Existe determinismo na Bíblia?

dterminismoO determinismo torna Deus o autor do pecado e do mal, suplanta o livre-arbítrio humano, distorce o sentido de soberania, torna a oração inútil, esmaga o maior atributo de Deus – o amor – e tira do homem a responsabilidade pelos pecados. Mas os deterministas ainda tem uma última carta na manga: eles dizem que, apesar de tudo, este ensino é “bíblico”. Então, querendo ou não, gostando ou não, devemos crer nele e aceitar suas consequências.

Mas será mesmo que o determinismo é bíblico? Os calvinistas têm alguns versículos de prateleira, que eles sempre tiram de lá quando vêem oportunidade, a fim de provarem que o determinismo, apesar de tudo, é bíblico. Uma passagem que foi repetidamente usada por Calvino foi Lucas 12:6, que diz:

Não se vendem cinco pardais por duas moedinhas? Contudo, nenhum deles é esquecido por Deus” (Lucas 12:6)

Porém, este texto não está tratando de determinismo, mas de presciência. Cristo diz que nenhum pardal é “esquecido”, ou seja, que ele se lembra de todos, e não que determina cada ação de cada pardal, o que seria ir muito além daquilo que está escrito. Outra passagem bastante usada por Calvino foi Mateus 10:29-30, que a ACF [1]  traduziu assim:

Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? E nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai. E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (Mateus 10.29-30).

De fato, o texto fala da “vontade” de Deus, mas seria uma vontade decretiva ou permissiva? Por exemplo: se um filho diz à sua mãe que vai sair para jogar bola e voltar mais tarde e a mãe consente, pode-se dizer que o filho não saiu de casa sem a vontade da mãe, embora a mãe não tenha decretado isso (ela não disse para o filho sair de casa, mas meramente permitiu que o filho saísse). É a mesma coisa que ocorre aqui. Não está em jogo um decreto divino sobre a ação de cada passarinho, mas uma vontade permissiva. A NVI [2]  traduz com perfeição o sentido do texto:

Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Contudo, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês. Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados” (Mateus 10.29,30)

O verso seguinte lança mais luz ao sentido do texto, pois não diz que Deus determinou todos os cabelos da cabeça, mas que contou, passando a ideia de saber e não de ordenar. Deus sabe e Deus permite, ao invés de determinar e ordenar.

Outro texto muito usado por deterministas está no Salmo 139, onde Davi diz: “Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Salmo 139:14-16)

Essa parece ser a declaração bíblica mais forte a favor do determinismo. Infelizmente para os calvinistas, essa é uma tradução mal feita, ainda presente em algumas versões da Bíblia. A King James, por exemplo, que é reconhecida como sendo a tradução mais fiel aos originais, verte da seguinte maneira:

Os teus olhos viram a minha substância ainda imperfeita, e no teu livro todos os meus membros foram escritos, que em continuação foram formadas, quando ainda não havia nem um deles

A Almeida Corrigida e Revisada Fiel segue na mesma linha e traduz: “Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia”.

Alon Franco conclui:

“Assim, as traduções citadas deixam exposta a ideia do original hebraico, que nos permite perceber o que foi pré escrito no livro de Deus: a formação dos membros do seu corpo é que foram pré-gravadas no ‘livro’ – isso se alguém ainda acha mesmo que devemos tomar esse tom poético literalmente. Como mencionado acima, o tema dos versos 13 a 15 é a formação do corpo de Davi. De fato, na primeira estrofe do verso 16, quando se diz: ‘Seus olhos viram a minha substância ainda informe’, também diz respeito à consciência íntima que o Senhor tem do salmista, mesmo antes que ele esteja formado. Davi louva ao Senhor pelo cuidado que tem dele, enfatizando a soberania e amor de Deus que o acompanhava desde o útero de sua mãe. Uma interpretação deste versículo que continua na expressão poética do autor do cuidado notável que o Senhor tomou na formação de seu corpo parece mais adequada”[3]

Portanto, não há nada nestes versículos que prove que os dias do salmista foram escritos previamente. É por isso que este texto tem sido pouco usado pelos eruditos calvinistas mais respeitados (especialmente entre os de fala inglesa, onde a KJV é muito respeitada), embora ainda seja muito usado por leigos que só lêem uma versão da Bíblia. O próprio João Calvino não usou este texto nem uma vez, parecendo reconhecer que ele não fornecia uma evidência para a sua tese [4].

