Afinal de contas de quem é a culpa?

gen007A verdade desagradável é que, mesmo tendo herdado a natureza pecaminosa (Ef 2.3), eu não tenho ninguém a quem culpar, senão a mim mesmo por causa de minhas ações morais. Isto está claro por  muitas razões. Isto não significa dizer que o pecado de Adão não tenha tido nenhum efeito sobre nós; ele teve (Rm 5.12). Somos nascidos no pecado (Sl 51.5). Somos nascidos com inclinação para o pecado. Contudo, a despeito dessa inclinação natural, somos pessoalmente responsáveis pelos pecados que cometemos. Esta é a diferença entre desejo e decisão. Deus considera as criaturas moralmente responsáveis por suas livres escolhas. De fato, a Bíblia é cheia de referências dando apoio a essa conclusão. Isso é verdade de Lúcifer (I Tm 3.6), de outros anjos que caíram (Jd 6.7), de Adão e Eva (I Tm 3.6) e de todos os seres humanos desde a queda (Rm 3.19). 

Contudo, o raciocínio sadio requer que não haja responsabilidade alguma onde não se tem a capacidade de corresponder. Não é racional sustentar que alguém seja responsável quando não tem a capacidade de corresponder. Deus não é irracional. O fato de Ele ser onisciente significa que Deus é o ser mais racional do universo. Por isso, a razão também exige que todas as criaturas morais sejam moralmente livres, isto é, que tenham a capacidade de responder de um modo ou de outro. Qualquer que seja o mal que façamos e pelo qual somos responsáveis, poderíamos ter agido de forma contrária à que agimos. Quando fizemos o mal, poderíamos não tê-lo feito. Isto é o que é entendido por uma ação “autocausada”. É uma ação que não foi causada por outra pessoa, mas pela própria pessoa. As ações morais más não somente poderiam, mas deveriam ter sido diferentes. O dever moral é algo que nós devemos fazer. As leis morais são prescritivas, não meramente descritivas. Elas prescrevem ações que devemos (ou não devemos) fazer.

Todavia, aqui, também, a lógica parece insistir em que tais obrigações morais impliquem que temos escolhas morais livres que são autodeterminadas. Porque devemos implica que podemos. Isto é, o que devemos fazer sugere que podemos fazer. De outra forma, temos que presumir que o legislador moral está prescrevendo o irracional, ordenando que façamos o que é obviamente impossível de ser feito. A boa razão parece insistir em que, se Deus exige que façamos, então temos a capacidade de fazer. A obrigação moral implica liberdade moral.

Recompensa e punição

Outra evidência de que temos livre-escolha moralmente autodeterminante é que a Bíblia e a sabedoria moral comum nos informam que louvor e acusação não fazem qualquer sentido a menos que os louvados e os acusados fossem livres para agir de forma contrária. Por que elogiar madre Tereza e difamar Hitler, se eles não poderiam evitar fazer o que fizeram?  Por que culpar Adolf Eichmann e louvar Martin Luther King, se eles não tiveram qualquer livre-escolha no que fizeram? Todavia, eles tiveram e nós temos. A Bíblia diz claramente que Deus “retribuirá a cada um conforme o seu procedimento” (Rm 2.6).

Do começo ao fim, a Bíblia afirma, tanto implícita como explicitamente, que os seres humanos possuem livre-escolha. Isso é verdade tanto antes como depois da queda de Adão, embora o livre-arbítrio tenha sido seguramente afetado pelo pecado e severamente limitado naquilo que pode fazer.

O livre-arbítrio antes da queda

O poder de livre-escolha é parte da humanidade criada à imagem de Deus (Gn 1.27). Adão e Eva receberam a ordem de: 1) Multiplicar a espécie (Gn 1.28) e 2) não comer do fruto proibido (Gn 2.16,17). Essas duas responsabilidades implicam capacidade de corresponder. Como foi observado acima, o fato de que deveriam obedecer a esses mandamentos implicou que poderiam obedecer a eles.

O último texto narra a escolha deles: “Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, […] tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido que comeu também” (Gn 3.6). A condenação de Deus que veio sobre eles torna evidente que eram livres. Deus perguntou: “Você comeu do fruto da árvore da qual lhe proibi comer?” (3.11). “ Que foi que você fez?” Respondeu a mulher: A serpente me enganou, e eu comi” (3.13).

As referências do Novo Testamento ao ato de Adão tornam claro que ele fez uma escolha livre pela qual se tornou responsável. Romanos 5 chama essa escolha “pecado” (v.16), “transgressão” (v.15) e “desobediência” (v.19). I Timóteo 2 se refere ao ato de Adão como “transgressão” (v.14). Todas essas descrições implicam que o ato de Adão foi moralmente livre e culpável.

