Não depende de quem quer

Romanos 9 verso 16 declara, “Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece”.

O raciocínio lógico imediatamente se antecipa e diz: “Está aí, Deus é quem age nas ações dos homens, e, independente de qualquer esforço que possam fazer para serem bons, Deus é quem decide suas atitudes finais”.

Na pior das hipóteses eu posso chamar isso de aberração infantil, expressa por uma mente calvinista ao extremo. Isso é gerado pela falta de atenção nos textos anteriores e os posteriores, o que chamamos de CONTEXTO. Foi dessa forma interpretativa que muitas heresias adentraram à nossa fé sem que percebêssemos, causando prejuízos irreparáveis em milhares de vidas.

O contexto anterior e posterior mostra alguns personagens da história do povo de Israel, onde observamos a interferência do poder divino – na escolha – quando se trata de Esaú e Jacó. E, em outro episódio bem conhecido quando a Escritura declara que Deus endureceu o coração de Faraó. Vou tratar aqui neste tópico sobre este ultimo, o rei do Egito, e em seguida vou fazer um comentário sobre outros textos paralelos relacionados a responsabilidade humana e a vontade de Deus.

O texto imediato diz o seguinte,

“Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, [Deus] compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer”, vv 17,18.

Alguns textos declaram enfaticamente: “o Senhor endureceu o coração de Faraó” (Êx 4:21, 7:3, 9:12, 10:1, 20, 27, 11:10, 14:4 e 8). Em contrapartida, diversos outras passagens afirmam que o próprio Faraó “endureceu o seu coração” (Êx 8:32, 9:34 e 35, 13:15). E há um terceiro grupo de textos que declaram simplesmente que “o coração de Faraó se endureceu” (Êx 7:13, 22, 8:19, 9:7).

Nesse episódio, Faraó, foi o instrumento de Deus para que este mostrasse seu poder diante do mundo egípcio. É evidente que Paulo está passando pela história da salvação de Israel, ao apelar para Moisés, depois de ter apelado para os patriarcas. O seu estilo ao dizer: Porque diz a Moisés… diz a Escritura a Faraó, equilibra o lado brilhante dos atos de Deus com o lado escuro. Contra o pano de fundo do episódio do Velho Testamento, todo o argumento magnifica a misericórdia de Deus mais do que a sua justiça (cf. 4:3-5).

As palavras da Escritura a Faraó apresenta o lado escuro. A Escritura é personificada por Deus, indicação da alta estima em que Paulo tinha o Velho Testamento. Deus havia levado o Faraó do Êxodo “para o palco da história, a fim de mostrar o seu poder e se fazer conhecido em toda a terra”. A Escritura é Êxodo 9:16. A resistência de Faraó a vontade de Deus foi a ocasião de Deus para (1) exibir o seu poder no acontecimento do Êxodo e (2) proclamar o seu nome em toda a terra. O efeito desse evento sobre outras nações é mencionado freqüentemente no Velho Testamento (Êx. 15:14,15; Jos. 11:10,11; I Sam.4:8). Da mesma forma como o verso 16 é a conclusão da palavra de Deus a Moisés, o verso 18 é a conclusão da sua palavra a Faraó.

Obviamente, quando a Escritura declara que Faraó endureceu seu coração, não deve significar que seu ato foi produzido por um arbitrário decreto divino de predestinação para a perdição, mas significa sim, que as escolhas anteriores de Faraó e sua rebeldia desenfreada é que causaram esse endurecimento.

Temos vários exemplos que poderíamos citar usando as leis naturais deste mundo para tentar explicar o que pode ter ocorrido com Faraó, mas vou apresentar apenas um. Sabemos que o mesmo sol que derrete a cera endurece o barro. Porém, fica patente que o sol não é o problema, mas sim a forma com que os dois elementos reagem ao calor: “um derrete enquanto o outro endurece”. Assim, de forma similar, podemos ter certeza que o problema de Faraó não era Deus, mas o próprio Faraó, que reagia às mensagens divinas de admoestação e arrependimento com ironia e dureza. Quando ele deveria se humilhar aos apelos divinos, mais ele resistia. Portanto, dessa forma é que podemos entender o contexto quando diz ter sido o Senhor  àquele quem causou o endurecimento do coração do rei egípcio. Entretanto, devemos também reconhecer que Faraó ultrapassou os limites da misericórdia divina até o ponto culminante dos juízos serem derramados, tendo como consequência a inevitável catástrofe, que foi  o aniquilamento final de Faraó e seu exército.

Não vemos no presente contexto qualquer insinuação de predestinação para a perdição ou salvação. A história não trata de  perdição eterna decretada de antemão.

Entretanto, se não depende de quem quer ou de quem corre, sugerindo que Deus seria o responsável por toda a minha carreira cristã, do começo ao fim, incluindo boas e más atitudes, fracassos e sucessos, sendo Ele o responsável por tudo, como poderíamos entender passagens como Colossenses 1.22,23 e II Timóteo 2.3,5?.