Mas o texto mais usado pelos calvinistas é o de Efésios 1:11, que diz: “Nele fomos também escolhidos, tendo sido predestinados conforme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade” (Efésios 1:11)

Ele tem um paralelo forte com Provérbios 16:4, que diz algo semelhante: “O Senhor faz tudo com um propósito; até os ímpios para o dia do castigo” (Provérbios 16:4)

Os calvinistas usam estes dois textos para dizer que Deus “faz todas as coisas”, incluindo o pecado e o mal, e, portanto, tudo foi predeterminado por Deus. John Feinberg usa este versículo como a base de toda a sua tese do determinismo divino, e diz que “Efésios 1:11 afirma que Deus decretou todas as coisas, até mesmo o pecado” [5]. Alvin Baker concorda e diz que, segundo este texto, “Deus faz ‘todas as coisas’, incluindo o pecado, segundo a sua vontade eterna” [6].

Mas essa é apenas uma interpretação do versículo, e não a interpretação final. Não é este o sentido do texto, muito menos o único sentido possível. Bruce Reichenbach lhe deu uma bela de uma resposta, dizendo:

“Há uma ambigüidade crítica que Feinberg despreza. Será que essa passagem ensina que Deus faz ou suscita todas as coisas segundo Seus propósitos, ou será que ela ensina que todas as coisas que Deus faz, Ele as faz segundo Seus propósitos? A sintaxe gramatical da sentença não nos obriga a adotar uma interpretação ao invés de outra. Por exemplo, uma pessoa pode dizer: ‘João faz todas as coisas muito devagar! ’ Não podemos inferir daí que João faz todas as coisas, mas apenas que todas as coisas feitas por João são feitas devagar. De modo semelhante, não se pode inferir deste versículo que Deus faz ou suscita todas as coisas; é igualmente razoável interpretar esta passagem como afirmando que todos os atos de Deus provêm de Seu conselho” [7]

Em outras palavras, Efésios 1:11 e Provérbios 16:4 não dizem que Deus faz tudo e também com um propósito, e sim que tudo o que Deus faz ele faz com um propósito. É a mesma coisa do exemplo de Reichenbach: “João faz todas as coisas muito devagar” não implica que João faz todas as coisas e também as faz devagar, mas sim que tudo o que ele faz, ele faz devagar. É uma frase ambígua, é verdade, e por essa mesma razão está longe de ser a prova conclusiva que os deterministas tanto precisam.

Impressiona que tantos eruditos calvinistas façam tanto carnaval em cima deste texto, como se fosse a “prova irrefutável” que eles precisavam para colocar o determinismo na Bíblia, quando somente uma leitura forçada e tendenciosa do texto impediria uma interpretação indeterminista do mesmo. Se o texto estivesse realmente dizendo que Deus determina tudo e também com um propósito, então teríamos que achar um “propósito” no estupro de bebês. Qual é o propósito nisso? A glória de Deus? Deus precisa ser glorificado através do estupro de infantes? Ele ordena que o bebê seja estuprado para “tirar algo bom” disso? A simples conjectura já é absurda [8].

Outros textos que os calvinistas usam são aqueles que o Antigo Testamento diz que “Deus fez”, quando o que ele fez foi permitir a ação.  Vance aborda isso em “O Outro Lado do Calvinismo”, dizendo:

“Freqüentemente se diz que Deus faz algo quando na verdade ele somente permitiu que fosse feito. Satanás incitou Davi a numerar Israel  (1Cr 21.1), mas se diz que Deus fez isto (2Sm 24.1). O melhor exemplo é Jó. Satanás foi a causa do sofrimento de Jó (Jó 1.12, 2.7), mas Jó (Jó 1.21), o escritor de Jó (Jó 42.11), e o próprio Satanás (Jó 1.1, 2.5) o atribui a Deus” [9]

Geisler e Howe acrescentam: “Embora tenha sido Satanás que diretamente incitou Davi, foi Deus que permitiu essa provocação” [10].