O Livre Arbítrio após a queda

Mesmo após Adão ter pecado e se tornado espiritualmente “morto” (Gn 2.17: cf Ef 2.1) e pecador “por natureza” (Ef 2.3), ele não era depravado completamente a ponto de não poder ouvir a voz de Deus ou de dar uma resposta livre. Observe que imediatamente após a queda  “o Senhor Deus chamou o homem, perguntando: Onde está você? E ele respondeu: Ouvi teus passos no jardim e fiquei com medo, porque estava nu; por isso me escondi” (Gn 3.9,10). O diálogo é por demais interessante quando percebemos que Deus pergunta a ele,  “Quem te mostrou que estavas nu?”

Não podemos de forma alguma conjecturar do porque Deus questiona Adão se ele sabia onde ele estava e sabia quem os levou à queda. Mas, o importante, é que apesar da  imagem de Deus em Adão ter sido manchada pela queda, não foi apagada. Foi desfigurada, mas não destruída. Em outras palavras, a imagem de Deus (que inclui o livre-arbítrio) ainda está nos seres humanos após a queda. Esta é a razão de o assassínio (Gn 9.6) e mesmo a maldição (Tg 3.9) de outras pessoas serem consideradas pecados: “Porque à imagem de Deus foi criado o homem” (Gn 9.6).

Os descendentes caídos de Adão tem o livre-arbítrio 

Tanto a Escritura como o raciocínio saudável nos informam que os seres humanos têm o poder da livre-escolha. A Bíblia diz que o homem caído é ignorante, depravado e escravo do pecado. Mas todas essas condições envolvem uma escolha. Pedro fala da ignorância dos depravados como sendo “deliberada” (II Pd 3.5). Paulo declarou que as pessoas não salvas têm “claramente visto” e “compreendido” a verdade, mas deliberadamente a “suprimem” (ou “detêm”, Rm 1.18-20). Em resultado, eles são “indesculpáveis” . Mesmo a nossa escravidão ao pecado é resultado da livre-escolha. Paulo acrescenta: “Não sabem que, quando vocês se oferecem a alguém para lhe obedecer como escravos, tornam-se escravos daquele a quem obedecem: escravos do pecado que leva à morte, ou da obediência que leva a justiça?” (Rm 6.16). Mesmo a cegueira espiritual é o resultado da escolha de não crer. Porque “o deus desta era cegou o entendimento dos descrentes, para que não vejam a luz do evangelho…” ( 2 Co 4.4).

Com respeito ao início ou a obtenção da salvação deles, tanto Lutero quanto Calvino estavam certos em asseverar que os seres humanos caídos não são livres em relação às  “coisas celestiais”, isto é, a alcançar a própria salvação. Contudo, contrariamente ao calvinismo radical, em relação a liberdade de aceitar o dom da salvação de Deus, a Bíblia é clara: seres caídos são livres. Assim a livre-escolha dos seres humanos caídos é tanto “horizontal” (social) com respeito as coisas deste mundo quanto “vertical” (espiritual). A primeira é evidente na escolha de um companheiro : “Se o seu marido morrer, [a mulher] estará livre para se casar com quem quiser, contanto que ele pertença ao Senhor” (1 Co 7.39). Esta é uma liberdade descrita como sem coação, e onde alguém “tem controle sobre sua própria vontade” (1 Co 7.37). Essa mesma liberdade horizontal é descrita no ato de dar dos crentes da Macedônia, “por iniciativa própria” (2 Co 8.3), assim como Filemom foi “espontâneo” (Fm 14). A capacidade vertical de crer está implícita em todo lugar no chamado do Evangelho (cf At 16.31: 17.30). A liberdade para as criaturas de Deus, como ela é para Deus em cuja imagem foram criados, é descrita em Tiago 1.18: “Por sua decisão ele nos gerou pela palavra da verdade”.

Pedro descreve o significado de livre-escolha quando diz que ela “não [é] por obrigação”, mas “de livre vontade” (1 Pd 5.2), Paulo pintou a natureza da liberdade como um ato onde uma pessoa “determinou em seu coração” e “não [agiu]  com pesar ou por obrigação” (2 Co 9.7).

O livre arbítrio das criaturas

De acordo com a Bíblia, não foi apenas possível a Deus criar um mundo com agentes finitos, livres, importantes: Deus o fez exatamente assim. Torna-se isso aparente ao lermos duas asserções bíblicas, básicas, a respeito dos seres humanos: (1) são agentes históricos que podem achegar-se a Deus, em amor; e (2) são pecadores que deliberadamente rejeitaram o plano de Deus: Nenhuma destas duas declarações teria sentido se não postularmos a dádiva do livre-arbítrio, em seu sentido mais forte.

