O dano da predestinação fatalista

CapturerrrrrrrOs prejuízos que essa linha doutrinária causou no Cristianismo, em muitas congregações e em milhões de famílias, foram irreversíveis. São vários os pontos negativos que vou abordar aqui, começando pelo principal: “O dano da predestinação fatalista Isenta-nos da responsabilidade pelo que fazemos“. Por que?   Ora, se Deus predestinou alguns para serem salvos e outros não, temos que concluir que todos foram programados para serem bons e maus. Logicamente falando, se a “livre-escolha” está fazendo o que não podemos evitar, porque por natureza simplesmente fazemos esse tipo de  coisa, porque deveríamos assumir a responsabilidade por nossas ações? Se não “foi o Diabo que me fez fazê-las”, certamente “foi Deus”. Por isso o calvinismo extremado conduz logicamente (se não na prática) à irresponsabilidade pessoal: se nossas ações são boas, são porque Deus as programou para que as fizéssemos boas; se forem más, a culpa não é nossa, porque somos pecadores por natureza e Deus não nos deu o desejo de fazer o bem.

Além disso, se não sou realmente a causa de minhas ações, por que deveria assumir a responsabilidade por elas? Por que deveria ter o crédito ou a culpa? Afinal de contas, o calvinista extremado crê que dever  não implica poder. A responsabilidade não implica capacidade de responder. Mas, se isso é assim, por que deveria me sentir responsável? Por que deveria me preocupar quando está completamente fora do meu controle um caminho ou outro?

Mesmo os calvinistas mais radicais têm reconhecido o extremo para o qual os hipercalvinistas seguem na doutrina da soberania divina. Existe uma confissão calvinista de 1686, à qual os  hipercalvinistas jamais renunciaram, mas revestiram-na com uma cobertura tão confusa e nociva à fé cristã, que devorou a vida das igrejas e do evangelho como era pregado por muitos ministros. A verdade é que, a soberania divina foi mantida e ensinada, não em proporções exageradas mas com a exclusão prática da responsabilidade moral.

Ouça a voz de um calvinista apaixonado, mas menos extremado, Charles H. Spurgeon, falando contra alguns hipercalvinistas: “Meu coração sangra por muitas famílias onde a doutrina antinomiana ganhou espaço. Eu poderia contar histórias tristes de famílias mortas em pecado, cujas consciências estão cauterizadas como por ferro quente, por pregação fatal que elas ouvem”. E acrescenta: “Eu tenho visto convicções sufocadas e desejos apagados pelo sistema destruidor de almas que lhes rouba a dignidade tornando-os não mais responsáveis do que um boi

Leva-nos a culpar Deus pelo mal 

O calvinismo extremado não somente tende a minar a responsabilidade pessoal, mas também, logicamente, põe incorretamente a culpa em Deus pela origem do mal. Insinuam, mesmo que indiretamente, que foi Deus quem predestinou muitos para a perdição enviando-os, como um condutor implacável, para as profundezas do inferno. Isso é uma tragédia causada pela pregação de homens destituídos de conhecimento e amor pelos perdidos. Na verdade, não há nenhuma diferença real nesse assunto entre os calvinistas extremados e os muçulmanos fatalistas, segundo os quais Deus, no livro sagrado dos muçulmanos, o Alcorão, teria afirmado: “Se quiséssemos [plural de majestade], poríamos todas as almas no caminho da retidão. Mas, digo-o em verdade, encherei o inferno de djins [gênios] e de humanos” (Surata 32.13). O famoso poeta persa Omar Khayyam o disse assim:

Tudo é um tabuleiro de xadrez com dias e noites

Em que o destino joga com os homens pelas peças;

Para cá e para lá, toma e põe em cheque,

E uma por uma as devolve à caixa.

Para que o leitor não pense que esta é uma caricatura injusta do calvinismo extremado com termos islâmicos, ouça as palavras do famoso calvinista extremado William Ames: “A predestinação não depende de causa, razão ou qualquer condição externa, mas procede puramente da vontade dele [Deus] que predestina”. Ademais, “há duas espécies de predestinação, eleição e rejeição ou reprovação. […] O primeiro ato de eleição é querer mostrar a glória da sua graça na salvação de algumas pessoas”. Da mesma forma, “a reprovação é a predestinação de certas pessoas de forma que a glória da justiça de Deus possa ser mostrada a neles”.

É verdade que alguns calvinistas rejeitam essa “predestinação dupla” em favor da ideia de Deus simplesmente “passar por alto” pelo não-eleito, mas mesmo eles têm de admitir que o resultado é o mesmo: visto que Deus não lhes deu o desejo de serem salvos, “eles são condenados à miséria eterna”, conclui o calvinismo extremado. Permanece a questão da razão pela qual Deus não deu o desejo de ser salvo a todas as pessoas que cresceram nessa tradição, e a questão é: “Que diferença isso faz? Se eu não sou um dos eleitos, não há nada que possa fazer a esse respeito”. No mínimo, alguém dizer essas coisas pode causar um efeito devastador a própria salvação. E que dizer, então, do seu entusiasmo para alcançar outros para Cristo!

Mina a confiança no amor de Deus

Deus ama somente os eleitos! É isso que se encaixa na crença da expiação limitada dos calvinistas extremados. Pois se Deus ama somente os eleitos, por que deveria Cristo ter morrido por mais gente além dos eleitos?