Estes dois exemplos nos mostram que não era incomum o Antigo Testamento retratar Deus “fazendo” algo, quando, na verdade, este “fazer” é equivalente a “permitir”. Não foi Deus quem causou o sofrimento de Jó, mas ele permitiu que o diabo o provasse. Não foi Deus quem incitou Davi a numerar Israel, mas ele permitiu que Satanás o incitasse a isso. Nestes casos, o diabo é o agente ativo (é o que “faz”, de fato) e Deus o passivo (o que permite, embora não cause). Este hebraísmo era relativamente comum e por conta disso muita confusão foi feita pelos deterministas.

Eles se apoiam em textos como Amós 3:6, que diz que nenhum mal sucede na cidade sem que o Senhor o tenha feito, quando o hebraísmo indica que “fazer” aqui é o equivalente a “permitir”. Embora isso seja incomum em língua portuguesa, temos que recordar que o original do Antigo Testamento foi escrito em hebraico, cujo idioma possui diversos hebraísmos e expressões que podem denotar outros significados que vão além da leitura natural do texto para alguém que não está familiarizado com o hebraico.

Um dos exemplos de hebraísmo é exatamente a questão do “fazer”, como nos mostra o Dr. E. Lund, que é erudito especializado nos idiomas bíblicos e autor da obra “Hermenêutica – Regras de Interpretação das Sagradas Escrituras”. Ele nos diz:

“Como prova de que o idioma hebraico expressa em forma de mandamento positivo o que não implica mais que uma simples permissão, e nem sequer consentimento, de fazer uma coisa, temos em Ezequiel  20:39, onde diz o Senhor: ‘Ide; cada um sirva os seus ídolos agora e mais tarde’, dando-se a compreender linhas adiante que o Senhor não aprovava tal conduta. O mesmo acontece no caso de Balaão o dizer-lhe Deus: ‘Se aqueles homens (os príncipes do malvado Balaque) vierem chamar-te, levanta-te, vai com eles; todavia, farás somente o que eu te disser’; dizendo-nos o contexto que aquilo não era mais que uma simples permissão de ir e fazer um mal que Deus absolutamente não queria que o profeta o fizesse. (Núm. 22:20.) Caso semelhante temos provavelmente nas palavras de Jesus a Judas, quando lhe disse: ‘O que retendes fazer, faze-o depressa’ (João 13:27)” [11]

Até mesmo o pastor presbiteriano Charles Hodge, que foi um dos maiores defensores do calvinismo no século XIX, reconheceu isso:

“Destas passagens e de outras similares, é evidente que é um uso bíblico familiar atribuir a Deus ações que ele em sua sabedoria permite acontecer” [12]

Infelizmente, muitos calvinistas não estão familiarizados com os hebraísmos do Antigo Testamento e com as regras de interpretação bíblica e acabam pensando que o verbo hebraico asah possui sempre o mesmo sentido do nosso verbo fazer, ignorando a hermenêutica e, consequentemente, se equivocando na exegese [13]. O próprio Calvino pouco conhecia sobre hebraísmos, e por isso falhava constantemente na exegese dos textos bíblicos, em especial os do Antigo Testamento, já que ele praticamente não abriu o Novo para provar o determinismo na Bíblia. Até mesmo o calvinista Francois Wendel reconheceu isso, dizendo:

“Mas, às vezes, pelo bem da coerência lógica ou da ligação a posições dogmáticas pré-estabelecidas, Calvino também fez violência aos textos bíblicos. Seu princípio de autoridade Escriturística então o levou a buscar as Escrituras por apoio ilusório, por meio de interpretações puramente arbitrárias” [14]

