Escrito e determinado

Como é que uma pessoa pode ser moralmente responsável por suas ações, se estas forem determinadas mesmo antes dela nascer? Para que uma pessoa seja moralmente responsável, duas coisas precisam ser verdadeiras: Ela deve ser um agente livre, e deve ser um agente moral (isto é, um agente a quem se aplicam as normas morais). Porém, o que somos, robôs ou pessoas livres?

Afinal de contas, quem  é  que manda neste mundo,  Deus ou nós?  Se  Deus preordena nossas ações, de que maneira somos moralmente responsáveis por elas? Se  Deus determinou o que faremos, devemos fazê-lo? Deus deve ser responsabilizado moralmente pela existência do mal se Ele decretou todas as coisas?

Os questionamentos são infindáveis!

A fornalha da discussão vem sendo alimentada há séculos. Alguns asseguram que predestinação é fatalismo. Se tudo acontece por decreto eterno, fixo, imutável, somos marionetes, a história um dramalhão escrito, dirigido, encenado e inculcado por um diretor implacável! Outros acham que Deus elegeu alguns para a salvação em Cristo, reprovando os demais, ou, que resolveu soberanamente salvar alguns homens tornando-os filhos adotivos quando ainda eram filhos das trevas; teve misericórdia de algumas criaturas e deixou outras entregues à um destino de perdição que Ele mesmo havia traçado de antemão para eles.

Predestinação fatalista não seria arbitrariedade e parcialidade da parte de Deus que não faz acepção de pessoas? Porque Deus predestinaria alguns para a salvação e outros para a perdição, negando-lhes implacavelmente o direito de livre determinação? (Dt 10:17; Ez 18; Rom 2:11). É certo que muitos vão se perder, mas vão se perder porque já nasceram sem chances de salvação? Quem defende esse tipo de conceito pode estar tremendamente equivocado.

A doutrina da eleição, que tantas vezes tem sido interpretada em termos de um determinismo chamado predestinação dupla, na verdade se tornou um grande ensinamento missionário e evangelístico. É uma das excentricidades da exegese, e uma das distorções da doutrina crista. E pelo fato de a eleição de Israel, feita por Deus (Rom 9:1-29), ter sido interpretada de tal forma, tornou-se impossível harmonizá-la com a responsabilidade dos hebreus pelo seu fracasso (9:30 – 10:21). Em desespero, os oponentes calvinistas desperdiçam tempo, discursos e literatura, tentando harmonizar a derrocada de Israel com sua eleição incondicional, como também trabalham para harmonizar a responsabilidade humana com o destino traçado para cada criatura desde a fundação do mundo, doutrina esta que disseminaram durante séculos.

Vamos ao texto

Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda”, Salmo 139:14, 16.

Está ai uma das passagens mais citadas na tentativa de resguardar a doutrina da predestinação absoluta. O rei Davi está dizendo que Deus o viu enquanto estava sendo formado no ventre de sua mãe, e em seguida ele acrescenta: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda”.

A conclusão é a seguinte: “os nossos dias estão contados, determinados e escritos antes que nascemos”. O argumento, inicialmente, parece impressionante, mas há, de fato, uma série de fortes objeções contra ele. Mesmo se optarmos por tomar o assunto do que é “formado” e “escrito” neste versículo, em serem os dias de vida do salmista, não podemos exigir que o comprimento de sua vida fosse inalterável. A Escritura em outro lugar sugere que o que está escrito no livro do Senhor da vida pode ser alterado (Êx 32:33; Ap 3:5). O sucesso de Ezequias em mudar a mente de Deus em relação ao comprimento de sua vida apoia esta perspectiva (Isaías 38:1-5). Observamos como a reação de pessoas podem alterar os decretos de Deus à luz de novas circunstâncias ( Gên 22:12; Deut 8:2; 13:3; Jr 18:6 – 10). A noção de que o que Deus ordena é necessariamente imutável é estranho para a mente hebraica.

Na verdade, o Salmo 139 é uma bela expressão poética do envolvimento momento a momento pessoal de Deus em nossas vidas. Tão íntimo é o seu envolvimento que ele conhece nossos pensamentos antes que os pronunciemos (vs. 2-4). Sua presença amorosa nos rodeia a cada momento, onde quer que vamos (vs. 5-12). E ele está pessoalmente envolvido na formação de nossos corpos enquanto estávamos em gestação (vs. 13-16). O conhecimento de Deus em cuidar de nós é simplesmente insondável (vs. 17-18).

