar em ordem, ordenar ou decretar, dispor, colocar em conjunto“,  que foi considerado aqui como implicando a disposição ou prontidão de espírito de várias pessoas, como os prosélitos religiosos mencionados em Atos 13:43, que possuíam  o reverso da disposição dos judeus que falaram contra aquelas coisas, contradizendo e blasfemando ao que Paulo dizia, Atos 13:45. Observe todo o contexto até o versículo em estudo,

43    E, despedida a sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos religiosos seguiram Paulo e Barnabé; os quais, falando-lhes, os exortavam a que permanecessem na graça de Deus.

44 E no sábado seguinte ajuntou-se quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus.

45 Então os judeus, vendo a multidão, encheram-se de inveja e, blasfemando, contradiziam o que Paulo falava.

46 Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: Era mister que a vós se vos pregasse primeiro a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios;

47 Porque o Senhor assim no-lo mandou: eu te pus para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação até os confins da terra.

48 E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna.

Os judeus – considerados predestinados por excelência – contradiziam e blasfemavam, mas os prosélitos e os gentios ouviam atentamente, recebendo a palavra da vida. O partido dos judeus estava totalmente indisposto através de sua própria teimosia, para receber o evangelho, enquanto os outros, destituídos de preconceito e indisposição, foram felizes em saber que, na ordem de Deus, os gentios também foram incluídos (destinados ou ordenados) no pacto de salvação através do Senhor Jesus.

Porém, se queremos interpretar o contexto através da visão calvinista, poderíamos afirmar que o Apóstolo Paulo dizia apenas que aos gentios foi dada a salvação, sendo assim  também eles ordenados para a vida eterna.

A  palavra no original grego  não é usada uma vez nas Escrituras para expressar predestinação eterna de qualquer tipo. A soma é, todos aqueles gentios que  foram alcançados pela salvação, agora se dispuseram a acreditar. Não que Deus rejeitou o resto, mas era  sua vontade que eles também  fossem salvos. Portanto, o Apóstolo Paulo não usou os verbos gregos equivalentes a Pré-ordenados e Predestinados ( προτεταγμενοι ou προορισμενοι), mas simplesmente τεταγμενοι (“tasso”) , que não inclui  nenhuma idéia de pré-ordenação ou pré-destino. E, se ele o tivesse feito, seria bastante perigoso afirmar que  todos aqueles que acreditaram neste momento eram os que realmente perseveraram  até o fim, e foram salvos para a vida eterna.

Seja qual for a nuança exata das palavras, não há sugestão alguma de que receberam a vida eterna independentemente de seu próprio ato de fé. Também, não vemos no texto nada que sugere que os que não creram  o fizeram porque já estavam predestinados à perdição.

 

Nomes que não estão escritos no livro

“… Os que habitam sobre a terra e cujos nomes não estão escritos  no livro da  vida desde a fundação do mundo …”  (Apoc. 17:8).                       

Vários intérpretes de inclinação acentuadamente calvinista vêem aqui uma boa dose de «determinismo» como se um nome tivesse sido registrado ou não neste livro, por um decreto divino fixo. Em outras palavras, muitos nomes nunca seriam ali escritos. Essa expressão, é claro, sugere a ideia da predestinação, para a destruição,  por tratar-se de expressão altamente determinista. Rejeitamos, contudo, as idéias da reprovação ativa e da reprovação passiva, até onde vai essa expressão. Apesar de que tal ponto de vista era sustentado por alguns rabinos, e, portanto, provavelmente também por alguns cristãos primitivos, devemos observar que o próprio Apocalipse constitui um convite ao arrependimento, que as pragas que sobrevirão e que ali são preditas, tem a intenção de levar os povos ao arrependimento. (Ver Apoc 2:21; 9:20,21; 16:9,11; e 22:17). Certamente Deus não haveria de zombar dos homens com um falso oferecimento do bem, o qual só pode ser obtido através do arrependimento. Naturalmente, este versículo tem natureza determinista; mas o N. T. contrabalança toda a ideia de determinismo com o ensinamento do real livre-arbítrio do homem, o que o torna responsável por aquilo que ele faz.