Outro erro muito comum de Calvino foi ter cometido a falácia da inversão do acidente, que é uma falácia que consiste em tomar uma exceção como regra, aplicando um caso específico como regra para uma causa geral. Calvino usou e abusou deste método falacioso. Um dos únicos textos do Novo Testamento citados por ele na defesa do determinismo (junto a Lucas 12:6 e a Mateus 10: 29, que já conferimos aqui) foi o de Atos 2:23, que diz:

Este homem lhes foi entregue por propósito determinado e pré-conhecimento de Deus; e vocês, com a ajuda de homens perversos, o mataram, pregando-o na cruz” (Atos 2: 23)

Se Calvino citou dez vezes este texto, foi pouco. Ele usava e abusava deste texto como a “prova” neotestamentária que ele precisava para sustentar o determinismo. Só tem um problema: este texto não fala nada sobre Deus determinar tudo. Ele meramente fala que a morte de Jesus foi determinada de antemão, o que nenhum arminiano indeterminista nega [15].

Calvino queria dar um salto na exegese e induzir que do fato da morte de Jesus ter sido determinada, daí decorre que tudo neste mundo foi determinado, algo que é simplesmente uma violência à exegese, pois o texto não diz isso. Em outras palavras, como Calvino não tinha nenhum texto que provasse que tudo neste mundo foi determinado de antemão por Deus, ele buscava casos isolados de assuntos específicos onde tentava forçar a interpretação para fazer das exceções uma regra.

Vemos, então, que a Bíblia não dá uma base sólida à crença no determinismo, e que as passagens utilizadas pelos deterministas são dúbias, forçadas e que violam as regras de interpretação bíblica. Mas será que o indeterminismo é apoiado biblicamente? Os calvinistas dizem que não. Contra a tese arminiana de que nem tudo é determinado por Deus, Feinberg diz que “se eu pudesse encontrar pelo menos um único versículo que afirmasse isto, eu me tornaria um indeterminista teológico (arminiano)” [16].

Vimos anteriormente que o pecado não é determinado por Deus. João, como vimos, disse que o pecado não provém do Pai, e, portanto, não pode ter sido determinado por ele: “Pois tudo o que há no mundo – a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens – não provém do Pai, mas do mundo” (1ª João 2: 16)

“Provém” tem ligação com a origem. Qual é a origem do pecado? O decreto. Da onde vem este decreto? Dos homens ou de Deus? De Deus. Assim, os calvinistas não podem escapar da lógica de que, se Deus determina e origina o pecado através do seu decreto, é de Deus que o pecado provém. Mas João diz que não. Para João, o pecado é autodeterminado, ao invés de ser externamente causado.

Outra falha do determinismo é presumir que a vontade de Deus é feita sempre. A vontade de Deus nunca pode deixar de ser feita, porque ele decretou de antemão tudo que é feito hoje. Portanto, qualquer coisa que aconteça, essa foi a vontade de Deus, isso foi o que ele determinou que fosse. Clark Pinnock escreveu sobre isso, dizendo: “Em face de tal visão da soberania determinística, como é que alguém poderia deixar de estar dentro da vontade de Deus? Aqui está o ponto central do conceito de Feinberg concernente ao mundo. A vontade de Deus é feita sempre. O milionário em seu castelo, o mendigo à sua porta, Deus decretou que a história decorresse desse jeito. Deus quis que acontecesse, seja o que for que esteja acontecendo. Seria irracional preocupar-se a respeito de qualquer fato, no universo calvinista. Simplesmente submeta-se à vontade determinística de Deus! Se Deus quiser salvá-lo, Ele certamente o fará, sem que você tenha de levantar um dedo para ajudá-lo. Se Ele quer que você seja pobre, é melhor você ir-se acostumando, porque você não poderá mudar nada. Alfredo não precisa preocupar-se com a moralidade de sua fortuna, uma vez que a realidade da responsabilidade moral voou pela janela fora. Maria não precisa alimentar dúvidas, porque tudo quanto vem acontecendo foi planejado para acontecer mesmo” [17]