Todavia, qualquer diminuição do amor de Deus cedo ou tarde minará a confiança da pessoa na benevolência de Deus. E quando isso acontece, pode ter efeito devastador na vida dela. Aliás, essa tem sido a causa para a descrença e mesmo o ateísmo de muitos.

Um Deus que ama parcialmente é menos do que um Deus supremamente bom. E aquilo que é menos do que supremamente bom não é digno de adoração, visto que adorar é atribuir dignidade ao objeto adorado. Mas se a ideia que os calvinistas extremados fazem de “Deus” não é o Bem Supremo, ela não representa Deus de forma alguma. O Deus da Bíblia é infinitamente amoroso, isto é, todo-benevolente. Ele deseja o bem de toda a criação (At 14.17; 17.25) e a salvação de todas as almas (Ez 18.23, 30.32; Os 11.1-5,8,9; Jo 3.16; 1 Tm 2.4; 2 Pe 3.9).

A primeira vista, a pessoa fica impressionada com um Deus que supostamente a ama mais do que a outros e a escolheu para a salvação eterna. Mas depois de alguma reflexão, escapa à pergunta: Se ele é todo-amoroso, por que não ama o mundo todo? Quando esse pensamento surge, “a graça maravilhosa” experimentada, a princípio, pelo eleito, se torna num “amor parcial” e, finalmente, leva ao reconhecimento de que Deus na verdade odeia o não-eleito. Ouça as palavras de um calvinista extremado: “Em Romanos 9.13 diz que Deus odeia os não-eleitos. Esse ódio é de negação ou de privação, porque nega a eleição, mas tem um conteúdo positivo, porque Deus deseja que alguns não possuam a vida eterna”.

Mina a motivação para a evangelização 

Muitos anos atrás, um jovem foi ao seu mentor espiritual e o informou que gostaria de ser um missionário aos pagãos. Seu conselheiro hipercalvinista lhe disse que, se Deus quisesse salvar o mundo, poderia fazê-lo sem ele. Felizmente, o jovem não deu ouvidos ao conselho do seu mentor. Seu nome era William Carey, famoso Missionário na Índia.

Somente Deus sabe com certeza quantos outros calvinistas extremados sentem o mesmo. O fato é que, se o pensamento deles é correto, não precisamos ficar cheios de expectativa a respeito do trabalho missionário, por diversas razões. A primeira é que Deus não ama o mundo todo num sentido redentor, mas somente aos eleitos. Em segundo lugar, Cristo morreu somente pelos eleitos, não pelo mundo todo. Em terceiro lugar, ninguém tem fé para ser salvo a menos que Deus conceda essa fé. Em quarto lugar, Deus deseja dar fé somente a uns poucos selecionados, os escolhidos que não podem ser substituídos. Em quinto lugar, quando o poder de Deus opera no coração dos incrédulos que ele quer salvar, não há nada que possam fazer para recusá-lo. O poder de Deus é irresistível. Se tudo isso fosse verdadeiro – graças a Deus que não é – seria compreensivelmente difícil reunir muito entusiasmo pela evangelização local ou transcultural.

Charles Spurgeon observou com perspicácia a respeito dos hipercalvinistas de seu tempo: “Há algumas pessoas tão egoístas que, certos de que vão para o céu,  basta-lhes que eles próprios estejam no pacto. Eles são o povo de Deus que lhe é querido…”. Mas “para eles, não importa se Deus ordena pessoas para a vida ou para a morte. Ficam olhando pessoas serem condenadas. Parecem não ter nenhum sentimento por outra pessoa além delas mesmas. Secaram seu coração num passe de mágica”.

John Gill, que, de acordo com alguns, foi quem deu origem ao hipercalvinismo, é um exemplo prático da influência destrutiva sobre a obra de evangelização. Spurgeon observou que “durante o pastorado do meu venerável predecessor, dr. Gill, essa igreja, em vez de aumentar, gradualmente diminuiu. Mas, note isto, desde o dia em que Carey, Fuller, Sutcliffe e outros reuniram-se para enviar missionários à Índia, começou a rair um reavivamento cheio de graça, que ainda não terminou”. A respeito de Gill, Spurgeon acrescentou secamente: “O sistema de teologia, o qual muitos identificam com o seu nome, tem esfriado muitas igrejas até o mais profundo de sua alma, porque as leva a deixar de oferecer livremente o evangelho e a negar que é dever do pecador de crer em Jesus”.

Mina a motivação para a oração intercessória 

O calvinismo extremado não somente corrói a base da evangelização como também tende a destruir a percepção da necessidade da oração intercessória. Ao mesmo tempo em que a oração não pode mudar a natureza de Deus, pode ser usada por Deus para implementar sua vontade de mudar pessoas ou coisas. Josué orou e o sol parou (Js 10). Elias orou e os céus cerraram as comportas por três anos e meio (I Rs 17 – 18; Tg 5.17) Moisés orou e o julgamento de Deus foi suspenso (Nm 14). Conquanto a oração não seja um meio para ter a nossa vontade feita no céu, ela é um meio pelo qual Deus tem a sua vontade feita aqui na terra. Realmente há coisas que mudam porque oramos, porque um Deus soberano decidiu usar a oração como meio para o fim de concretizar essas coisas. Mas se Deus vai fazer essas coisas mesmo que não as peçamos, não há necessidade alguma de as pedirmos. O que cremos a respeito de como a soberania de Deus se relaciona com o livre arbítrio faz grande diferença em como – e quanto – oramos.

 

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