A Bíblia nos apresenta a criação dos seres humanos à imagem e semelhança de Deus, e fala deles como sendo agentes morais que deveriam exercer domínio sobre o mundo, e atender livremente as ordens de Deus (Gên 1:27,28; 2:15-17). São como Deus no sentido de refletir sua capacidade criadora, na capacidade de traçar planos e executá-las. Têm a capacidade de transformar o mundo, e a si próprios, e de agir conscientemente para a glória de Deus. Significa que é possível um relacionamento pessoal, a maior maravilha deste universo, entre estas criaturas e Seu Criador. O homem é capaz de achegar-se a Seu Criador, em amor, e celebrar uma comunhão com Deus. Esta aliança de comunhão, por sua própria natureza, não pode ser coagida, mas trata-se de algo celebrado voluntariamente por ambas as partes. À luz desta possibilidade, devemos concluir que o livre-arbítrio humano é algo significativo e real. A obediência em fé e amor não pode ser forçada. Embora a liberdade humana seja limitada e finita, quando comparada à liberdade de Deus, ainda assim é uma realidade preciosíssima. O futuro todo jaz aberto, diante de nós, e podemos decidir por nós mesmos se caminharemos ao lado de Deus.

O livre-arbítrio das criaturas não deixa de ter, evidentemente, seus limites e restrições. Nossa liberdade vai chegando gradualmente, tomando forma nos primeiros cinco anos de vida. Somos amoldados, em grande escala, por nossos pais, que tomam por nós a maior parte de nossas decisões, no começo. E prosseguimos, sendo afetados pelas demais pessoas, e afetando-as também. Podemos trancar-nos dentro de situações em que nosso livre-arbítrio fica sensivelmente diminuído, ou podemos tomar decisões que expandem a faixa de alcance de nossa liberdade. O passado exerce influência sobre nós, e somos levados por uma onda de história que não podemos controlar. Muitos fatores e variáveis determinam as decisões que tomamos. Assim sendo, o livre-arbítrio é, definitivamente, algo limitado e finito. Contudo, no final das contas, a maravilha resultante é que não somos um bloco de pedra trabalhado inteiramente por fatores externos. Somos agentes da história, podemos contribuir significativamente para a história, e fazê-lo para a glória de Deus.

Certamente é óbvia a razão porque Deus tomaria a arriscada decisão de criar seres como nós. É que alguns valores de grande importância só existiriam se Ele nos criasse assim. Qualidades tais como o amor e o heroísmo só podem existir se houver criaturas livres para assumi-las. Não haveria muito sentido numa pessoa que fosse programada para amar, e não pudesse deixar de amar. Exige-se o livre-arbítrio para amar no sentido total. Um mundo de autônomos, de criaturas que trabalhassem como máquinas, não valeria a pena ser criado. As pessoas precisam ser livres, a fim de poderem adentrar aquele relacionamento salvífico com Deus, o qual o próprio Deus planejou para nós. Devemos admitir que foi arriscada para Deus a decisão de criar um mundo como o nosso. Suponho que Deus sabia que esse risco valia a pena, em face dos benefícios que colheria. Era preciso conceder-se liberdade ao homem a fim de vir a existir a possibilidade de uma aliança pessoal entre ele e Deus. Nenhuma outra coisa proporcionaria esta aliança.

De acordo com a Bíblia , os homens são criaturas que rejeitaram a vontade de Deus e desviaram-se de seus planos (Ecl.7:29). Este fato constitui outra prova importante de que Deus fez os homens verdadeiramente livres. É evidente que os homens não são marionetes presas a um barbante. São livres até o ponto de lançar suas vontades contra a vontade de Deus. Na verdade, nós nos desviamos do plano que Deus esboçou, ao criar-nos, e atravessamo-nos diante dos propósitos de Deus, bloqueando-os. Obviamente somos livres, porque agimos como uma raça, de maneira a quebrar a vontade de Deus, e destruir os valores que Deus considera altíssimos para nós.

Extraído do livro “Eleitos, mas livres” da Editora Vida

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2 comentários sobre “Afinal de contas de quem é a culpa?

    1. Amigo, Gama Ribeiro, deixei duas respostas a voce em dois tópicpos diferentes. Aliás, é a mesma resposta.

      Está no artigo “Deus e o Tempo” e “Soberania e Livre Arbítrio”.

      Boa leitura

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