Ocorre que, biblicamente, a vontade de Deus nem sempre é feita. Se a vontade de Deus fosse feita  sempre, teria sido inútil Jesus pedir para orarmos assim: “Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mateus 6:10)

Por que deveríamos orar para que a vontade de Deus seja feita na terra assim como ela é feita no Céu, se a vontade de Deus é sempre feita de qualquer jeito? Se a vontade de Deus fosse feita sempre, estaríamos simplesmente desperdiçando tempo de oração, que poderíamos estar investindo em outra coisa. A razão pela qual Jesus orou para que a vontade de Deus fosse feita é porque a vontade de Deus nem sempre é feita. É por isso que João diz:

O mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1ª João 2: 17)

João traça um contraste entre o mundo e o cristão, e deixa implícito que somente o cristão é que faz a vontade de Deus, já que todos concordam que só ele “permanece para sempre”. O próprio Senhor Jesus deixou claro que a vontade de Deus não é feita sempre, quando disse que alguém tem que decidir fazer a vontade de Deus: “Se alguém decidir fazer a vontade de Deus descobrirá se o meu ensino vem de Deus ou se falo por mim mesmo” (João 7:17).

Nem todos descobriram que o ensino de Cristo vinha de Deus, porque nem todos decidiram fazer a vontade de Deus. Jesus também disse que “quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12:50), porém todos concordam que nem todo mundo faz parte da família espiritual de Cristo, porque nem todos fazem a vontade do Pai que está nos céus. É somente aquele que faz a vontade de Deus que será salvo: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mateus 7:21).

Ele também contou uma parábola em que somente um dos filhos fez a vontade do pai: “Havia um homem que tinha dois filhos. Chegando ao primeiro, disse: ‘Filho, vá trabalhar hoje na vinha’. E este respondeu: ‘Não quero!’ Mas depois mudou de idéia e foi. O pai chegou ao outro filho e disse a mesma coisa. Ele respondeu: ‘Sim, senhor!’ Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? ‘O primeiro’, responderam eles. Jesus lhes disse: ‘Digo-lhes a verdade: Os publicanos e as prostitutas estão entrando antes de vocês no Reino de Deus” (Mateus 21:28-31)

Para os calvinistas, os dois filhos teriam feito a vontade do pai, porque o que o Pai decreta o filho apenas obedece. Se Deus decretou que alguém iria aceitar o chamado divino, ele está fazendo a vontade de Deus, e se ele decretou que outra pessoa não iria aceitar o mesmo chamado, essa pessoa também está cumprindo a vontade de Deus, que determinou isso de forma incondicional e irrevogável. Então, qualquer coisa que aconteça no mundo, é a vontade de Deus expressa no decreto que está se cumprindo. Simplesmente não faz sentido dizer que a vontade de Deus não é feita por alguém, se Deus decretou tudo e ele decreta de acordo com a vontade dele.

A única forma de conciliar tais dados bíblicos com o determinismo seria inventando “duas vontades” em Deus. Uma vontade moral onde ele deseja coisas boas, e outra vontade decretiva onde ele decreta coisas más, de modo que alguém pode estar cumprindo a vontade decretiva, mas não a vontade moral. Mas que razão ou cabimento há em Deus decretar algo que ele não deseja, ou que não é moral? Duas vontades conflitantes em Deus é algo impossível à luz do testemunho bíblico de que Deus “não muda como sombras inconstantes” (Tg 1:17).

Além disso, como Deus poderia ter uma vontade diferente daquilo que ele decreta? Se Deus decretou, não há como mudar esse decreto. O que ele decretou vai acontecer e pronto. Então, simplesmente não há razão para desejar algo diferente do que foi decretado na vida de uma pessoa, se é impossível agir diferente do decreto. É o mesmo que eu ordenar que alguém se jogue de um precipício e morra, e depois dizer que ele não cumpriu a minha vontade.