“Desde a fundação do mundo”. Isso também figura em Apoc 13:8; mas é provável que ali a expressão seja usada para referir-se ao “Cordeiro que foi morto” nos propósitos divinos, “desde a eternidade passada”. Cristo foi «conhecido de antemão» desde «antes da fundação do mundo». Ele sofreu «desde a fundação do mundo». Todos estes casos sugerem a predestinação, porquanto os eventos, por assim dizer, foram determinados antes da existência do homem, ou desde os primórdios mesmos da terra, ou mesmo antes de qualquer criação. Mas, somente no que se refere à Cristo essa situação é corretíssima. A expiação de Cristo é referida como algo determinado. Não foi algum «pensamento tardio» de Deus, e o pecado não o tomou de surpresa, sem qualquer provisão para o mesmo. A nossa salvação não foi um pensamento posterior de Deus, como um remendo. Graças a Deus por isso! O princípio de sacrifício e redenção é mais antigo que o mundo, pois, na realidade, pertence à essência mesma da deidade. Neste caso específico de Cristo, é algo inteiramente intemporal.

 As conexões da expressão «desde o princípio», segundo alguns estudiosos, seriam com a palavra «escrito», em outras palavras, a eleição seria eterna, desde o passado eterno. Entretanto, uma interpretação mais racional e convincente, seria vincular a expressão «desde o princípio» em 17:8 ao vocábulo «morto» como em 13:8; e, nesse caso aplicaríamos os termos, à expiação que seria concebida como algo que foi planejado desde a eternidade, ou, pelo menos, planejado desde os tempos mais remotos. Sendo assim, entendemos que o nome de alguém é arrolado nos Céus devido a sua fé na expiação de Cristo.

O livro mencionado neste texto de Apocalipse tem uma longa história antes da referência de João a ele (cf. Êx. 32:32; Dan.12:1).  João cria que esses nomes haviam sido escritos no livro desde a fundação do mundo (17:8), mas esta predestinação era condicionada à fé e à fidelidade do homem, visto que Deus podia apagar ou riscar um nome do livro (Êx.32:33). Podemos concluir também, que aqueles que não foram achados escritos no livro são “os  profanos, idólatras, sodomitas, os mentirosos, os cães, os feiticeiros e todos que vivem em pecado. Estes tais não herdarão o reino de Deus”. Compare com Gl 5.19,20 e Ap 21.8; 22.15. Sendo assim, um outro argumento forte quanto a questão do texto, seria que, os que jamais teriam seus nomes escritos no livro mencionado poderiam ser os pecadores que jamais entrariam no reino de Deus. É como se João trouxesse a memória dos leitores que nenhum idólatra, avarento, impuro, ladrão etc, de maneira nenhuma teria seu nome escrito nesse livro, o que é a pura verdade. Não acredito que Deus, lá da eternidade tenha visto o Paulo da Silva que nasceria no século 21, já estaria predestinado a perdição eterna e consequentemente seu nome não poderia ali ser listado. Os pecadores sim e as ações deles é que podem ser escritas neste livro. Regras, e não nomes e endereços. O outro lado também pode ser real, o lado dos cristãos.

A fé não é de todos

Preaching-Of-St-Paul“… Para que sejamos livres de homens perversos e maus;  porque a  fé  não é de todos”  (II Tess. 3:2).

Os discípulos de Calvino  forçam a parte final do presente texto até não poderem mais. Sua tese é que, como “… a fé não é de todos …”, então, nem todos os homens podem ser salvos em hipótese alguma.

Entretanto, não é isso que o texto ensina. “Porque a fé não é de todos”, visa ser uma explicação da conduta hostil de alguns. Paulo estava em Corinto, a cidade ímpia e má, onde nãotodos tinham fé; de fato, poucos (cf. Atos 18:1-11) . aqui pode ser entendida no sentido de confiança (“nem todos os homens exercem fé”), ficando subentendido que  nem todos vão aceitar a nossa mensagem. O apóstolo Paulo transmite o conhecimento de que, embora a oração seja em prol da pregação bem sucedida da Palavra, nem todos creem (ou crerão).