Muitos têm argumentado que o versículo 16 do capítulo implica que o futuro está, para cada ser humano, exaustivamente resolvido/determinado por Deus. Se o número exato de dias que viveremos está determinado na mente de Deus, argumentam eles, todo o futuro deve estar resolvido também. Assim, este versículo tem sido frequentemente citado em apoio à visão clássica do futuro.

Vamos agora para algumas traduções diferentes. A versão King James, por exemplo, diz, “Os teus olhos viram a minha substância ainda imperfeita, e no teu livro todos os meus membros foram escritos, que em continuação foram formadas, quando ainda não havia nem um deles”.

Para modernizar essa tradução um pouco, a KJV está dizendo: “Os teus olhos viram o meu corpo quando ele estava ainda informe. O Senhor gravou no seu livro todos as partes do meu corpo que eventualmente vieram a ser, o que foi feito antes de existirem”. (partes do corpo, como se formaram).

Outra versão, uma tradução judaica, mostra o verso como se segue, “Os teus olhos viram minhas pernas ainda informes… eles foram todos registrados em seu livro, no devido tempo eles foram formados, até o último deles, quando nem um havia”.

Também temos nossa versão, a corrigida e fiel, que atesta: “Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia”.

Assim, as traduções citadas deixam exposta a ideia do original hebraico, que nos permite perceber o que foi pré escrito no livro de Deus: a formação dos membros do seu corpo é que foram pré-gravadas no “livro” – isso se alguém ainda acha mesmo que devemos tomar esse tom poético literalmente.

Como mencionado acima, o tema dos versos 13 a 15 é a formação do corpo de Davi. De fato, na primeira estrofe do verso 16, quando se diz: “Seus olhos viram a minha substância ainda informe“, também diz respeito à consciência íntima que o Senhor tem do salmista, mesmo antes que ele esteja formado. Davi louva ao Senhor pelo cuidado que tem dele, enfatizando a soberania e amor de Deus que o acompanhava desde o útero de sua mãe.Uma interpretação deste versículo que continua na expressão poética do autor do cuidado notável que o Senhor tomou na formação de seu corpo parece mais adequada.

A última parte do versículo 16 não está tratando de predestinação, ou seja: Deus ter estabelecido de antemão o futuro de Davi com erros e acertos . Crer assim é violar o impulso restante do Salmo. Aqui, o salmista pode colocar-se diante do Senhor e orar pedindo a orientação de Deus em sua vida, não porque Deus sabe o que vai acontecer ou porque Deus predeterminou o que vai acontecer, mas porque Deus conhece o salmista, sabe tudo, sendo que nada sobre ele pode ficar oculto para Deus.

Deve-se observar cuidadosamente, insisto,  que estamos diante de uma poesia aqui. É, portanto, um erro tentar tirar conclusões sobre destino imutável, como se os dias do rei estivessem todos gravados num livro, sendo drasticamente impossível que houvesse alguma alteração. Não só isso, mas uma vez que há um trilhão de variáveis que afetam quanto tempo uma pessoa vive, incluindo as decisões livres de outras pessoas deve-se ter cautela ao interpretar o texto, evitando a visão determinista. E se Deus conhece o exato momento da nossa morte, logo, ele deve saber de antemão todo o resto, tendo determinado todos os nossos dias de antemão, com um pacote completo, incluindo doenças e tragédias. Ou seja, se este versículo realmente prova que Deus ordenou cada dia, de cada ser humano, desde o início, e Deus é infalivelmente correto em seu conhecimento de todos e de cada um destes dias, segue-se (logicamente) que nenhum dia sempre ocorre que não tenha sido concebido e orquestrado por Deus.