Há também textos onde o homem resiste a Deus. Em Isaías, por exemplo, Deus diz: “Quando eu vim, por que não encontrei ninguém? Quando eu chamei, por que ninguém respondeu? Será que meu braço era curto demais para resgatá-los? Será que me falta a força para redimi-los? Com uma simples repreensão eu seco o mar, transformo rios em deserto; seus peixes apodrecem por falta de água e morrem de sede” (Isaías 50:2)

Se tudo é decretado por Deus, por que ele não decretou que os israelitas responderiam ao chamado dele e que seriam redimidos? O texto deixa claro que Deus procurou, mas não encontrou ninguém. Para os deterministas, foi o próprio Deus que determinou que ninguém responderia, e ele que decretou que ninguém creria. Em outras palavras, Deus estaria reclamando com os israelitas por estarem obedecendo a um decreto imutável dele mesmo, contra o qual eles nada poderiam fazer em contrário.

Mas, que o texto não indica isso, é óbvio pelo fato de Deus estar dizendo que seu braço não era curto demais para resgatá-los, nem faltava-lhe  força para redimi-los. Ou seja: Deus estava disposto a resgatá-los, mas eles rejeitavam serem resgatados. Isso implica que nem tudo neste mundo é determinado por Deus, senão a própria rebelião dos israelitas teria sido decretada por ele e, consequentemente, seu chamado e sua disposição em salvar seriam falsos e fúteis.

Outro texto que já vimos é o de Jeremias 19:5, onde Deus diz: “Construíram nos montes os altares dedicados a Baal, para queimarem os seus filhos como holocaustos oferecidos a Baal, coisa que não ordenei, da qual nunca falei nem jamais me veio à mente” (Jeremias 19:5)

Deus não ordenou, não pensou nem falou nada daquilo, mas, para os calvinistas, aquilo havia ocorrido exatamente em cumprimento de um decreto dele mesmo. Deus teria decretado que os israelitas apostatariam da fé e queimariam seus filhos em sacrifício a um deus pagão, e depois teria dito que nunca ordenou uma coisa dessas, como uma típica escusa. É lógico que este texto indica que pelo menos este acontecimento não foi ordenado por Deus, e, sendo assim, Deus não poderia ter decretado tudo – sendo o fim do determinismo.

Algo semelhante Deus diz em Oseias: “Eles instituíram reis sem o meu consentimento; escolheram líderes sem a minha aprovação. Com prata e ouro fizeram ídolos para si, para a sua própria destruição” (Oseias 8:4).

Deus diz que os reis fizeram aquilo sem o consentimento dele, quando, na verdade, os calvinistas creem que eles fizeram aquilo justamente em cumprimento a um decreto dEle  mesmo. Deus decreta aquilo, determina, faz com que aconteça, e depois diz que não consente naquilo que ele mesmo ordenou! Como os líderes dos israelitas teriam sido escolhidos sem a aprovação de Deus, se, na verdade, foi o próprio Deus que determinou a escolha destes líderes antes da fundação do mundo, e os homens estavam apenas cumprindo uma determinação irresistível?

Neste caso, teríamos que concluir que Deus decreta algo e não consente nisso; que ele determina algo que não aprova. Um deus como esse nos deveria causar medo, pois seria tão instável quanto um ser humano, que faz coisas sem pensar e depois as repudia. Alguém que pergunta ao homem que pecou: “que é isto que fizeste?” (Gn 3:13), quando, na verdade, foi ele mesmo que decretou aquele pecado.

Finalmente, há também aqueles versículos que mostram o homem rejeitando o propósito ou plano de Deus na vida dele. Os “fariseus e os peritos na lei rejeitaram o propósito de Deus para eles, não sendo batizados por João” (Lc 7: 30), e Jesus chorou sobre Jerusalém (Lc.19:41), dizendo: “Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!” (Mt.23:37).

