Aos que conheceu… predestinou

“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou”, Rom 8:29

Temos aqui alusão à «presciência de Deus». Esse conhecimento anterior não indica mera presciência acerca da fé ou da escolha humana. Os próprios crentes – o povo crente – é que são «conhecidos de antemão», e não a fé deles. O uso dessa expressão é similar àquilo que se lê em Amós 3:2, onde se diz: “De todas as famílias da terra somente a vós outros escolhi… “. Não há aqui, por conseguinte, qualquer pensamento acerca de uma fé prevista, exercida pelo livre-arbítrio humano, embora isso também seja uma verdade, mas não expressa na presente passagem. Antes, está em foco um povo «conhecido de antemão»

A ideia aqui transmitida para nós indica uma espécie de amor preordenado, de familiaridade anterior, de preocupação e interesse por muitas criaturas (a Igreja – veja Ef. 3:10,11), da parte de Deus. O trecho de I Pd. 1:2 pode ser similarmente interpretado, porque ali, por semelhante modo, não há qualquer declaração no sentido que Deus prevê aqueles que haveriam de crer, tendo escolhido os mesmos, embora muitos interpretes tenham forçado essa significação sobre este trecho petrino, por igual modo. Pedro lembra os leitores da sua posição privilegiada e segura como alvos da escolha soberana, graciosa e eterna de Deus para serem o seu povo em e através de Jesus Cristo. Inclui a escolha amorosa, eficaz de Deus, bem como o seu propósito (Rm 8.29).  Esse conhecimento anterior, portanto, é uma espécie de amor previamente determinado, a força que provoca a eleição para a salvação. É importante notarmos que o apóstolo Paulo não alude aqui a algum conhecimento anterior passivo ou vazio, com se isso quisesse dizer que Deus meramente viu de antemão que alguns seriam isto ou aquilo, fariam isto ou aquilo, ou creriam. O conhecimento prévio de Deus envolve um povo, e não a conduta dos mesmos; não importa «o que», e, sim a «quem» Ele conheceu de antemão. Está mais em vista o conhecimento amoroso ou «preocupação» de Deus. «Conhecer de antemão», portanto, pode referir-se ao propósito «interno» de Deus, que vem a ser externamente exercido em Sua eleição e predestinação divinas.

É provável que o conhecimento prévio que Deus tem de seu próprio povo indica a Sua peculiar e graciosa complacência neles, ao passo que a sua «predestinação» ou «preordenação» dos mesmos significa o seu «propósito» fixo que disso se deriva, de salvá-los e chama-los com santa vocação (ver II Tim 1:9).

Isso (a presciência) diz respeito ao amor eterno de Deus em favor de Seu próprio povo, o deleite que Ele sente neles a Sua aprovação a eles; nesse sentido é que Deus os conheceu, tendo-os conhecido de antemão, sentindo um infinito deleite e prazer neles; é esse o alicerce da predestinação e eleição deles, de sua conformação com Cristo, da sua chamada, justificação e glorificação. A predestinação se baseia no “conhecimento anterior” de Deus, no sentido que o Seu «amor eterno» e «preocupação e interesse» é que está em foco ( o que é a predestinação, conforme essa ideia é empregada aqui, não estando em foco a mera previsão ). Portanto,  Aqueles “sobre quem fixou Seu coração de antemão” são os que se tornaram alvos de seu decreto determinador –  o Seu povo, a Sua Igreja, que é o Seu corpo, a morada de Deus (cf Amós 3.2). Pode ter sido este  o plano traçado de antemão. Esse decreto determinador    não  é um mero pronunciamento judicial, mas, é sem dúvida acompanhado por um poder orientador e criador, através do Espírito Santo, para cumprir o propósito preordenador de Deus.

O grande alvo da predestinação é a chamada dos crentes dentro do   tempo, e o resultado de ambas as coisas é a transformação do crente segundo a imagem de Cristo. A predestinação ou conhecimento prévio, a primeira das quatro grandes idéias do verso 29, significa que Deus amou o homem antes que o homem amasse a Deus (cf. I  Jo 4:19). Muitos seguem a ideia de Orígenes, de que Deus predestinou com base no seu conhecimento antes que ocorram, mas tal racionalismo perde de vista toda a ideia de amor.

A premonição de Deus a respeito do homem antes que este conheça a Deus não torna a predestinação inevitável, como geralmente presume a tradição agostiniana calvinista. É estranho como se dá pouca atenção às claras palavras de advertência escritas por Paulo: “Outrora, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses; agora, porém, que já conheceis a Deus, ou melhor, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, os quais de novo quereis servir?” (Gál. 4:8,9).

O problema da predestinação nunca poderá ser resolvido, se se presumir que, sem exceção, os que são conhecidos por Deus estão predestinados para a glória. O monergismo sempre termina em predestinação dupla ou no universalismo. Se Deus faz tudo, Ele é responsável por tudo o que acontece; mas se o homem é responsável pela reação que tem, então o resultado da parte do homem é condicional. A predestinação condicional significa que o verdadeiro destino do homem é alcançado apenas onde há fé o tempo todo, até que se alcance o alvo. Este tipo de salvação é um caminhar, e não um salto, em que Deus sustém o homem pelos cabelos a qualquer custo! É uma comunhão e não fatalismo. O destino dos que permanecem em Cristo é o destino do próprio Cristo. Ele é o predestinado, e o crente é predestinado nele (cf, Atos 2:23: 4:28). As claras palavras de Paulo, aqui, devem ser colocadas no contexto da graça, mas não devem ser separadas da fé.

Deus “nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para Si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado” (Ef. 1:5,6). O homem não está em dificuldades porque é número seis, nem vai para o céu porque é número sete (jogo de palavras em inglês). Ele estará em dificuldades se não reagir de maneira positiva e permanente à graça de Deus, e terá a sua salvação concretizada se crê e continuar a crer em Cristo Jesus. Da mesma forma como alguém chega a Curitiba porque embarcou em um avião destinado a Curitiba, uma pessoa também chega a glória porque permanece em Cristo, que foi predestinado à glória. Predestinação significa que sabemos para onde estamos indo, antes de chegarmos lá.

Paulo não cai na incongruência dos fariseus , pois dificilmente ele usaria o termo destino. Os fariseus ensinavam que tudo depende do destino e de Deus; não obstante, a escolha do certo ou errado, em sua maior parte cabe ao indivíduo.

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