O obstáculo ao progresso triunfante do Evangelho na área missionária do próprio Paulo achava-se na opinião humana que tinha de enfrentar. O apóstolo previa – na primeira parte do versículo – perigos da parte dos descrentes, judeus que eram seus oponentes. O que Paulo tinha em mente era a obstinação dos judeus. Era a rejeição deles a Jesus, como o Messias, que levantava sério problema. A iniquidade proposital daquela gente aumentara ao ponto que eles mesmos se tinham afastado propositadamente (não que eram predestinados), e nem se deixaram influenciar pelo Espírito Santo não querendo mais depositar confiança em Cristo. E é isso que a experiência cristã ensina; é possível que alguns indivíduos se obliteraram, individualmente, de qualquer possibilidade de virem a confiar em Cristo mediante rebeldia voluntária, o que é um estado trágico, mas onde se chega quando se rejeita voluntariamente a luz.

Paulo mostrava, por conseguinte, que os crentes tessalonicenses não se deveriam surpreender ante a horrenda obstinação de alguns homens contra o Evangelho e contra seus seguidores. Mas antes, deveriam compreender que os homens podem chegar a um estado de alma inteiramente caracterizado pela incredulidade, motivado pela perversão mais irracional. Tais indivíduos se mostram destruidores, havendo grande abundância deles no mundo atual.

Deus é quem efetua em vós …

“Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade”, Fil 2:13. 

Temos aqui um outro texto que o calvinismo radical promove em defesa de sua doutrina. Além de afirmar que Deus salva a quem quer e envia para o inferno pessoas que não terão chances de misericórdia, propagam ainda que Deus controla cada gesto, atitude, gostos, palavras e etc, de cada indivíduo.

Não devemos entender este versículo como um decreto que determina anteriormente nossas palavras e ações mesmo antes de serem tomadas, ou, que nossas ações como crentes estão todas determinadas por Deus.

 As palavras “… porque Deus é quem efetua …” mostram o lado “divino” da salvação contínua, tal como o versículo anterior mostra o lado “humano”. Ambos esses aspectos dizem uma verdade, e, apesar de parecerem contraditórias essas declarações, até certo ponto, na realidade não são assim as coisas, pois Deus, está sempre com o crente, mas o crente é salvo ao corresponder à graça divina nos termos descritos no versículo anterior. Deste modo, tanto o querer como o efetuar são operações da graça divina manifestada e produzida pela boa vontade de Deus. À primeira vista, parece que toda a responsabilidade é removida dos filipenses, exceto talvez, o consentimento passivo para permitir que Deus trabalhe no meio deles. Não é dito aqui que as ações dos filipenses estão estabelecidas e determinadas antes mesmo de serem tomadas, e que cada gesto ou palavra que gera uma ação, estão predeterminadas, em minúcias, por Deus. No contexto, Paulo provavelmente introduz a promessa da ajuda divina para assegurar a seus amigos que, visto que ele não pode estar com eles (“em minha ausência”), eles não deveriam desesperar-se, mas lembrar-se de que a assistência graciosa de Deus (a “boa vontade ativa” de Deus) encontra-se disponível para efetuar tanto o querer como o realizar (gr. energein, deixa implícita a ação positiva, permanente de levar a aspiração humana à realização). Os versículos 12 e 13 nos ensinam que nossa salvação do pecado dia após dia não é uma coisa que Deus faz sem a nossa vontade, mas consiste de duas partes: 1) Querer a vontade de Deus, e 2) efetuar a vontade de Deus.

“… efetua em vós…” No grego temos aqui o verbo “energeo“, que significa “operar”, “atuar”, “trabalhar”, “vitalizar”. Tudo quanto houver de bom em nossas ações também vem pela operação do auxiliador, o Espírito Santo da Graça, concedido pela boa vontade de Deus que passa a atuar em nós. Portanto, aconselhar, exortar, consolar, fortalecer, estimular e interceder, como atividades do Espírito Santo em nós, são legítimas e evidentes no presente versículo.