Não há consideração alguma para muitas pessoas, por exemplo, o quadro patético de fetos sendo formados nos ventres de suas respectivas mães, já com os defeitos congênitos autorizados e programados por Deus (?) desde a fundação do mundo. Essas pequenas e inocentes criaturas, totalmente inofensivas, vem ao mundo aos milhares agarradas umas nas outros – alguns sem cérebro, sem olhos, sem boca e etc., enfim, uma multidão com defeitos e aberrações diversas. Em suma, inexplicavelmente, e de maneira irritante, devemos, segundo muitos intérpretes, acreditar que desde o embrião até a tragédia do nascimento tudo foi conduzido pela vontade implacável de Deus.

É evidente que algo está errado com a interpretação calvinista do texto. Ou toda a raça humana tem estado sob uma fascinante falsa impressão de que nós realmente escolhemos o que fazemos ou essa ideia de predestinação fatalista decretada de antemão é uma deslavada mentira.

Outra coisa que muitos não consideram é que o contexto oferece apenas uma reflexão poética sobre a visão do autor da soberania de Deus. Davi não está aqui fazendo um tratado teológico exaustivo sobre destino traçado de antemão. É claro que o poeta neste momento sente que sua vida está completamente sob o controle de Deus, mas é um grande passo partir deste sentimento poético para uma doutrina que coloca a responsabilidade de cada ação do ser humano sob responsabilidade de Deus. Além do mais, o uso de expressões hiperbólicas no salmo, que era um legado comum da poesia semita, deve advertir-nos contra nossa confiança no contexto para tentar resolver controvérsias doutrinárias sobre predestinação. O ponto dessa passagem é a de expressar poeticamente o cuidado de Deus para o salmista desde a sua concepção, e não resolver disputas metafísicas sobre a realidade do futuro. O rei esta sendo perscrutado, observado e guardado por Deus.

SENHOR, tu me sondaste, e me conheces. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó Senhor, tudo conheces. Tu me cercaste por detrás e por diante, e puseste sobre mim a tua mão. Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir. Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face?” vv 1-7.

Agora, acompanhe as hipérboles usadas pelo salmista: “Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar…”, vv 8,9. O salmista jamais poderia fazer sua cama no inferno, como também não poderia tomar as asas da alva e muito menos poderia habitar nas extremidades do mar.

Observe o verso 13: “Pois possuíste os meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe”. O salmista continua se expressando de forma poética louvando o cuidado de Deus com sua vida. Não se pode interpretar literalmente que Deus possuiu os rins de Davi, como não podemos literalizar as palavras do rei nos versos que falam sobre escrever “todos os seus dias num livro quando nem um deles ainda havia”.

Fico me perguntando como pode ainda existir pessoas que crêem piamente que Deus tem um livro no céu onde ele já escreveu os dias – cada um deles – de cada ser humano que habita na face da terra ( hoje são sete bilhões, sem contar os que já morreram), desde o dia do seu nascimento até sua morte, determinando como cada um deve viver, como falar cada dia, como entrar e sair, como gesticular, como comer e beber e como pecar e ser bom, como matar, roubar e destruir. Não faz sentido algum condenar à perdição aqueles que não obedecem seus mandamentos, pois se acreditamos que Deus já os programou de antemão, então eles não merecem responder por seus atos.

Por outro lado, não poderia haver mesmo coerência alguma estabelecer que antes do homem cair no pecado contra a vontade de Deus esse mesmo Deus já ter determinado para Davi que ele se comportasse mau em várias etapas da sua vida. Como conciliar que Deus já determinou desde a eternidade que o rei Davi sujaria suas mãos com sangue inocente se o ato de Adão e Eva foi chamado de transgressão? Em outras palavras: Se Deus determinou desde antes da fundação do mundo o mau na vida de Davi, devemos entender que ele também programou a queda de nossos primeiro pais, como também determinou todas as tragédias que ocorrem no mundo inteiro.

… Isto não faz sentido algum… Deus não pode ser ridicularizado dessa forma.

Há pessoas que não se constrangem em acusar a Deus pelos males que acontecem. Ao longo das Escrituras encontramos inúmeros incidentes em que pessoas, fazendo uso do seu livre-arbítrio, afastaram-se do plano de Deus, e acabaram tendo que suportar as desastrosas conseqüências de suas próprias ações. Foi assim que o pecado entrou no mundo (Gn 3), a despeito das advertências divinas para evitar esse mal (Gn 2:15-17). Foi também assim que muitos idólatras israelitas acabaram perdendo a vida (Êx 32), em decorrência de sua atrevida desobediência às leis divinas (Êx 20:1-6). E será pela obstinada recusa de aceitar o convite divino à salvação que muitos se perderão, apesar da vontade de Deus ser que “nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (Pe 3:9). O princípio da escolha e de suas conseqüências é claramente enunciado nas palavras “aquilo que o homem semear, isso também ceifará”. (Gl 6:7).