Como já vimos, estes textos implicam que o homem pode resistir ou rejeitar o plano de Deus na vida deles. Não era do plano nem da vontade de Deus que os fariseus e os peritos da lei não fossem batizados por João, mas eles não foram. Também não era da vontade de Jesus que os judeus rejeitassem os profetas e abandonassem a Deus, mas eles abandonaram. Jesus queria reuni-los, mas eles não quiseram. Ele quer o bem para todos, mas muitos o rejeitam e cavam o seu próprio abismo.

Diferente do determinismo calvinista, onde Deus traça planos terríveis para a vida das pessoas, incluindo uma série de pecados mortais que culminam na morte eterna, na Bíblia ele planeja sempre o nosso bem e deseja sempre o nosso melhor, mas somos nós que rejeitamos este plano e que assinamos nossa própria perdição. Deus permanece sempre justo e amoroso, “bom para com todos” (Sl 145:9). O homem é quem destroi tudo. O homem é o responsável.

O presente artigo está postado originalmente no CACP – Centro Apologético Cristão de Pesquisas. Extraído do livro “Calvinismo X Arminianismo: quem está com a razão” – cedido pela comunidade de arminianos do Facebook.

Disponível em http://www.cacp.org.br/existe-determinismo-na-biblia/

[1] Almeida Corrigida, Revisada e Fiel.

[2] Nova Versão Internacional.

[3] Disponível em: <https://sempredestinacao.wordpress.com/2013/11/10/escrito-e-determinado/>

[4] Mesmo que a tradução correta fosse a fornecida pelos calvinistas em suas versões mais modernas, isso ainda não provaria o determinismo calvinista, visto que isso que foi escrito poderia se referir aos atos livres do ser humano que Deus, por sua presciência, sabia que seriam praticados livremente, e não por um decreto à parte das ações humanas.

[5] FEINBERG, John Samuel. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora  Mundo Cristão: 1989, p. 55.

[6] Alvin Baker, citado em Vance, O Outro Lado do Calvinismo.

[7] REICHENBACH, Bruce. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora  Mundo Cristão: 1989, p. 73.

[8] Os problemas para o determinista que pretende usar este texto vão muito além disso, pois Efésios 1:11 não diz apenas que Deus faz tudo com um propósito, mas também de acordo com a vontade dele. Sendo assim, se Deus determina tudo e é isso o que Efésios 1:11 está dizendo, então tudo o que Deus determina ele determina porque essa foi a vontade dele para com todas as coisas. Consequentemente, todo o mal que há no mundo, todo pecado, todo morticínio, toda imoralidade e toda violência é da vontade de Deus, já que Deus determina tudo e de acordo com a vontade dele, e não contra a sua vontade. Algo que faria de Deus realmente um monstro moral.

[9] VANCE, Laurence M. O outro lado do calvinismo.

[10] GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e ‘contradições’ da Bíblia. São Paulo: Editora  Mundo Cristão, 1999.

[11] Dr. E. Lund, Hermenêutica: Regras de Interpretação das Sagradas Escrituras. Editora Vida, 1968.

[12] Charles Hodge, A Commentary on Romans (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1972), p. 316.

[13] O Novo Testamento usa menos hebraísmos porque foi escrito em grego, e não em hebraico. Por isso, Paulo disse aos coríntios que “não quero apenas vê-los e fazer uma visita de passagem; espero ficar algum tempo com vocês, se o Senhor permitir” (1 Co16:7), e não se o Senhor tiver determinado aquilo.

[14] Francois Wendel, Calvin: Origins and Development of His Religious Thought, trad. Philip Mairet (Grand Rapids: Baker Books, 1997), p. 360.

[15] Iremos dedicar um tópico neste capítulo para tratar melhor sobre o indeterminismo arminiano.

[16] FEINBERG, John Samuel. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora  Mundo Cristão: 1989, p. 48.

[17] PINNOCK, Clark H. Predestinação e Livre-Arbítrio: Quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana. Editora  Mundo Cristão: 1989, p. 80.

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