Em seus aspectos práticos a concretização do poder de Deus, que em nós reside, nos fornece “a base do encorajamento”, bem como um “incentivo”; pois sabemos que essa estupenda realização chamada “salvação”, pode ser levada a seu término perfeito em nossas almas, posto tratar-se de uma realização divina, e não somente humana. Deus garante a nossa segurança, pois Ele não pode negar-se a si mesmo. Nesse aspecto, e no que depender de Deus, seu amor e providência estão sempre disponíveis; “o Espirito está pronto, mas a carne é fraca” disse o Senhor Jesus. Assim, nós devemos perseverar em obediência até o fim. Nós erramos, mas Deus não! Ora, sabendo disso, devemos ser levados em espírito de humildade e ação de graças, especialmente quando vemos que o amor de Deus vai aumentando diariamente em nós.

“… o querer …” Vemos aqui os impulsos íntimos do coração, mediante o que um homem pode dizer “eu quero”, “eu espero”. Todas essas afirmativas refletem a disposição, o “desejo” do indivíduo. Portanto, o que é dito aqui reflete o resultado direto da influência do Espírito Santo.

O “realizar“, no presente contexto, diz respeito àquelas coisas que acompanham a salvação e a levam a perfeição, a vida moral e a santificação; mas, de maneira geral, todas as coisas contribuem para compor uma vida leal a Cristo; e ao cumprirmos a vontade de Deus, nós mesmos vamos sendo transformados à imagem de Cristo, sempre sob a orientação e ajuda do Espírito Santo.

segundo a sua boa vontade …” Literalmente, diríamos aqui “… em favor de sua vontade …” O sentido destas palavras precisa ser norteado pelo sentido que o trecho de Efé 1: 5,9 lhe dão: levar a realização de seus propósitos soberanos e graciosos para com os homens, na redenção humana oferecida na pessoa de Cristo. Essa é a vontade de Deus, e esse é o seu beneplácito. E isso se manifesta de muitas maneiras em nossa vida diária. Portanto, aprendemos que a vontade divina não envolve uma preferência arbitrária, mas antes, tem alvos específicos e benéficos atinentes aos homens. Tudo está unido ao amor paternal de Deus, operando em nós na qualidade de filhos Seus. As palavras “… boa vontade …”, no original grego, são uma palavra só, “eudokia“, que significa “favor”, “beneplácito”, “boa vontade”. Todas essas expressões referem-se à benevolência de Deus; e Suas operações em nós levam-nos ao bem estar final, a saber, a salvação de nossas próprias almas. Essa é sua vontade.

Jó e os Filhos de Deus

Jó 38:4-7, diz: “Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? … quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus?”

A expressão “filhos de Deus”, usada aqui e em outras passagens, sempre se refere a anjos e não homens. De maneira maravilhosa, estrelas e anjos se reuniram em louvor quando a terra foi criada. É Inconcebível  afirmar a nossa preexistência usando-se o presente contexto. Porém, outra falácia calvinista radical  afirma que estes filhos de Deus são os espíritos – ou almas – dos crentes predestinados desde a fundação do mundo, que estavam, ou estão, em algum lugar na eternidade até serem enviados aos corpos terrenos.

O conhecimento das origens do mundo é inacessível ao homem. O homem, o último a chegar no cenário, nunca observou os começos. E Deus não estava solitário quando começou este mundo. Seu mundo já era habitado por criaturas: seres “divinos” (literalmente filhos de Deus), os anjos de uma teologia posterior, os quais já encontramos em assembléia nos capítulos 1 e 2, celebravam com cânticos e aplausos a realização de Deus. Já aqui, a reação exultante de criaturas tão superiores, tão próximas de Deus, é uma chamada para Jó maravilhar-se e regozijar-se com eles.