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5 comentários sobre “Escrito e determinado

  1. Olá,

    O problema é tentar separar as duas coisas; A Total soberania de Deus e a total responsabilidade humana por seus atos.Essas duas coisas coexistem ao mesmo tempo, de uma forma que não podemos compreender, veja o que diz o próprio salmo 139:6 Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir.

    Tem outras coisas como essa na Bíblia: 1 – Jesus é Deus ou Homem? a resposta é as duas naturezas ao mesmo tempo e não temos como explicar racionalmente isso, E a trindade? Não são 3 Deuses, mas um só que coexiste em 3 pessoas, como explicar?

    Sempre que alguém tenta separar duas realidades aparentemente paradoxais, que coexistem, mesmo que não possamos compreender, cria-se heresias, como as que dizem que Jesus não é Deus ou negam a trindade ou como no caso, negam que tudo está como escrito no Salmo 139, pré-determinado do ponto de vista de Deus.
    A Bíblia tem alguns exemplos da coexistência da Total Soberania de Deus com a total responsabilidade dos atos humanos: A Vida de José por exemplo, seu pai errou por dar preferência por um filho em detrimento dos outros, José errou ao não ter sensibilidade para guardar para si o fato de que ele seria maior que seus irmãos, seus irmão erraram ao vendê-lo como escravo, a esposa de Potifar errou, o colega de prisão errou se esquecendo dele, mas no final da história, José conforta seus irmão dizendo que Deus havia planejado tudo desde o início com um propósito.

    Outro exemplo, quando Acã pecou escondendo parte dos despojos da vitória sobre Jericó e Josué “lançou sortes” para descobrir quem havia pecado. Não sei exatamente como foi esse sorteio, mas imagine que foi algo semelhante a um sorteio de amigo secreto, onde a pessoa que vai pegar a pedrinha ou papelzinho é totalmente livre para escolher a pedra que vai pegar, seja lá quem foi que pegou a pedrinha em um saco ou caixa com 12 pedras, pegou a que ele escolheu de livre e inteira vontade, pegou a pedra de Judá e da mesma maneira na sequência outros 3 sorteios até chegar a Acã. Ao mesmo tempo quem fez o sorteio foi livre e responsável por suas escolhas e a soberania Total de Deus se manifestou.

    Não podemos simplesmente rasgar da Bíblia versículos como o Salmo 139 ou tantos outros que falam sobre pré-determinação, nem tampouco rasgar os versículos que falam da responsabilidade do homem por suas escolhas, essas duas realidades coexistem de uma maneira que tal conhecimento ou ciência é para mim tão alto que não posso atingir.

  2. Se realmente nós somos salvos pelas nossas escolhas onde está a graça que Paulo disse:”não depende de quem quer mas de Deus que se compadece?” Então nós somos só 99% dependente de Deus e não 100%. Quando eu chegar no céu eu vou mudar o meu discurso e vou dizer: “obrigado Deus porquê eu escolhi ser salvo.”

    Na verdade nós somos responsáveis porquê somos salvos e não para sermos salvos. Porquê se não viraria mérito e não graça. E se Deus realmente muda o que ele escreveu então ele não sabe escrever e isso não é verdade porque Deus sabe de todas as coisas ou então ele não é soberano. Jó 14:5 diz que os dias do homem estão determinados. Então vamos para a lógica humana:”se Deus tem seu projeto, e mesmo assim fica esperando a vontade humana para realizar seus planos, tem que ficar esperando a boa vontade do homem – não tem lógica.”

    1. Ezequiel Costa, presumo que tenha feito uma leitura rápida do artigo. Dê uma olhada também nos seguintes artigos: “Deus é quem efetua em vós”, “Vasos de ira e vasos de Misericórdia” e “Não depende de quem quer”.

      Fica na paz de Deus

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