 Vou  abrir um espaço aqui para analisar somente o que Apóstolo tentou ensinar em II Timóteo 2.3,5:

“… igualmente o atleta não é coroado, se não lutar segundo as normas“. A expressão é uma alusão ao atletismo, geralmente usada por Paulo no bom sentido na luta do crente para alcançar o alvo (I Cor. 9:24,26; Fil. 2:16; 3:12). O sentido correto dos textos trata da carreira cristã do indivíduo, e não de sua entrada como membro no corpo de Cristo. A figura apresentada em Timóteo 2:5 é a de um atleta que precisa competir segundo as regras da disputa. Um servo do Senhor Jesus precisa ser fiel às exigências de sua vocação, fazendo da Palavra e da vontade de Deus o seu padrão em todas as coisas e circunstâncias. A imagem do atleta, aparentemente, enfatiza a necessidade de disciplina fiel. “Lutar Legitimamente” (em algumas traduções) pode significar: (1) de acordo com os regulamentos específicos do jogo em questão, ou, mais provavelmente, (2) de acordo com as regras que incluíam prescrições referentes ao treinamento preliminar. Nos jogos olímpicos, que tinham regras especialmente rígidas, cada competidor precisava jurar que havia treinado durante pelo menos dez meses antes dos jogos. O pensamento aplicado a esta recomendação é: para alcançar o prêmio, o crente precisa aceitar a responsabilidade da disciplina.

Agora, vamos trazer o verso em discussão (Rm 9.16)  para dentro do contexto da graça, e tentaremos mostrar que o Apóstolo Paulo não fez nenhuma referência aos predestinados à salvação e aos predestinados à perdição – ou seja, aqueles que já foram desde a eternidade implacavelmente preordenados por Deus para o céu ou para o inferno, como declara o calvinismo radical nas seguintes palavras: “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus que usa de misericórdia” .

Vamos colocar o versículo dentro do plano de salvação, pois acredito ser mais coerente fazendo assim. Ora, em se tratando da salvação, não dependeria mesmo “de quem quer ou de quem corre,” pois os indivíduos dependem de Deus. Em sendo Ele o autor e consumador da salvação, a justiça, não é por obras, mas por aquele que chama, excluindo destarte todo o mérito humano. Assim, ninguém é chamado por ser bom demais, e ninguém é rejeitado por ser demasiadamente mau. E nesse sentido devemos entender que nem o propósito e nem o esforço humano entram na eleição divina. É pela graça! Deus em Cristo salva o homem. E isso é dom de Deus, não vem de nós. Deus agiu sozinho em Cristo, em oferta por nossos pecados. Assim entendemos melhor o que Jesus quis dizer diante da murmuração dos judeus: “Ninguém pode vir a mim, a não ser que isto lhe seja dado pelo Pai” (Jo 6.44). Um pouco antes Ele havia dito ao inquiridor Nicodemos “Ninguém pode ver o reino de Deus, se não nascer de novo” (Jo 3.3).  Não é a minha maneira, nem a sua, e muito menos a dos judeus. Foi por isso que Jesus lhes deu este tipo de resposta. Assim não depende de quem quer e de quem corre mesmo.

Outra verdade é que, primeiro Deus vem ao encontro do homem através da pregação e depois cabe ao homem o arrepender-se através da fé (Atos 2:37,38). A responsabilidade humana não deve jamais ser negada aqui, apesar de todos não passarmos de pecadores,  a menos que Deus venha ao nosso encontro através de sua misericórdia soberana. E foi justamente isso que Ele fez; Deus apareceu no Calvário! O Deus «que usa de misericórdia» propôs a Cristo como propiciação por nossos pecados, através de nossa fé em seu sangue. Isso é um amor infinito, exibido quando o pecado humano estava em seu ponto máximo de culpa e iniquidade.

Portanto, esta  salvação não dependeria “de quem quer ou de quem corre”, quer seja bom ou mal. A fonte de salvação é declaradamente Deus, pois foi ele quem apresentou Cristo na Cruz nos salvando. Os que são coroados pela salvação são abençoados por causa da demonstração divina da misericórdia através de Cristo. É bem provável que Paulo tivesse em mente a impossibilidade de qualquer indivíduo merecer qualquer coisa aos olhos de Deus. Portanto, qualquer coisa que um homem recebe, de alguma forma se alicerça sobre a misericórdia e a graça de Deus.

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4 comentários sobre “Não depende de quem quer

  1. Não foi Calvino que escreveu a Bíblia; a Escritura é clara e repete inúmeras vezes que Deus tem misericórdia de quem quer e salva a quem bem lhe apraz. Olha para Isaías 45:7 e para o dilúvio, ou para a matança de Ezequiel 9, ou para Genesis 3:15 que o Pai determina: porei inimizade entre as duas descendências.

    Será se o Criador não tem livre escolha???

    1. A predestinação radical é incompatível com o amor e justiça divinos. Deus é pré-ciente e quando escolhe, conhece a liberdade de cada um. Por exemplo, quando escolheu Noé, sabia que ele seria obediente, pois Noé achou graça e obedeceu! Quando endurece a Faraó, sabia que ele não se humilharia, então seus decretos o endureceu ainda mais e sobre ele Deus mostrou o Seu poder. A liberdade e responsabilidade de cada um também determina, pela onisciência como Deus aplica sua justa recompensa. Vigiem em sua decisões e escolhas!!

  2. A fé é uma construção humana ou um DOM de Deus? É uma qualidade do ser?

    É sim uma qualidade do ser, pois que diferencia os que vão para o inferno e os que irão para o céu. A salvação estaria, desse modo, submissa ao mérito dos que entendem e constroem a sua fé. Não seria mais pela graça.

    Deus não comanda os nossos atos como se fossemos robôs, antes Ele tomou sobre si a consequência de nossos atos errados. Jesus riscou a cédula que era contra nós, cravo-a na cruz e nos libertou.

    O arrependimento não é moeda de troca, é a expressão que brota na vida do regenerado. A diligencia do cristão é resultado do amor que o constrange. Procura obedecer porque é amado e não obedece por medo ou para satisfazer uma deidade irada.

    1. Amigo, Paulo Romero, vou deixar para você um texto apenas

      Mateus 23:37, diz: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!

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