Além do mais, essa doutrina da nossa preexistência não é muito coerente com o ensino bíblico. Imaginem os espíritos preexistentes em algum lugar na eternidade, confinados nas regiões celestes, e num tempo posterior são achados em forma humana. Então, inicia-se o martírio: a criatura se rebela contra o seu criador; se envolvem em pecados e   toda a sorte de injustiças. E no “tempo certo” muitos se convertem, pois para isto foram predestinados. Isso é uma loucura! Não seria melhor deixá-los na eternidade? O que? Deus tinha um plano? Qual? Deixar a Somália morrer de fome? Isso tudo não é mais bestial por falta de espaço. Livremos Deus desta situação ridícula.

Imaginem outra cena celestial: O Senhor Jesus – que agora está lá – achega-se a Deus que está observando a lista dos predestinados a salvação e a perdição, e lhe pergunta: “Pai, quem é este João da Silva?” Deus responde: “este João da Silva é um infeliz que vai nascer em setembro do ano que vem e  já esta predestinado a perdição”.  Temos, aqui, um remédio pior que a doença. É melhor deixar a soberania divina e o livre-arbítrio sem solução, do que explicar seu relacionamento a maneira calvinista fatalista. Esse não é o Deus bíblico!

A eleição pré estabelecida é muito confusa. Ela parece determinar os lugares e a posição de onde os eleitos procederiam, bem como o conhecimento perfeito de cada um daqueles que “receberiam privilégios especiais”, o que para todos os efeitos práticos, seria equivalente à eleição individual, e que insinua que eles poderiam ser salvos inteiramente à parte da pregação do Evangelho, o que não deixa de ser um absurdo. Sendo assim, mais cedo ou mais tarde esses indivíduos inevitavelmente se aproximariam de Cristo e seriam  salvos a qualquer custo (???). Esta confuso o argumento? Eu não acho, não foi eu quem começou a confusão.

Preexistência de Paulo e Jeremias

«Jeremias 1:5 diz o seguinte: “Antes que Eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e antes que saísses da madre, te consagrei e te constituí profeta às nações“.   E Gálatas 1:15, diz: Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça…”.

A frase “antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci…” em Jeremias, e, “…ao que me separou antes de eu nascer e me chamou…” em Gálatas, não pode nunca se referir à Deus ter mantido algum tipo de relacionamento com um Jeremias ou um Paulo preexistente. Em vez disso, refere-se à existência pré-natal de ambos, no ventre de suas respectivas mães.

A expressão «conhecer de antemão» (gr. proinosko)  também significa «unir-se antes com alguém». Seria absurdo admitirmos que essa maneira de entender o texto bíblico nos leve a crer que Deus já nos conhecia antes de o mundo existir, na eternidade, significando a nossa preexistência. Não é possível usar Gálatas 1:15 e Jeremias 1:5, e afirmar que Paulo e Jeremias foram escolhidos antes da fundação do mundo, sem violentar as Escrituras.

O calvinismo supõe que temos aqui a predestinação de Deus, baseada exclusivamente na vontade dele, sem qualquer outra consideração. “Deus faz o que quer”. Acha ele que o propósito de Deus é racional, mas as razões dele são escondidas de nós. Acreditam eles, que a melhor maneira para explicar tais fenômenos, como aquele que temos neste texto, é de supor que a alma é preexistente. Neste caso, a pessoa é escolhida para uma missão especial por causa da «história» dele, como ser espiritual. Essa história prepara a pessoa para cumprir missões especiais. Assim, as pessoas até podem merecer uma alta missão por causa de uma diligência espiritual extraordinária da vida anterior (?!). As escolas dos fariseus e essênios, no tempo de Jesus, aceitaram e ensinaram esta doutrina, ligada com a reencarnação. Os pais alexandrinos ensinaram a ideia sem reencarnação, pensando que a alma tem vivido em esferas espirituais antes da vida física.

