Vasos de ira e vasos de misericórdia

E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição;  para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou”, Rom 9:22,23

O calvinismo radical aplicou a predestinação dupla ao texto, e saiu-se com a ideia de que um vaso fora feito para a salvação e o outro para a condenação. Esta ideia foi levada ao extremo pelos Batistas Predestinados das Duas Sementes no Espírito (havia um grupo com esse nome) que ensinavam que o destino do homem era predeterminado.

A vontade soberana de Deus em relação aos vasos de misericórdia é uma eterna preparação para a glória. Pode-se interpretar igualmente que os vasos de ira são predestinados para a destruição? Os vasos de ira são os desobedientes, com quem Deus está justamente irado e sobre quem desce o castigo por causa do pecado. Foram eles também de antemão preparados para a perdição eterna? Note-se em primeiro lugar que os dois verbos são diferentes. Diz-se dos vasos de misericórdia que são preparados de antemão, gr. proetoimasem , ao passo que os vasos de ira são adaptados, apropriados, gr.katertismena; lit. tornar «adequados» ou «completos», com o particípio perfeito dando o sentido de «equipados».

A expressão “vasos da ira” refere-se àqueles que, pela prática do pecado, estão se preparando para a sua destruição eterna. O verbo katertismena aponta a responsabilidade dos objetos da ira de Deus revelando que eles são os responsáveis. O indivíduo torna-se um vaso da ira através dos seus próprios atos pecaminosos e da sua própria rebelião contra Deus, conforme Paulo já declarara: “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti” (2.5). Não se declara que Deus é o agente dessa adaptação. A condição se declara apenas como fato histórico. Daí vem que alguns preferiram a tradução «apropriados para a destruição», que não é a tradução correta. Note-se em Romanos 9:22 que  Deus suportou… os vasos de ira. Estes vasos são os objetos, não os instrumentos da ira de Deus (cf. Jer 50: 25). Ele não os fez para a perdição, como muitos supõem que Paulo esteja falando. Paciência, em Romanos 9:22, pode ser traduzida por longanimidade de Deus que aguarda o arrependimento dos vasos de ira. Longanimidade é a virtude divina de suportar a maldade e aguardar o arrependimento de seus ofensores.  Se Deus aguarda arrependimento destes, significa que eles não foram determinados perdidos deste a fundação do mundo. Assim, Deus demonstra sua ira e poder pela sua tolerância paciente dos vasos de ira. Tolerância paciente não faz de um indivíduo um mero vaso (ou vaso de ira). Paciência é uma qualidade muito pessoal. Os vasos de ira desprezam “as riquezas de sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus… conduz ao arrependimento”, e, ao fazê-lo, o “coração impenitente” entesoura ira para “o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus”( Rom.2:4,5; cf. II Ped.3:9).

O Apóstolo quer dizer que Deus pacientemente suportou os vasos de ira, que se haviam preparado para a destruição. O mistério da predestinação deve ser mantido, todavia não parece haver aqui nenhum apoio para se dogmatizar acerca da predestinação para a condenação. Parece claro da linguagem e do pensamento de Paulo que, enquanto no caso dos vasos de misericórdia a ação de Deus consistiu em “preparar de antemão”,  no caso dos vasos de ira Ele não empreendeu nenhuma ação, mas «suportou com muita longanimidade».

Finalmente em Romanos 9:31 e ss., há uma declaração de Paulo no sentido que a reprovação divina, se escuda em razões tanto divinas quanto humanas. Começando por este ponto, e chegando até o fim do décimo capítulo, Paulo apresenta o lado humano da questão. Os homens foram convocados a se arrependerem – não quiseram fazê-lo e foram endurecidos por seus próprios pecados; Deus os convocou, mas eles não corresponderam. Daí tornaram-se merecedores do juízo. Assim, parece que Paulo acaba por abandonar seu argumento da “predestinação fatalista”. O trecho de Romanos 9:30 – 10:21, ensina-nos que a vontade e o agir humano entram em cena na questão da vida eterna.

Um uso posterior nos escritos paulinos aponta a responsabilidade humana quanto ao tipo de vaso em que a pessoa se torna. “Ora, numa grande casa, não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro; e uns, na verdade, para uso honroso, outros, porém, para uso desonroso”(II Tim. 2:20). Mas a coisa importante que deve ser notada é que a pessoa pode purificar-se por consagração do “Senhor da casa” (II Tim.2:21).

Tenho aqui algo interessante a  perguntar: Se Deus – segundo os mensageiros da predestinação fatalista – é absolutamente livre para eleger ( e conduzir?) o indivíduo no sentido de ser melhor ou pior, que é da responsabilidade humana?

Ora, visto como ninguém pode resistir a essa vontade divina onipotente – segundo eles – devemos  supor que  Deus seria o responsável pelos erros daquele que está condenado ao inferno desde a fundação do mundo. Portanto, temos que concluir que o seu pecado deixa de ser voluntário (?!). Sendo assim, pergunto: esse pecador, coagido e implacavelmente programado por Deus, mereceria o castigo?

Livremos Deus de tão ridícula situação!

Anúncios

6 comentários sobre “Vasos de ira e vasos de misericórdia

  1. A condenaçao é livre arbitrio. A Salvaçao nao! Pq se fosse, ninguem e salvaria. Nao ha um justo se quer, NAO HA QUEM BUSQUE A DEUS (sozinho)!

  2. Muito bom. Estava em dúvida quanto a essa questão, mas sabia que Paulo não poderia estar falando de modo fatalista. A arquitetura global da Bíblia não permite, pois a vontade de Deus é que todos sejam salvos e a salvação é para todos. É muito bom não lermos a Bíblia a partir de calvino, mas de Jesus. Obrigado pelo esclarecimento!!!

  3. Mas seja lá que argumentos ou verbos usem, o Deus onisciente sabia exatamente quem iria ou não para o inferno, sob pena de não ser onisciente. Sabia inclusive o tamanho da bagunça que aconteceria no mundo quando criou o anjo que depois se tornaria satanás.

    1. Você esta tremendamente equivocado, amigo Marlim. Deus saber não faz dele o causador dos fatos. Por outro lado, quem vai para o inferno não é o José, que mora na casa b, rua 45, mas “Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira“, Ap 22:15. Essa uma lista pequena, mas você pode encontrar uma lista mais ampla em outras passagens das Escrituras. Esses são os que não tem seus nomes escritos no Livro da vida do Cordeiro que foi morto desde antes da fundação do mundo. Não há predestinação para a perdição. As pessoas se perdem porque rejeitam o plano de Deus: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!”, Mateus 23:37.

      Observe as expressões “quantas vezes e “não quiseste”. Eles deveriam agir a favor de Deus na chamada, mas não quiseram. O rejeitaram muitas vezes. ELES NÃO ESTAVAM PREDESTINADOS A ISSO!

      Fica na paz

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s