A expressão “antes de eu nascer” em Gálatas, literalmente no grego, é “desde o ventre de minha mãe“, palavras essas que podem significar “desde o tempo do nascimento“, ou então “desde antes do nascimento“, tal como em nossa versão portuguesa, que esclarece o significado quando registra: “Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça”. Esta última possibilidade também é usada na Septuaginta (tradução do A. T. hebraico original para o grego, completada cerca de duzentos anos antes da era cristã). (ver Jui 16:17; Isa. 44:2,24; 49:1,5). Semelhantemente, temos em Jeremias o mesmo significado.

Aos que conheceu… predestinou

“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou”, Rom 8:29

Temos aqui alusão à «presciência de Deus». Esse conhecimento anterior não indica mera presciência acerca da fé ou da escolha humana. Os próprios crentes – o povo crente – é que são «conhecidos de antemão», e não a fé deles. O uso dessa expressão é similar àquilo que se lê em Amós 3:2, onde se diz: “De todas as famílias da terra somente a vós outros escolhi… “. Não há aqui, por conseguinte, qualquer pensamento acerca de uma fé prevista, exercida pelo livre-arbítrio humano, embora isso também seja uma verdade, mas não expressa na presente passagem. Antes, está em foco um povo «conhecido de antemão»

A ideia aqui transmitida para nós indica uma espécie de amor preordenado, de familiaridade anterior, de preocupação e interesse por muitas criaturas (a Igreja – veja Ef. 3:10,11), da parte de Deus. O trecho de I Pd. 1:2 pode ser similarmente interpretado, porque ali, por semelhante modo, não há qualquer declaração no sentido que Deus prevê aqueles que haveriam de crer, tendo escolhido os mesmos, embora muitos interpretes tenham forçado essa significação sobre este trecho petrino, por igual modo. Pedro lembra os leitores da sua posição privilegiada e segura como alvos da escolha soberana, graciosa e eterna de Deus para serem o seu povo em e através de Jesus Cristo. Inclui a escolha amorosa, eficaz de Deus, bem como o seu propósito (Rm 8.29).  Esse conhecimento anterior, portanto, é uma espécie de amor previamente determinado, a força que provoca a eleição para a salvação. É importante notarmos que o apóstolo Paulo não alude aqui a algum conhecimento anterior passivo ou vazio, com se isso quisesse dizer que Deus meramente viu de antemão que alguns seriam isto ou aquilo, fariam isto ou aquilo, ou creriam. O conhecimento prévio de Deus envolve um povo, e não a conduta dos mesmos; não importa «o que», e, sim a «quem» Ele conheceu de antemão. Está mais em vista o conhecimento amoroso ou «preocupação» de Deus. «Conhecer de antemão», portanto, pode referir-se ao propósito «interno» de Deus, que vem a ser externamente exercido em Sua eleição e predestinação divinas.

É provável que o conhecimento prévio que Deus tem de seu próprio povo indica a Sua peculiar e graciosa complacência neles, ao passo que a sua «predestinação» ou «preordenação» dos mesmos significa o seu «propósito» fixo que disso se deriva, de salvá-los e chama-los com santa vocação (ver II Tim 1:9).

Isso (a presciência) diz respeito ao amor eterno de Deus em favor de Seu próprio povo, o deleite que Ele sente neles a Sua aprovação a eles; nesse sentido é que Deus os conheceu, tendo-os conhecido de antemão, sentindo um infinito deleite e prazer neles; é esse o alicerce da predestinação e eleição deles, de sua conformação com Cristo, da sua chamada, justificação e glorificação. A predestinação se baseia no “conhecimento anterior” de Deus, no sentido que o Seu «amor eterno» e «preocupação e interesse» é que está em foco ( o que é a predestinação, conforme essa ideia é empregada aqui, não estando em foco a mera previsão ). Portanto,  Aqueles “sobre quem fixou Seu coração de antemão” são os que se tornaram alvos de seu decreto determinador –  o Seu povo, a Sua Igreja, que é o Seu corpo, a morada de Deus (cf Amós 3.2). Pode ter sido este  o plano traçado de antemão. Esse decreto determinador    não  é um mero pronunciamento judicial, mas, é sem dúvida acompanhado por um poder orientador e criador, através do Espírito Santo, para cumprir o propósito preordenador de Deus.

O grande alvo da predestinação é a chamada dos crentes dentro do   tempo, e o resultado de ambas as coisas é a transformação do crente segundo a imagem de Cristo. A predestinação ou conhecimento prévio, a primeira das quatro grandes idéias do verso 29, significa que Deus amou o homem antes que o homem amasse a Deus (cf. I  Jo 4:19). Muitos seguem a ideia de Orígenes, de que Deus predestinou com base no seu conhecimento antes que ocorram, mas tal racionalismo perde de vista toda a ideia de amor.

A premonição de Deus a respeito do homem antes que este conheça a Deus não torna a predestinação inevitável, como geralmente presume a tradição agostiniana calvinista. É estranho como se dá pouca atenção às claras palavras de advertência escritas por Paulo: “Outrora, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses; agora, porém, que já conheceis a Deus, ou melhor, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, os quais de novo quereis servir?” (Gál. 4:8,9).

O problema da predestinação nunca poderá ser resolvido, se se presumir que, sem exceção, os que são conhecidos por Deus estão predestinados para a glória. O monergismo sempre termina em predestinação dupla ou no universalismo. Se Deus faz tudo, Ele é responsável por tudo o que acontece; mas se o homem é responsável pela reação que tem, então o resultado da parte do homem é condicional. A predestinação condicional significa que o verdadeiro destino do homem é alcançado apenas onde há fé o tempo todo, até que se alcance o alvo. Este tipo de salvação é um caminhar, e não um salto, em que Deus sustém o homem pelos cabelos a qualquer custo! É uma comunhão e não fatalismo. O destino dos que permanecem em Cristo é o destino do próprio Cristo. Ele é o predestinado, e o crente é predestinado nele (cf, Atos 2:23: 4:28). As claras palavras de Paulo, aqui, devem ser colocadas no contexto da graça, mas não devem ser separadas da fé.

Deus “nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para Si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado” (Ef. 1:5,6). O homem não está em dificuldades porque é número seis, nem vai para o céu porque é número sete (jogo de palavras em inglês). Ele estará em dificuldades se não reagir de maneira positiva e permanente à graça de Deus, e terá a sua salvação concretizada se crê e continuar a crer em Cristo Jesus. Da mesma forma como alguém chega a Curitiba porque embarcou em um avião destinado a Curitiba, uma pessoa também chega a glória porque permanece em Cristo, que foi predestinado à glória. Predestinação significa que sabemos para onde estamos indo, antes de chegarmos lá.

Paulo não cai na incongruência dos fariseus , pois dificilmente ele usaria o termo destino. Os fariseus ensinavam que tudo depende do destino e de Deus; não obstante, a escolha do certo ou errado, em sua maior parte cabe ao indivíduo.

Vasos de ira e vasos de misericórdia

E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição;  para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou”, Rom 9:22,23

O calvinismo radical aplicou a predestinação dupla ao texto, e saiu-se com a ideia de que um vaso fora feito para a salvação e o outro para a condenação. Esta ideia foi levada ao extremo pelos Batistas Predestinados das Duas Sementes no Espírito (havia um grupo com esse nome) que ensinavam que o destino do homem era predeterminado.

A vontade soberana de Deus em relação aos vasos de misericórdia é uma eterna preparação para a glória. Pode-se interpretar igualmente que os vasos de ira são predestinados para a destruição? Os vasos de ira são os desobedientes, com quem Deus está justamente irado e sobre quem desce o castigo por causa do pecado. Foram eles também de antemão preparados para a perdição eterna? Note-se em primeiro lugar que os dois verbos são diferentes. Diz-se dos vasos de misericórdia que são preparados de antemão, gr. proetoimasem , ao passo que os vasos de ira são adaptados, apropriados, gr.katertismena; lit. tornar «adequados» ou «completos», com o particípio perfeito dando o sentido de «equipados».

A expressão “vasos da ira” refere-se àqueles que, pela prática do pecado, estão se preparando para a sua destruição eterna. O verbo katertismena aponta a responsabilidade dos objetos da ira de Deus revelando que eles são os responsáveis. O indivíduo torna-se um vaso da ira através dos seus próprios atos pecaminosos e da sua própria rebelião contra Deus, conforme Paulo já declarara: “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti” (2.5). Não se declara que Deus é o agente dessa adaptação. A condição se declara apenas como fato histórico. Daí vem que alguns preferiram a tradução «apropriados para a destruição», que não é a tradução correta. Note-se em Romanos 9:22 que  Deus suportou… os vasos de ira. Estes vasos são os objetos, não os instrumentos da ira de Deus (cf. Jer 50: 25). Ele não os fez para a perdição, como muitos supõem que Paulo esteja falando. Paciência, em Romanos 9:22, pode ser traduzida por longanimidade de Deus que aguarda o arrependimento dos vasos de ira. Longanimidade é a virtude divina de suportar a maldade e aguardar o arrependimento de seus ofensores.  Se Deus aguarda arrependimento destes, significa que eles não foram determinados perdidos deste a fundação do mundo. Assim, Deus demonstra sua ira e poder pela sua tolerância paciente dos vasos de ira. Tolerância paciente não faz de um indivíduo um mero vaso (ou vaso de ira). Paciência é uma qualidade muito pessoal. Os vasos de ira desprezam “as riquezas de sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus… conduz ao arrependimento”, e, ao fazê-lo, o “coração impenitente” entesoura ira para “o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus”( Rom.2:4,5; cf. II Ped.3:9).

O Apóstolo quer dizer que Deus pacientemente suportou os vasos de ira, que se haviam preparado para a destruição. O mistério da predestinação deve ser mantido, todavia não parece haver aqui nenhum apoio para se dogmatizar acerca da predestinação para a condenação. Parece claro da linguagem e do pensamento de Paulo que, enquanto no caso dos vasos de misericórdia a ação de Deus consistiu em “preparar de antemão”,  no caso dos vasos de ira Ele não empreendeu nenhuma ação, mas «suportou com muita longanimidade».

Finalmente em Romanos 9:31 e ss., há uma declaração de Paulo no sentido que a reprovação divina, se escuda em razões tanto divinas quanto humanas. Começando por este ponto, e chegando até o fim do décimo capítulo, Paulo apresenta o lado humano da questão. Os homens foram convocados a se arrependerem – não quiseram fazê-lo e foram endurecidos por seus próprios pecados; Deus os convocou, mas eles não corresponderam. Daí tornaram-se merecedores do juízo. Assim, parece que Paulo acaba por abandonar seu argumento da “predestinação fatalista”. O trecho de Romanos 9:30 – 10:21, ensina-nos que a vontade e o agir humano entram em cena na questão da vida eterna.

Um uso posterior nos escritos paulinos aponta a responsabilidade humana quanto ao tipo de vaso em que a pessoa se torna. “Ora, numa grande casa, não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro; e uns, na verdade, para uso honroso, outros, porém, para uso desonroso”(II Tim. 2:20). Mas a coisa importante que deve ser notada é que a pessoa pode purificar-se por consagração do “Senhor da casa” (II Tim.2:21).

Tenho aqui algo interessante a  perguntar: Se Deus – segundo os mensageiros da predestinação fatalista – é absolutamente livre para eleger ( e conduzir?) o indivíduo no sentido de ser melhor ou pior, que é da responsabilidade humana?

Ora, visto como ninguém pode resistir a essa vontade divina onipotente – segundo eles – devemos  supor que  Deus seria o responsável pelos erros daquele que está condenado ao inferno desde a fundação do mundo. Portanto, temos que concluir que o seu pecado deixa de ser voluntário (?!). Sendo assim, pergunto: esse pecador, coagido e implacavelmente programado por Deus, mereceria o castigo?

Livremos Deus de tão ridícula situação!